Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2017

Roberto Bolaño: "Escreve tu a poesia por mim"

Imagem
Por Toño Angulo Danieri


Augusto Monterroso deixou por escrito os três destinos que esperam o latino-americano que pretende dedicar sua vida à leitura e à escrita: exílio, isolamento ou esquecimento. Não acrescentava exemplos, mas qualquer um que pense em Vallejo ou em Osvaldo Lamborghini ou no próprio Monterroso sabe a quem se referia o guatemalteco.
As cartas que Bolaño enviou ao seu amigo e também escritor chileno Bruno Montané entre setembro de 1976 e uma data indeterminada de 1997, e que acabam de chegar à Biblioteca Nacional de Espanha (BNE), situam o autor de Estrela distante ao menos em duas esquinas dessa latino-americaníssima trindade literária. Nelas aparece o Bolaño desterrado (“para os velhos o exílio é algo insuportável, para os jovens é a promulgação natural da aventura”), mas sobretudo o “ermitão que permanece recluso” (assim o descrevem numa revista chilena e em alguns livros – curioso, não?) e renunciado ao que se supõe ser a vida de um escritor contemporâneo, cheia d…

Boletim Letras 360º #228

Imagem
Esta é a nova edição de uma postagem que existe, como o número enuncia, há 228 semanas para reunir todas as notícias publicadas entre a segunda e a sexta-feira (ou extraordinariamente sábados e domingos) em nossa página no Facebook, cada vez mais próxima dos 66 mil moradores. Que notícias são essas? As selecionadas na web ou enviadas para nosso e-mail e que correspondem às linhas de interesse do blog.



Segunda-feira, 17/07
>>> Brasil: Fernando Pessoa pensador
Escritos sobre Metafísica e Arte é organizado por Cláudia Souza e Nuno Ribeiro. O livro reúne textos filosóficos de Fernando Pessoa e de outros "eus" pessoanos (Álvaro de Campos, Ricardo Reis e António Mora), cuja temática principal gira em torno da metafísica e da arte. Todos os escritos publicados foram transcritos a partir do espólio de Fernando Pessoa e de textos publicados em revistas com as quais ele colaborou. Fernando Pessoa foi durante toda a vida um leitor voraz, interessando-se pelas mais diversas área…

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Imagem
Por Rafael Kafka


Há uma carta de Mário Andrade que circula pela internet que é bem interessante para servir de mote a esse texto. O destinatário da missiva é outro escritor brasileiro célebre, Carlos Drummond de Andrade, conhecido por seu temperamento taciturno e extremamente reservado. O assunto central da carta, dentre outros de menor importância, é o sentimento de religiosidade perante a vida. Mas Mário faz questão de falar ao amigo que tal religiosidade não é a veneração cega de alguma entidade qualquer e sim a existência plena em todas as suas possibilidades, o permitir-se a expansão sensorial e intelectual em todas as direções possíveis desta existência.
O sentido de tal assertiva se torna ainda mais pleno quando entendemos que a religiosidade como geralmente a entendemos vivida por espíritos conservadores é uma limitadora das possibilidades humanas. Em prol de uma salvação póstuma, o ser deve abrir mão de uma série de vivências pessoais para ser aceito em uma realidade superior…

Romances de Patrick Melrose (vol. 2), de Edward St. Aubyn

Imagem
Por Pedro Fernandes


Não importa o que se faça dessa vida. Se dediquemos a gastar cada minuto do tempo entre o ócio ou o trabalho exacerbado de construir uma eternidade, isto é, se aproveitemos ou não à maneira que nos for conveniente, sobretudo, se nos for dada a sorte de nos sobressair de todos os empecilhos que se mostram desde quando não passamos de uma vaga ideia na cabeça de um casal que gostaria de seguir o curso natural da existência com a reprodução. Nada importa. O fim é sempre o mesmo. Ninguém escapa à passagem inexorável do tempo, essa lâmina que corrói vagarosamente ou não a vida. 
Se são diversas as maneiras como transcorrem as vidas de cada um, e se o romance é, desde sua gênese, uma espécie de sismógrafo dessas diversidades individuais, por mais que o fim seja sempre o mesmo, não tem faltado exercícios que buscam observar de maneira igualmente diversa esse fluir da vida. E se, em algum momento, a crítica julgou sepultado esse interesse do romance, principalmente desde q…

Elvira Vigna, para sempre

Imagem
Por Pedro Fernandes


Em texto sobre O que deu para fazer em matéria de história de amor, Alfredo Monte lembra que Elvira Vigna “vem construindo uma marcante obra como romancista desde o final dos anos 1980, um universo áspero e cáustico, no interior do qual as protagonistas (daí o uso feroz de uma primeira pessoa muito peculiar, inconfundível, na narrativa)”. 
No último dia 10 de julho, os leitores que, desde então, ou muito recentemente, acompanhavam essa trajetória singular foram surpreendidos com a notícia sobre a morte da escritora. Apesar da intervenção da natureza que colocou um ponto final no que demonstrava ainda que renderia muitos frutos para a nossa tão frágil literatura, é possível dizer, ante os romances que nos deixou, que a obra de Elvira Vigna encontra-se entre aquelas das quais não é possível deixar de citar quando historicamente formos nos referir a esse período que cobre três décadas, a contar do ponto de partida assinalado por Alfredo Monte. Sobre as encruzilhadas d…

Fama e preconceito

Imagem
Por Andrea Aguilar


Cabe pensar que a única “verdade universalmente reconhecida” em torno de Jane Austen quase começa e termina na famosa frase com que inicia seu romance Orgulho e preconceito, aquela irrefutável suposição de que “um sozinho com dinheiro deve estar buscando uma esposa”. Em 18 de julho cumpre-se o bicentenário da morte da autora britânica aos 41 anos, uma romancista cuja fama póstuma e dedicados seguidores a converteram numa espécie de estrela de rock literária, um ícone cultural que desperta grandes paixões. 
Seus devotos leitores desenvolvem com ela uma peculiar intimidade e sentem um estranho esnobismo ou direito de propriedade que poderia resumir-se num “não toquem em minha Jane” ou “esse bando de fãs cafonas realmente não entendem sua obra”. O inflamado debate sobre a “leitura correta” de sua obra, sua popularidade ou transformação num produto pop e equivocadamente superficial, é algo tão clássico com os trajes de corte imperial usados por suas heroínas nas diversa…

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Imagem
Por Alexandre Rosa

Ainda como estudante da Escola Politécnica, Lima Barreto iniciou sua carreira literária escrevendo para a revista humorística Tagarela, criada em 1902, pelos caricaturistas Calixto Cordeiro e Raul Pederneiras. São textos importantíssimos para a compreensão ulterior de sua obra, na medida em que já podemos observar a prosa crítica e afiada do autor, dirigida para alguns temas que se tornariam constantes em sua produção.1
No texto "Vendo a Brigada stegomya" (Toda crônica, vol. 1), encontramos um procedimento muito peculiar à escrita barretiana, qual seja: uma espécie de estilo ensaístico, que serve de preâmbulo antes de o autor adentrar na problemática em si. Neste caso, estamos nos referindo aos comentários acerca dos “Batalhões” e “Brigadas” que se formaram para combater o mosquito da febre amarela no Rio de Janeiro do início do século XX.
As considerações prévias marcam a posição do escritor e o modo como interpretará o fenômeno a ser analisado, conforme …