Um romance com treze títulos


Clarice Lispector, graças ao trabalho ardiloso de pesquisadores, e antes disso, de leitores apaixonados por sua obra alcança os lugares mais interessantes da cena literária dentro e fora do Brasil. Sim, é graças ao trabalho dos pesquisadores porque o mercado editorial (para este salvam-se raras exceções) e o Estado brasileiro pouco ou quase nada têm contribuído nesse processo de reconhecimento. Tanto é verdade que, só agora, tanto tempo depois de sua obra ter sido publicada – seu último romance, A hora da estrela, faz 40 anos da primeira edição em 2017 – que esses lugares mais interessantes são ocupados pela escritora.

Referente ao mercado editorial, é bem verdade que no passado sua obra ganhou edição bem trabalhada – vale recordar as edições em capa dura editadas pelo então Círculo do Livro – mas, desde quando passou a ser publicada pela Editora Rocco, é bom dizer, a qualidade editorial muito ficou a desejar. Tantos anos depois, finalmente esta casa editorial se redime do tratamento dado a uma das obras mais interessantes da literatura brasileira.

Tal zelo, suspeita-se, se deve a dois motivos importantes de sublinhar: um de 2004, quando parte do acervo da escritora chegou a compor o arquivo do Instituto Moreira Salles; e quando, sete anos depois, um biógrafo estadunidense bem relacionado no estrangeiro e interessado pela obra de Clarice dedicou-lhe o texto Clarice, reeditado muito recentemente pela Companhia das Letras, depois da descontinuação da Cosac Naify, a primeira casa responsável pela referida obra. Nesse ínterim, é inegável o trabalho de pesquisadores como Nádia Battella Gotlib, com textos, edições de inéditos, biografia, fotobiografia, exercícios críticos, portanto, um trabalho ainda de maior envergadura que o propiciado por Moser, o biógrafo estadunidense.

Mas foi o IMS que começou a ampliar esse imaginário leitor em torno da obra de Clarice, até então ainda muito restrito a academia, com a publicação de livros, uma das suas edições riquíssimas dos Cadernos de Literatura Brasileira, um site para reunir informações de corte diverso – textos de apoio, explicações sobre a obra, videoaulas etc. – além da criação de uma data celebrativa chamada Hora de Clarice. A biografia Clarice, pelos motivos apresentados, ganhou circulação em diversos países, e reacendeu o interesse estrangeiro em torno da obra.

E onde o Estado nesse trabalho todo? Fique o silêncio como resposta, mas só uma outra pergunta: teria Clarice alcançado seu lugar no grande panteão se este Estado usasse pelo menos a lei do menor esforço?  As ações anteriormente descritas foram, sem dúvidas, as que contribuíram para colocar sua obra em evidência e colaborar para uma revisão na linha editorial – afinal, o conteúdo é sempre o que importa, mas se este recebe o tratamento devido (nesse caso à altura) melhor ainda. Os leitores merecem. Clarice merece.

Então, primeiro foi a publicação de um volume com todos os contos da escritora; organizado também por Benjamin Moser, o livro primeiro foi publicado fora do país e depois no Brasil. Poupe todas as críticas negativas sobre a disposição dos textos e mesmo a inclusão de gêneros que não contos mas assim catalogado num intuito de oferecer aos mais curiosos uma febre mesmo pequena provocada pelo vírus do ineditismo, a repercussão positiva da obra entre os leitores brasileiros parece ter servido de último sinal para a compreensão da editora sobre o quanto é fundamental revisar graficamente a obra mais ilustre do seu catálogo.

E assim, aparece A hora da estrela, edição comemorativa dos 40 anos e com ela a promessa de que um novo tratamento gráfico é pensado para o conjunto da obra. Fartamente ilustrado com os manuscritos que formam a base de composição do romance talvez mais conhecido, o livro é um deleite aos olhos mais exigentes. Começaram bem, portanto. Este não apenas o título mais lembrado quando é citado o nome Clarice – é também a coroação de uma obra em tudo capaz de revolucionar a nossa literatura e se inserir, como muita facilidade, no cânone universal. Com este romance, a brasileira ata muitas pontas.

Ninguém conhecedor de pelo menos parte da crítica contemporânea à obra de Clarice duvidará que A hora da estrela foi ainda uma resposta muito segura contra a insistência de que a obra da escritora era uma repetição do chamado romance de cunho psicológico nos moldes do praticado por Virginia Woolf e James Joyce e contra as acusações de que esse tipo de romance não respondia pelas questões históricas, sociais e políticas dos sujeitos, sobretudo numa nação como era o Brasil do tempo da escritora, tomado por uma sorte diversa de atrasos, modelos políticos ultrapassados e um exercício ferrenho de imposturas dos do poder contra o povo (não que as coisas tenham mudado tanto assim de lá para cá, mas há uma consciência que não nos deixa mentir sobre o regresso das forças de repetição da ordem do mando sobre nós).

Foi preciso reinventar a compreensão de que a chamada arte desinteressada do engajamento social não estava assim tão alheia ou distante dos problemas contextuais, isso porque sabe-se agora da impossibilidade de se produzir objetos artísticos fora dessa ordem e mesmo a negação pode ser lida como uma estratégia de criticar ou se aproximar do conteúdo e das formas sociais. Mas, até que se alcançasse essa compreensão, Clarice terá preferido responder da maneira melhor que podia responder: escrevendo. E, assim, podemos falar sobre A hora da estrela, romance colocado na tênue fronteira do romance social e do romance psicológico. No final de contas isso também terá passado despercebido para grande parte dos leitores de seu tempo, sobretudo aqueles que tomaram a obra como uma espécie de homenagem da escritora ao chamado romance regionalista de 1930, o que, da parte de Clarice é muito provável que não tenha sido nada disso.  

Publicado em 1977, o romance, como sublinha Clarisse Fukelman, na apresentação para o site do IMS dedicado à obra da escritora, é formado por uma narrativa organizada em contraponto. “De um lado, a história da ingênua Macabéa, migrante nordestina pobre em luta pela sobrevivência na cidade grande; de outro, o drama do escritor e seu processo de criação ao retratar uma pessoa distante de seu universo socioeconômico e ser capaz de se comunicar com ela” – observação que só confirma a suspeita antes citada, afinal Rodrigo S. M., o narrador de A hora estrela, é a própria Clarice, a que tomada pelas acusações da crítica no anseio pela forma do romance social se coloca entre a possibilidade ou não de compor uma figuração explicitamente engajada sobre um tema então em moda na nossa literatura e tão caro: o da relação de embate entre as forças do tradicional e do moderno, resquícios do movimento modernista, ou o disparate entre as forças da nossa raiz mais autóctone, arcaica, e as fabricadas de acordo com os códigos copiados dos modelos capitalistas, o universo plástico e, portanto, mais falso, nossa urbanidade. Novamente é válido citar Clarisse: todo esforço de Clarice é em não ser rude, nem piegas – “O tom do livro oscila entre a compaixão por um ser tão frágil, a angústia diante de uma forma de escrita incompetente para ser comunicar com os miseráveis, e a ironia, anunciada no nome dos personagens”.

Avessa a falar publicamente sobre sua própria obra, a conclusão de A hora da estrela, na ocasião quando gravou sua última entrevista, ao repórter Júlio Lerner na TV Cultura, em fevereiro de 1977, serviu para uma pequena incursão da escritora pelo universo que havia criado. Aqui, vale um parêntesis, para recontar as ocasiões citadas por Colm Tóibín, num texto que foi o primeiro prefácio da obra nos Estados Unidos, e ilustrativo sobre a aversão de Clarice por esses lugares designadamente para escritores. Conta Tóibín que Elizabeth Bishop, então radicada no Brasil (viveu por aqui entre 1951 e 1966), disse em carta a Robert Lowell sobre a tradução de cinco contos de Clarice com o intuito de publicá-los no The New Yorker – “acho que ela precisa do dinheiro, e vem a calhar, pelo tanto que o dólar está valendo... Mas bem na hora [diz Bishop], quando eu estava para remeter o material, faltando um, ela sumiu. Completamente, e por umas seis semanas!”

A outra situação também está registrada noutra correspondência de Bishop, agora de junho de 1963: “Clarice foi convidada para mais um congresso literário, na Universidade do Texas, e está mostrando-se muito encabulada e complicada – mas, no fundo, acho que está muito orgulhosa – e é claro que vai. Vou ajudá-la em seu discurso. Acho que seremos ‘amigas’ – mas ela é a mais não-literária entre os escritores que jamais conheci, jamais abre um livro. Nunca leu nada que eu conheça. Acho que é uma escritora ‘autodidata’, como um pintor primitivo”. Fora o discurso meio de aproveitadora ou mesmo de se colocar tão próxima de Clarice quanto importante, nota-se bem como a obra da escritora galgou, no seu tempo, quase sozinha seus próprios passos e reafirma a relação pública entre a escritora e sua criação.



Agora, neste encontro com Júlio Lerner para a TV Cultura, Clarice cita que havia acabado de escrever uma obra – com “treze nomes, treze títulos” (segredo que se revela logo à entrada da edição comemorativa: “A culpa é minha”, “O direito ao grito”, “Quanto ao futuro”, “Lamento de um blue”, “Ela não sabe gritar”, “Uma sensação de perda”, “Assovio no vento escuro”, “Eu não posso fazer nada”, “Registro dos fatos antecedentes”, “História lacrimogênica de cordel”, “Saída discreta pela porta dos fundos”). Aliás, cabe uma observação sobre o seu trabalho criativo: na mesma entrevista, ela explica como publicou seu primeiro livro, esteve sempre inclinada para a escrita, mas nunca foi alguém sistemática com o andamento da escrita; escrevia em papéis soltos e os guardava – a obra nascia-lhe mentalmente e durante a forja de sua unidade retomava aos fragmentos que colecionava no intuito de garantir vida ao imaginado. E assim atesta a reprodução das diversas notas de origem para A hora da estrela reproduzidas ao longo da edição agora apresentada.

Aos olhos de Clarice, este romance é "a estória de uma moça, tão pobre que só comia cachorro quente. Mas a estória não é isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima". Além do exercício de construção mental, essa história de Macabéa ganha corpo por dois episódios experienciados pela escritora, como registra na mesma entrevista de 1977: a sua própria infância no nordeste brasileiro (quando a família de Clarice veio da Rússia para o Brasil, viveram primeiramente em Alagoas, lugar de onde veio a personagem da obra) relembrada de uma visita a uma feira onde nordestinos se reuniam em São Cristóvão, no Rio de Janeiro; nessa ocasião, diz ela, pode capturar "o ar meio perdido" do nordestino na cidade grande. Além disso, na época de escrita da obra, depois de uma visita a uma cartomante, ela imaginou como "seria engraçado se na saída, ela fosse atropelada depois de ouvir todas coisas boas que a cartomante previra". A situação foi transposta para a narrativa.

A hora da estrela foi publicado em 26 de outubro de 1977, pouco antes de Clarice ingressar no hospital do INPS da Lagoa, no Rio de Janeiro, quando se agrava sua enfermidade e morre em menos de três meses depois. Quase póstumo, o romance que produziu uma das personagens mais emblemáticas da nossa literatura pode ser, numa obra possível de ser lida sem obedecer a ordem cronológica, uma entrada ao universo clariciano. Aí estão, para recuperar as palavras de Eduardo Portella no prefácio à primeira edição de A hora..., “a perda, o vazio, o oco”, instâncias metafóricas exploradas pela “autodidata” Clarice em toda sua obra.

A edição ora apresenta, além dos manuscritos que conformam uma bela tessitura visual, está farta da observação crítica, simples e significativa, capaz de oferecer entradas diversas à obra; são textos da citada Clarisse Fukleman, Nádia Battella Gotlib, Eduardo Portella e Colm Tóibín, mas também de Paloma Vidal, Hèlène Cixous e Florencia Garramuño– escritos que reafirmam o lugar e a importância desta obra, que, 40 anos depois, é já irretocável e, portanto, um clássico da grande literatura. 

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Comentários

ara mim, resta uma dúvida: por que a insistência em tentar rotular a obra de Clarice, por exemplo, com o esdrúxulo epíteto de "romance social", quando há referência ao livro "A hora da estrela". Para quê isso? O que é mesmo o tal de romance social... quanta perda de tempo meu Deus...
Gilberto Tavares disse…
Ao meu ver, a matéria aqui apresentada não rotula "A hora da estrela" como romance social. Ela critica os que acusaram a escritora de escrever o que chamavam por romance social. Para o Infopédia o "romance social é um gênero de romance que dá relevo à narração dos costumes, das motivações comportamentais e dos padrões de conduta. Tem em atenção e expõe os modos de vida, os preconceitos e os valores de uma sociedade".

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