Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay



Há maneiras diversas de como a literatura construiu suas figurações acerca do gay ou das identidades múltiplas do sujeito. Numa escala, tais construções transitam entre o ocultamento ou velamento à exposição, entre a interdição pública, privada ou pessoal, à revelação e o assumir-se, encabeçando uma abertura às lutas pelo respeito sobre a diversidade, o que não é, de maneira nenhuma só uma obrigação da sociedade e sim uma necessidade clara de tornar esse respeito uma constante dos valores nobres do humano. Assim, foi que pensamos em organizar esta lista – oferecendo o máximo das diversidades e o máximo de possibilidades de como a literatura, dentro e fora do Brasil, referiu-se até agora sobre o tema e suas proximidades. Isso porque compreendemos a literatura como espaço fundamental capaz de nos oferecer uma maneira outra de pensar o de fora dos padrões impostos como a normalidade do mundo.

Maurice, de E. M. Foster. Publicado em 1971 depois da morte do escritor, que não quis trazer este romance quando em vida por temer o alvoroço que poderia causar, a obra se converteu rapidamente num texto emblemático de uma experiência vital comum a milhões de pessoas. A narrativa se dá em torno da descoberta e vivência do amor homossexual entre dois jovens. O valor do romance, entretanto, não reside apenas na exploração comovedora e magistral de um tema então considerado tabu, mas a decidida e otimista vontade de Foster de redimi-lo das sombras, tormentos e preconceitos. Leia mais aqui.

Bom crioulo, de Adolfo Caminha. Este é considerado por parte importante da crítica como o primeiro romance de temática gay na história da literatura latino-americana. Publicado em 1895, a obra foi motivo de escândalo para elite intelectual e silêncio para os leitores. Adolfo Caminha não toca apenas no sensível (e então indiscutível) tema do amor entre dois homens, mas de sexo inter-racial num ambiente militar. Amaro, a personagem principal do romance, é um escravo foragido que anseia ser dono de seu próprio destino; depois de ser aceito como marinheiro, sua liberdade voltará a estar condenada quando aí conhece um belo grumete adolescente louro, de olhos azuis, por quem se apaixona.

O segredo de Brokeback Mountain, de E. Annie Proulx. Nos onze contos marcados por uma extraordinária variedade de personagens, a escritora estadunidense nos transmite através de uma prosa lírica, embora às vezes truculenta, sua visão da América profunda mediante o retrato da vida em Wyoming. O conto que dá título à obra foi transformado em filme pelo diretor Ang Lee, produção que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Narra a história de Ennins e Jack, dois vaqueiros que iniciam uma relação muito além da amizade. A narrativa acompanha o andamento dos anos da vida entre os dois marcada pelas frequentes separações e traduz a ideia simples, mas não vã, de que o amor é possível de superar todas as coisas – exceto (e aqui está o elemento dramático e pessimista) a violência e intolerância do mundo.

Em uma só pessoa, de John Irving. No pequeno teatro de First Sister, no estado de Vermont, o adolescente Billy Dean se desdobra em levar diante papéis complexos, mas não tão difíceis como o teatro de sua vida. Aos treze anos seu dia-a-dia muda totalmente: é quando conhece seu futuro padrasto, o atraente Richard Abbott. À medida que avançam os cursos, Billy embarca na busca pela sua identidade, com o forte interesse por conhecer quem é seu verdadeiro pai.

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara. Esta obra foi descrita como uma narrativa que segue o tom da grande literatura estadunidense. Um romance sobre o que diz e o que escondem os homens; de onde vem e para onde vai a culpa; quanto importa o sexo; a quem podemos tratar como amigo; e, qual o preço da vida quando esta deixa de ter valor. Eis a história  de mais de três décadas de amizade na vida de quatro homens que crescem juntos em Manhattan. Quatro homens que precisam sobreviver ao fracasso e ao sucesso e que ao longo dos anos aprendem a superar as crises econômicas, sociais e emocionais. Quatro homens que compartilham de uma ideia muito peculiar sobre intimidade e uma maneira de estar juntos feita de poucas palavras e muitos gestos.

O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer. É um grande relato de um amor adolescente interrompido muito antes de os envolvidos saber até aonde seriam levados pela correnteza desse rio caudaloso que é o primeiro amor; e, noutra parte, é a execução, tantos anos depois, da possibilidade uma vingança – os termos talvez nunca sejam bem esses, mas talvez uma libertação de uma angústia e um ódio acumulados durante tanto tempo, para não dizer de toda uma vida. Camilo, o condutor do relato tem a marca dos narradores machadianos, seja pelo estado de completa condição à parte do comum, seja pelo tom melancólico e sombrio que despeja quando olha para sua posição atual, seja ainda pela maneira com que constrói suas reflexões sobre os do seu entorno. Exercício de memória, a narrativa não é apenas sobre o primeiro amor entre meninos, mas sobre as descobertas do outro, de si, do corpo, do desejo. Leia mais aqui.

Carol, de Patricia Highsmith. Uma jovem cenógrafa que trabalha temporalmente como vendedora conhece uma sofisticada mulher divorciada que muda para sempre o rumo de sua vida. Este é um romance de amor entre mulheres conhecido por ser um dos primeiros a apostar no final feliz ou na plena possibilidade de realização do amor gay. Ante a impossibilidade social, até então, todas as narrativas do gênero sempre conseguiam um jeito trágico de resolver os desfechos das relações amorosas entre os do mesmo sexo. A obra, publicada primeiro com um pseudônimo, tornou-se uma das mais emblemáticas da escritora famosa por seus romances policiais.

Alexis ou o tratado do vão combate, de Marguerite Yourcenar. “Retrato de uma voz”, assim chama a própria escritora a longa carta que Alexis escreve à sua companheira, onde expõe seu doloroso combate. Assim assistimos a exposição de um tema que poucos se atreviam a falar em 1929 – data de quando foi publicada a obra. Num país hoje desaparecido, num momento de ampla transformação histórica e social, Alexis se detém em dar conta dessas transformações em sua própria carne, uma tentativa de expor sua relação consigo e com sua identidade.

Orlando, de Virginia Woolf. Nascido no seio de uma família de boa posição em plena Inglaterra elisabetana, Orlando acorda com um corpo feminino durante uma viagem à Turquia. Como é dotado de imortalidade, sua trajetória então atravessa mais de três séculos, ultrapassando as fronteiras físicas e emocionais entre os gêneros masculino e feminino. Suas ambiguidades, temores, esperanças, reflexões – tudo é observado com inteligência e sensibilidade nesta narrativa que, publicada originalmente em 1928, permanece como uma das mais fecundas discussões sobre a sexualidade humana. A um só tempo cômico e lírico, Orlando mostra o trajeto do personagem entre embates com armas brancas, acalorados debates filosóficos no século XVIII, a maternidade e até mesmo num volante a bordo de um automóvel. Tudo isso vem costurado pela prosa luminosa de Woolf nesta que é uma das grandes declarações de amor da literatura ocidental.

O beijo da mulher aranha, de Manuel Puig. Este é um romance duro e terno sobre a relação entre dois homens numa prisão argentina – um deles por seu ativismo político, o outro por ser gay e acusado de corrupção de menores. Foi obra proibida durante a ditadura militar na Argentina e é uma história realmente impressionante, já que não fala apenas de política, mas de empatia entre os seres humanos, de amor e amizade, do poder da ficção e da fantasia para superar a dor e o horror.

O mestre, de Colm Tóibín. O autor deste escreveu vários romances de tom homoerótico e aqui se apropria de Henry James, um dos grandes romancistas e explora a repressão, o terror de ceder a alguns desejos que nessa época capaz de nem ter nome. Tóibín humaniza James, simpatiza com aqueles que optaram por colocar a razão sobre os afetos  e nos conta uma história tão universal como desoladora.

O reencontro, de Fred Uhlman. Dois jovens de dezesseis anos são colegas de turma. Hans é judeu e Konradin, um rico aristocrata membro de uma das mais antigas famílias da Europa. Entre os dois surge uma intensa amizade e se tornam inseparáveis. Um ano depois, tudo estará terminado entre eles. Estamos na Alemanha de 1933, e, depois da ascensão de Hitler ao poder, Konradin fará parte das forças armadas nazistas enquanto Hans parte em busca de exílio. Só muitos anos depois, vivendo nos Estados Unidos, onde tenta esquecer o fatídico passado que os separou amargamente e a princípio para sempre, Konradin reencontra Hans. Um comovente livro.

O imoralista, de André Gide. Publicado em 1902, é uma história suave e sofisticada de um homem, Michel, que, após recuperar de uma doença grave, começa a ver o mundo, a natureza, a sociedade e a sua própria sexualidade sob uma perspectiva radicalmente diferente. As alusões de Gide à homossexualidade de Michel são muito delicadas, aparecendo apenas indiretamente, mais por subentendidos relacionados com a situação descrita que por uma referência clara e objetiva: a preferência de Michel por estar entre trabalhadores de "classe baixa", a sua admiração por Moktir, um jovem árabe a quem tudo é perdoado, o beijo roubado ao condutor Siciliano, bem como os parágrafos finais mais francos e diretos sobre Ali. A narrativa de escrita simples e linear, mas muito elegante e quase poética, em primeira pessoa, se porta como se alguém contando as suas próprias experiências numa confissão sussurrada.

Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho. Alguém à beira do precipício que, para adiar a morte precisa recontar o vivido, ora abertamente para esse sultão prestes a explodir (ou não) numa língua que ele não entende, ora com suas próprias perquirições psicológicas sobre o vivido. É uma visão em retrospecto sobre a vida – ou melhor sobre aquela parte significativa, no sentido de, por mais tempo vivido, o que nos fica é pouco ou quase nada. Do Rato, as ocasiões recorridas são as da separação da mulher e da filha tão logo envolve-se sexualmente com um pesquisador em neurociência numa de suas idas a Berlim, chihuahua. A relação entre esses dois homens ganha uma proporção fora dos limites da razão: os capazes de nos arrebatar desse mundo para outro onde vive-se numa harmonia sonolenta capaz de ruir ao menor ruído que nos afete os sentidos. Marcados por uma dominação de ordem sexual, corporal e um embate entre interesses individuais – assinalando um pressuposto de haver em todas as relações um jogo de interesses capaz de sustentá-las ou levá-las à ruína – a narrativa passa a investigar todos os meandros desses dois num extenso jogo que logo deixa de ser o da sedução e encanto como em todo o início de amor para se tornar acusatório e persecutório. Leia mais aqui.

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