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Mostrando postagens de 2017

Mar morto e milagre dialético

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Por Rafael Kafka


Mar morto tem a mesma lógica dialética de "Cadeira", o que talvez explique em algum grau a amizade existente entre Jorge Amado e José Saramago. Nos dois textos narrativos, uma novela e um conto, o processo dialético transcorre sem que as personagens tenham esperança em sua ocorrência, muitas vezes sequer tendo consciência de sua possibilidade. Dulce, a professora de ar frágil do romance amadiano, é a única que talvez perceba alguma outra realidade em potencial que seja diferente da existência de exploração dos pescadores que em seus saveiros vivem em estranha comunhão com o mar.
O poder de síntese de Jorge Amado no romance aqui abordado é impressionante. Em pouco mais de 250 páginas de uma edição de bolso, fui capaz de me deparar com uma linguagem repleta de lirismo, sem perder em nenhum momento o viés social capaz de se mostrar na obra romanesca. Assim como em Gabriela, o outro romance de Amado lido por mim até agora, neste Mar... temos diante de nós um cont…

Desamparo, de Inês Pedrosa

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Por Pedro Fernandes

A vida é trânsito fugaz de existências. E Inês Pedrosa elegeu, através da sua literatura, a tentativa de captá-las. Por isso, cada livro seu se constitui numa reunião bastante heterogênea e, portanto, complexa de fotogramas cujo núcleo são os elementos que nos acompanham e participam para o bem e para o mal do enforme desse universo convencionado por todos como realidade. Nos dois títulos mais recentes da escritora – Dentro de ti ver o mar e este motivo destas notas, Desamparo – é cadavez mais visível tamanha preocupação. Nesse sentido, a escritora lida com materiais extremamente delicados e capazes de fazer com que suas narrativas se tornem, muito cedo, objetos obsoletos: é o grande risco que corre os escritores imersos demais nas vagas de seu tempo.
No caso específico da escritora portuguesa, os indícios do falhanço não são verdadeiros nem tampouco evidentes. Isso porque, magistralmente, as tais questões ainda não assentadas não estão no plano principal de seu i…

Um instante de amor, de Nicole Garcia

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Por Pedro Fernandes


Quem encontrar Marion Cotillard em Rock’n roll. Por trás da fama, fazendo papel de si mesma, como uma dedicada atriz sempre capaz de tornar seu dia-a-dia outro para compor a vida de personagem significativa poderá sondar quais exercícios terá cumprido para encontrar o espírito dessa figura do romance de Milena Agus adaptado para o cinema por Nicole Garcia. A impressão é apresentada aqui porque não é tarefa das mais fáceis assumir certo ar da rebeldia adolescente num corpo de balzaquiana e é este o perfil de Gabrielle.
O contexto dessa personagem é o do limiar entre as determinantes da tradição patriarcal, onde às mulheres são delegadas as tarefas de zelo e subserviência ao marido e à casa, e o nascimento de liberdade feminina fora desses moldes opressor. Não bastasse isso, Gabrielle é a filha mais velha numa família de mulheres. Sem pretendentes, porque os que conhecem seu temperamento não se aventuram a propor casamento ou porque ela própria se coloca como a figu…

A ignorância, de Milan Kundera

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Por Christopher Domínguez Michael


Não sem certa culpa descobri, ante A ignorância, que há quinze anos não lia um romance de Milan Kundera. A brincadeira (1967), A vida está em outro lugar (1973) e O livro do riso do esquecimento (1978) formam uma trilogia essencial na e sobre a história contemporânea da Europa. Irei mais longe: Kundera foi decisivo para que muitos leitores ocidentais rompêssemos as últimas amarras sentimentais e simbólicas com o universo stalinista. Quando vivíamos à sombra da cinzenta árvore da ciência, perdíamos o tempo buscando em Trótski, Bruno Rizzi, Charles Bettelheim ou Rodolf Baho uma iluminação teórica que prometia entender esse eufemismo chamado “real socialismo”. Kundera, com essa convicção não apenas brinda a arte do romance, aparece para permitir, às vítimas da ilusão lírica, o festejo da queda do Muro de Berlim em 1989.
Mas a história castiga seus profetas. Kundera, nascido na antiga Tchecoslováquia em 1929 e refugiado em Paris desde 1975, olhou de fora…

Sepulcros de vaqueiros: uma oportunidade única e fascinante

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Por Patricio Pron


Rigoberto Belano, narrador de “Pátria” (o primeiro dos três textos que compõem Sepulcros de vaqueros [Sepulcros de vaqueiros]), recorda que quando era criança brincava com seus irmãos a “converter os momentos felizes em estátuas”; e enquanto foge de Santiago do Chile no carro de Patricia Arancibia, se descobre desejando que “alguém, um anjo que nos observasse do céu, convertesse [em estátua] a velocidade e a fuga”.
Poucas literaturas são mais relutantes a adotar uma rigidez estatuária que a do seu autor, Roberto Bolaño; catorze anos depois de sua morte, essa obra nem sequer pode ser dada como concluída: de 1996 a 2003 (seus anos de maior visibilidade), Bolaño publicou 11 livros; desde esta última data até a atualidade publicaram 10, entre eles 4 imprescindíveis: 2666 (2004), A universidade desconhecida (2007), As agruras do verdadeiro tira e Bolaño por sí mismo [Bolaño por ele mesmo] (estes dois últimos de 2011). A existência de outros inéditos cujo título se deu a …

Boletim Letras 360º #236

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Uma semana muito especial para a literatura brasileira: depois de quase uma década e de muitas promessas, enfim temos a data de apresentação do novo romance de Milton Hatoum [imagem]. Esta e outras informações que copiamos no mural do Letras no Facebook estão aqui reunidas. 


Segunda-feira, 11/09
>>> Brasil: Lima Barreto pornográfico. O escritor teria assinado duas histórias picantes com o pseudônimo de Pelino Língua
As mais recentes descobertas foram divulgadas pelo jornal Folha de São Paulo. Os folhetos são provavelmente de 1912 e até então não se sabia qual nome o escritor havia utilizado para assinar as histórias. O autor assinou "O Chamisco ou o Querido das Mulheres" e "Entra, Sinhór!..." como Pelino Língua. Pelino, não custa lembrar, é uma personagem do conto "A nova Califórnia". Foi o pesquisador Felipe Rissato quem encontrou a novidade. Agora, dos folhetos nenhuma notícia do paradeiro; sabe-se da existência deles graças à biografia de Fran…

Matadouro 5: um soldado perdido no tempo

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Por Grace Morales



Alemanha, fevereiro de 1945. A cidade de Dresden era um gigantesco hospital de guerra, seus edifícios convertidos em refúgio para os feridos da frente oriental. O abastecimento de comida, cada vez mais escasso. Muitas fábricas já haviam sido destruídas pelas bombas dos aliados. Mas Dresden mantinha uma junção ferroviária que podia prejudicar os interesses soviéticos, cujo exército já se encontrava às portas da Silésia. A inteligência britânica decidiu reabrir a Operação Thunderclap de 44, render pelo ar as resistências do oeste, mas desta vez só as cidades mais importantes. Para acelerar no tempo o fim da guerra, decidiram bombardear Dresden, conhecida como a Florença do Elba pela enorme quantidade de museus e monumentos, uma cidade repleta de beleza. A noite de 13 de fevereiro, os pathfinders britânicos arrasaram Dresden em duas ondas de bombas incendiárias. Deixaram casas e seres vivos consumidos por uma chuva de fogo gigantesca que succionou o oxigênio e fez explo…

Avenida Niévski, de Nikolai Gógol

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Por Pedro Fernandes



Apesar de só recentemente os estudos literários dedicarem alguma atenção sobre  o espaço enquanto categoria multiforme e portanto plurissignificativa no e para a narrativa literária, esta parece haver galgado a obsessão desde sempre. O conto de Nikolai Gógol é um exemplo disso: data de entre 1832 e 1842. Detalhe: trata-se de uma peça que integra um conjunto textos nos quais o escritor russo escolheu como mote criativo Petersburgo. A cidade era, então, capital do Império Russo, papel que exerceu até 1918, quando as instituições administrativas do governo mudaram para Moscou. Já a avenida que dá título ao texto é a via principal de Petersburgo. Logo, a escolha de Gógol em situá-la como protagonista da narrativa não é gratuita. 
À maneira de um cronista seduzido pela importância, magnitude e imponência da avenida Niévski, o narrador, contrariando a crítica que faz à pintura russa, acusando-a de ser destituída de cores vivas e movimento, oferece-nos um retrato vivaz e …