sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen, o apaziguador sussurro

Por Fernando Navarro



Figura capital da música contemporânea, Cohen demonstrou durante toda sua carreira que não havia mentira em sua obra. Cantava a verdade. E, de maneira mais assombrosa e dolorida possível, o fez pela última vez em You Want It Darker, seu último álbum, publicado há apenas um mês. Um álbum que soava despedida, que, com sua crueza instrumental e sua voz íntima e sombria, ficou esculpido como um barqueiro do Hades, servindo de trânsito até o outro lado da margem infinita. Como cantava na obscura composição que dá título ao trabalho, o músico confessava com seu tom grave que estava “fora de cena”, “velho” e “coxo”. “Estou preparado, meu senhor”, dizia num estribilho que agora já se sabe era premonitório. “Imagino que sou alguém que simplesmente renunciou a mim e a ti”, destacava em Traveling Light. Era uma obra em que planejava a morte do início ao fim. Esta que agora chegou.

Nascido em Montreal, Canadá, em 1934, Cohen, que cresceu no meio de uma família judaica, foi poeta antes de músico. Entre 1959 e 1966 publicou cinco livros de poesia pelos quais recebeu grandes elogios da crítica e comparações com James Joyce. Mais tarde, em 1967, mudou-se para Nova York e passou a frequentar a Factory de Andy Warhol e o hotel Chelsea, nutrindo-se do bulício artístico de uma metrópole imparável. Ali conheceu Judy Collins, para quem dedicou sua canção Suzanne, mas também conheceu John Hammond, o caça-talentos que descobriu Billie Holiday e Bob Dylan, entre outros, e que permitiu gravar em Columbia seu primeiro disco.

Publicado em 1967, Songs of Leonard Cohen era uma fabulosa rara avis em plena efervescência do rock psicodélico. O poeta e cantor demonstrava uma sensibilidade extraordinária para tratar de assuntos sentimentais elevados a outra dimensão graças às suas poderosas imagens e conotações religiosas. Suzzane, Sisters of Mercy ou So Long, Marianne soavam com clássicos do folk, com esses arpejos delicados, essas guitarras acústicas e esse timbre espiritual de sua voz. Songs from a Room, que veio à luz apenas dois anos depois, rastreou com a mesma lucidez e estética febril essas emoções vagabundas. Story of Isaac, Bird on the Wire ou The Partisan, revisão da canção francesa composta durante a Segunda Guerra Mundial La complainte du partisan, consolidavam o músico canadense como um autor de primeira categoria.

Em 1974, saiu New Skin for the Old Ceremony, produzido e  arranjado por seu amigo o pianista John Lissauer. Através de canções como There is a War ou Field Commander Cohen, o músico desenvolveu uma ampla rede de metáforas sobre a guerra para referir-se à batalha pela existência, algo que marcaria sua lírica até o fim de seus dias quando em seu último álbum incluía Treaty em que sugeria o fim de uma guerra com uma solução pactuada. Em 1977, juntou-se com o prestigiado produtor Phil Spector para produzir Death of a Ladies Man, mas os resultados não foram muito satisfatórios e ambos acabaram por se separar.

Sucedeu a esse trabalho outras duas obras: Recent Songs e Various Positions, publicadas em 1979 e 1985, respectivamente. Nelas, o compositor mantinha seu perfil de vigilante sentimental, com canções que terminaram por se converter em clássicos de seu cancioneiro como The Gypy’s Wife, Dance Me to the End of Love e Hallejujah, uma de suas canções mais regravadas. Mas o sucesso comercial só chegaria três anos depois desse último trabalho, isto é, em 1988, com I’m Your Man, onde se propôs inovar incluindo sintetizadores. Este disco pôs o músico numa órbita maior, transcendendo os âmbitos do folk onde sempre figurava.

Como um cavaleiro, com seu chapéu e sua sensibilidade estilística Cohen aportava sex-appeal à nobre arte de compor canções e cantá-las. Sua interpretação vocal, muitas vezes criticada e entendida como uma espécie de ser um anti-cantor, guardava uma sensibilidade maravilhosa. Com esses tons sossegados e essas evocações poéticas, o músico se mostrava extraordinariamente íntimo e humano, capaz de gravar com suas canções os sinuosos traços da alma. Um perfil que não perdeu em trabalhos como The New Songs, publicado em 2001.

Os reconhecimentos, através de discos-tributo, palavras recebidas por outros artistas ou prêmios começaram ainda nos anos noventa enquanto somavam-se alguns fracassos comerciais. Pior foi uma vida levada com fortes episódios de pânico, problemas com o álcool e a dependência a antidepressivos. Foi encontrar o sossego necessário no mosteiro budista de Mount Baldy até que em 2005 anunciou que havia sido traído e enganado por seu representante Kelly Lynch, que havia desviado milhões de dólares do trabalho do artista para outra conta.

Caiu na ruína. Precisou vender a própria casa para seguir adiante. Mas foi o detonador para regressar à carreira ainda com mais força, protagonizando alguns concertos magníficos de quase três horas. Já septuagenário, Cohen demonstrou que, além de conseguir resolver os problemas financeiros com os direitos autorias, estava em forma invejável. Os discos Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014) estavam repletos de baladas e meios tempos de sugestões fascinantes, onde reivindicava a maturidade e a reconciliação do passado com o presente.

Fascinado pela figura de Federico García Lorca, desde que se encontrou como um livro do poeta espanhol numa livraria quando tinha 15 anos, o músico recebeu, dentre os importantes prêmios literários, o Príncipe de Ásturias das Letras em 2011, honraria concedida a nomes como Günter Grass, Amos Oz e Paul Auster. No discurso de agradecimento mencionou sua dupla condição de poeta e músico popular: "A poesia vem de um lugar que ninguém controla e ninguém conquista". O nome dele sempre esteve cotado durante anos para o Prêmio Nobel de Literatura. Na coletiva de imprensa depois de receber o galardão, disse que Lorca foi o poeta que “mais influenciou” na sua juventude. “Foi o primeiro poeta que me convidou a viver em seu mundo”. Tanto, que à sua primeira filha deu o nome de Lorca. Já em 1986 havia participado do disco Poetas em Nova York, em que nomes como Lluís LLach, Paco de Lucia, George Moustaki e Angelo Branduardi musicalizavam, em modo de homenagem, poemas de García Lorca.

Como o gênio que era, sua morte, igual ao que fez David Bowie com Blackstar, foi anunciada com elegância em You Want It Darker, um testamento belo que agora cobra já toda sua força esplendorosa. Se apaga definitivamente o sussurro do guardião sentimental do folk, que se manteve sempre fiel à sua figura de sedutor inteligente, que, como rezava seu hino Dance Me to the End of Love, dançou com nós até o fim do amor, através do pânico e da beleza, como um violino em chamas, até mostrarmo-nos suavemente nossos próprios limites.

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* Este texto é uma tradução livre de "Muere Leonard Cohen, el apaciguador susurro se apaga para siempre" publicado no jornal El País.