terça-feira, 20 de setembro de 2016

A graça imortal de David Foster Wallace

Por Rodrigo Fresán



Um fantasma percorre a América do Norte (e o resto dos continentes) e esse fantasma é o de David Foster Wallace. E seu cada vez mais vital espectro (seu corpo nascido em 1962, sua alma aparecida em 2008, previu rapidamente o suicídio) reaparece trazendo nas mãos as sagradas escrituras do romance pelo qual é melhor lembrado e, talvez, pior compreendido e apressadamente imortalizado.

Graça infinita, publicado em 1996, aqui e agora, figurando em toda em toda e qualquer lista sobre as jovens marcas do fim e começo do milênio literário (ao lado de American Psycho, de Bret Easton Ellis, quem considera Wallace um farsante hipervalorizado). Graça infinita não cai de moda porque é uma moda em si mesma. Um desses livros – como A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, Moby Dick, O homem sem qualidades, Ulysses ou Em busca do tempo perdido que permanecem, mesmo sem sequer ser aberto, nas mesas de cabeceira ou nas listas de promessas a não se cumprir para as leituras de ano novo. Um totem / fetiche que se divide entre adoradores, entre os que tecem juras de amor por ele ou o maldizem, entre os que o consideram um inventivo grande romance estadunidense ou nada mais, e nada menos, que a invenção de outro romance grande made in USA.

Já desde seu título o próprio Wallace antecipou a dúvida e o mal-entendido: sai desse momento em que Hamlet sustém a caveira do bufão Yorick e evoca sua “inteligência interminável” mas, ao mesmo tempo, insinua a possibilidade de que tudo seja como uma dessas piadas que seguem e seguem sem alcançar jamais o arremate de seu desfecho. E se sabem os audaciosos e convertidos que até ali chegaram: mais de mil páginas e numerosas notas depois, Graça infinita finda sem acabar de um todo, como no ar azul desse céu com nuvens brancas que ilustrava sua primeira edição.

Por isso mesmo, a lenda continua e o lendário não detém sua marcha. Vinte anos depois é reeditado nos Estados Unidos uma edição comemorativa assinalando suas duas primeiras décadas como clássico; edição com prefácio do escritor e cronista Tom Bisell. A única coisa estranha nessas celebrações é que nenhum colega maior ou menor esteticamente mais próximo a Wallace como Thomas Pynchon, Don DeLillo, William H. Gass, Joshua Cohen, William T. Vollmann, Blake Butler, entre outros, se animem, apoiem ou mesmo sejam convidados a honrar o monstro, sucedendo a primeira ressurreição de há dez anos. Então, agora parece que há só o Wallace retocando erratas com introdução de Dave Eggers, discípulo feliz, quem propõe o livro como dardo / branco perfeito à hora do eterno duelo do difícil contra o fácil.  

Primeira edição de Graça infinita.


O que mudou neste tempo? É claro que a estatura mítica de Wallace, quem segundo Javier Calvo, tradutor de Graça infinita para o espanhol, é hoje percebido como "um Kurt Cobain da literatura, epítome da agonia da criação, congelado em sua roupagem dos anos noventa, não se apagou". O que acontece como nestes casos (de Sylvia Plath a Roberto Bolaño) é que sua obra inteira passa a ser lida com base em sua biografia. Assim, agora, os depressivos tenistas, homens de família e revolucionários presos num filme mortal em Graça infinita com reflexos distorcidos mas fieis – embora sem cair em tiques e taras da autoficção tão em voga – têm seu melhor lugar, embora quando publicada a obra esta já havia se convertido quase num produto de sucesso, potenciado pela pena infinita de seu precoce auto-eject. Isto é, há um olho de cronista social que ao olhar para sociedade como olha recria-a para os de seu tempo e os filhos de seu tempo.

Gesto finito, último e mortal, consequência em parte, talvez, do fracasso assumido de não encontrar a volta a essa outra “coisa grande” que acabou ficando por concluir – O rei pálido. Desde então, Wallace tem habitado memoirs de amigos como Jonathan Franzen e de ex-namoradas como Mary Karr; tem sido o transparente inspirador de personagens embaçadas em romances como Liberdade (de Franzen) ou A trama nupcial (de Jeffrey Eugenides); protagonista de um recente bipic; recopilado póstumo em modo de entrevista ou em peças soltas; sujeito a ser dissecado cada vez mais por numerosos volumes acadêmicos que vão da análise de seus motivos sintáticos e religiosos a questões tratadas pelo chamado pós-modernismo; sujeito de uma biografia que o desmistifica e ao mesmo tempo o engrandece; matéria radioativa a figurar em isolados e numerosos guias de leitura; e até desconstruído e voltado a construção numa versão de Lego a cargo de – detalhe muito wallaceano – um menino de 11 anos que talvez nem exista, quem sabe.

Que desfrutem se, por fim, se atrevem ao seu descobrimento ou redescobrimento. E, certamente, inevitavelmente voltaremos a falar sobre tudo isso em dez anos, quando não haveremos deixado de falar – e, oxalá, de ler a obra de Wallace.

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>>> Leia mais sobre Graça infinita


* Este texto é uma versão de "El chiste inmortal de Foster Wallace cumple 20 años" publicado no jornal El País.