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Mostrando postagens de Julho 17, 2016

(reflexo)

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Por Lucas Miyazaki Brancucci



Aquele rapaz, moleque, garotinho sórdido, não sabia fazer nada com eficácia. Fazia hora extra num café do centro, ficava ao pé das ruas, vagava pelas praças e apenas andava a ler certos contos de Cortázar, um dicionário de física, um Livro do Desassossego e poemas de Herberto Helder que carregava na mala; atravessava noites na Biblioteca Mário de Andrade. Qualquer coisa cômica da mediocridade burguesa ocorria-lhe nos seus trajes e sotaques. É bem provável que seus dias não passassem de um teatro necessário para aquela obscuridade sonhada. Lia restos de jornais antigos na calçada.
E ali encontrava-se, nos seus momentos raros, tão invisíveis e passageiros, mas metido na sua liberdade bruta e rastejante de estar solto e desprezível, habitando aqueles chãos subterrâneos do Anhangabaú.
Recostado à parede em frente aos trilhos, com as pernas deslisando inquietas, a sua mão flutuava a pena da caneta ao longo do caderno-poema, enquanto sentia com o próprio corpo …