quarta-feira, 13 de julho de 2016

Anton Tchekhov: o monge negro

Por Crypt Vihâra



A literatura russa é reconhecida universalmente como uma das mais ricas em vivências humanas. É uma literatura de fundo fortemente realista, egocêntrico e psicológico. O indivíduo nela se absorve, se concentra na radical manifestação de si próprio, sem recato e com tal indiscrição de causas e de sentimentos que se inclina, se rende de maneira essencial.

Quase todos os escritores russos têm o objetivo de plasmar na concepção de suas personagens a alma russa, tão autênticas que não se parecem a outras pessoas apesar de vivências e valores comuns a todos os seres humanos. Há nelas certa falta de pudor literário que é, talvez, sua força e razão primordiais. Passa com as personagens tão plasmadas em suas multifacetadas qualidades, por seu realismo humano, que não podem prescindir de fatores ambientais e outros: da neve, a estepe, a vodca, a sopa de repolho, os ícones, o pathos, se opera uma simbiose geoecológica.

Cada personagem está constituída de certas coisas específicas em sua forma e conteúdo. Lendo Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Gógol, Górki, ou outros, sempre estaremos num ambiente de oferta íntima do indivíduo, de uma desnudez anímica absoluta com uma quase impudica dogmática e religiosa. E é que os escritores russos são de uma temeridade vernácula e uma elaboração plástico-realista de seu ambiente beirando em exibicionismo, em gozo de confessionário. Esta é a alma russa, caótica e contingente numa sociedade complexa e ameaçadora sempre; uma sociedade dura e castigadora. Refiro-me à sociedade czarista, ambiente adotado pelos grandes escritores do verismo russo, da catarse psicológica.  

Há como um desejo de autodestruição, de martírio fanático naquela humanidade tonicamente religiosa, que não parece haver sabido digerir a religião e a incorporado por meio de enxerto físico. Parecem amar por amor mesmo a extrema dureza e a crueldade. Cada personagem no romance russo parece comprometida consigo mesma a ser mais intensamente reveladora que o outro, num mea culpa costumeiro.

Estas qualidades básicas da literatura russa lhe imprimem um tom purgativo. É um romance quase sempre com estremecimentos anímicos, cor, odor, calor, sentimentos, intensidades, paixões, conflitos, vinganças, esperanças, crueldades... e como um paradoxo moral, o malvado é portador do mais fervoroso credo religioso e daria a última gota de seu sangue pela Santa Mãe Rússia. Nele convivem a sagrada devoção e a maldade diabólica, os arrependimentos, e se contorcionam as emoções humanas.

Anton Tchekhov e Maksim Górki.

Nas memórias literárias e autobiográficas de Maksim Górki, a trilogia composta por Infância, Ganhando meu pão e a ironicamente intitulada Minhas universidades, encontramos o exemplo do avô do escritor que rezava numa esquina sob uma imagem para logo açoitar seu neto amarrado a um banco, nu. E temos a mãe de Górki próximo a morrer ainda muito jovem (uma figura triste e sumamente poética que vive à sombra numa espécie de cochilo) tomar um machado e tratar de matar um menino porque tardou demasiadamente em levar um recado ao mando ausente que não é o pai de Górki. O machado falha e ela morre. Nestes mesmos livros são narrados a morte de um jovem a quem apelidam “o menor”, filho adotivo da família. Um dos filhos do avô de Górki matou sua esposa com sofrimento e golpes e agora quer honrá-la colocando sobre a tumba esta gigantesca cruz. Obrigam ao jovem a levar sozinho a pesada cruz, cai acidentalmente e a cruz o mata. Não se trata de uma paródia da crucificação, mas um caso de oportunismo e desconsideração.

Os romances russos estão saturados quase sempre de barbárie moral e outros complexos: masoquismo, sadismo, usurpação, megalomania, loucura, assassinos e matadores de aluguel, avaros etc. Alguns exemplos: a dama nobre que coloca sua melhor roupa para assistir a surra que propõe a um de seus servos, ou o marido que mata a golpes sua mulher no leito conjugal.

Em sintonia com a realidade social russa da época, Anton Tchekhov criou suas personagens incertas num contexto em que a antiga classe aristocrática, havendo perdido o brilho e o poder de antes, se consumia lentamente frente aos ditames de uma nova ordem encarnada na incipiente burguesia. A Rússia da segunda metade do século XIX, convulsionada pela agitação político-social que daria vida à revolução, tomava consciência de sua história nacional pela mão de um grupo de intelectuais liderados por Alexander Pushkin, Tolstói e Fiódor Dostoiévski; ao mesmo tempo era protagonista de uma mudança profunda que ameaçava quebrar os oxidados cimentos do sistema tradicional.

Em 1861, sob o reinado do czar Alexander II, havia sido decretada a abolição da servidão. Os antigos mujiques se convertem em homens livres; obrigados a trabalhar por seus próprios meios, começam a formar uma baixa burguesia concentrada no campo e nos redutos de trabalhadores de São Petersburgo e Moscou. As rígidas estruturas da nobreza vem-se sacudidas por uma classe que começa a interatuar, os limites se desenham e o conflito se divide entre os herdeiros de uma ordem instituída no sangue e os representantes de um novo modo de vida regido pelo trabalho e pelo sacrifício.

Tchekhov é, ao mesmo tempo, protagonista e privilegiado espectador da mudança que se operava na Rússia e sobe plasmar, com extrema lucidez, as flutuações de um país que se encaminhava lentamente até a modernidade e a industrialização. Ao longo de sua curta carreira como escritor deu grande impulso à narrativa curta e ao teatro, seguindo uma original estrutura dramática que o levaria a ser reconhecido no mundo inteiro.

O monge negro talvez não seja seu melhor título, mas é tão poético e imaginativo que o impacto que causa ao lê-lo dificilmente nos abandonará. É uma novela de tese, gênero muito cultivado na literatura francesa. Partindo da proposição de se o louco genial é superior a uma sociedade (mais útil, mas desejável e conveniente) que o medíocre racional e são, Tchekhov desenvolve seu argumento amparando-se em sua preferência pelo primeiro. Entram em jogo certas considerações da parte do leitor, este se esforça em ver o anverso e o reverso da moeda. Há que tomar em consideração, por exemplo, o número de gênios (e estes nunca são muitos) e de medíocres que sempre são em grandes quantidades. Ao fim terminamos dando razão ao escritor e amparando-nos condicionalmente no louco genial.

Trata-se de um homem jovem, Krovin, cuja genialidade, a bem dizer a verdade, não está propriamente exemplificada. Sabemos que é escritor e filósofo e se designa como mestre. Esta personagem é um homem alegre, feliz, entusiasta da vida; dorme muito pouco, estuda, e ama a beleza. Vai de férias a uma propriedade russa, a casa de um amigo de sua família, para ele quase um segundo pai, de quem havia se separado havia alguns anos. O pai adotivo tem uma magnífica vila num imenso jardim e um horto na qual cultiva frutas, além de ser um fanático para quem o jardim representa sua razão de ser, seu orgulho, sua vida em si. Tem uma filha de dezoito anos, Tanya, que é escrava do jardim e do horto, presa neste amor preferido por seu pai. O jovem vem catalisar a dormente realidade com sua genial loucura, com sua alegria e jeito piadista; mas ninguém sabe de sua anormalidade. Um dia o jovem sai para passear pelo jardim, adentra na propriedade, chega a um rio cercado de pinheiros cujas raízes protuberantes são tentaculares. Atravessa o rio e fica extasiado ao contemplar o horizonte, em meio de um campo de centeio agitado pela suave brisa. Num momento vê no horizonte uma enorme coluna negra, sua alma se aperta de gozo, seus olhos se fixam intensamente; vê como a coluna vai reduzindo de tamanho, vem até ele, já se desenha a silhueta de um ser humano, de um monge medieval ortodoxo vestido de preto; vem, vem, ladeia a cara pálida, sua boca de lábios delgados que se distendem ligeiramente; há timidez em seu olhar, mas o jovem consegue que lhe olhe por um instante. Há um momento de compreensão, de contato entre ambos e o jovem sente uma alegria eufórica. O monge não se detém, segue seu caminho. Distancia-se por entre as árvores, vai se agigantando, desaparece...

O jovem regressa à mansão tomado de um entusiasmo vital, se encontra com a filha do amigo de sua família (quase sua meia-irmã), e se apaixonam; ele acha a fragilidade dela atraente. O horticultor aprova o idílio, quer herdeiros consagrados que cuidem do jardim e do horto e aprecia o jovem por sua inteligência, considerando-o como o filho ideal... Passam os charmosos dias de férias, o jovem pouco dorme, talvez meia hora; as noites sempre gasta escrevendo, lendo, em contato idílico com sua prometida presente ou ausente. O jovem noivo escapa das tertúlias de canto e música que celebra ao menos sua futura esposa e seus vizinhos e se senta só. O monge vem e se senta ao seu lado... Mas, curiosamente o jovem sabe que ele mesmo forjou a lenda do monge, que é um espelhismo que faz parte de sua vida diária, que é sua “droga” para o êxito e uma estimulação consciente a qual vive espontaneamente escravo; o monge o estimula a viver feliz.

O jovem necessita da companhia do outro, vive uma dupla personalidade, mas o destino chama à sua porta. O pai da jovem propõe que se casem. Ele aceita, casam-se e vão viver em Moscou. Na nova casa, uma noite a companheira acorda e observa seu companheiro em animada conversa com o monge. Há consternação, incompreensão, pânico... Por acaso o pai da jovem está com eles e logo decidem levar o jovem ao psiquiatra. Começa o tratamento com compostos de brometo, banhos quentes, descanso, leite. O enfermo melhora, mas já não é o mesmo: o monge negro partiu, seu talento de escritor desapareceu; é agora um homem normal medíocre que faz oposições à uma cátedra numa universidade. Tudo o desgosta: sua vida, o jardim onde conversava com sua aparição, sua mulher. A vida lhe parece insuportável e anseia por sua loucura, suas discussões interessantes com o monge.

Tchekhov nos mostra no último capítulo da novela, o jovem separado de sua mulher e casado com outra (não se explica como ocorreu) caminhando por Crimeia. Estão de férias à beira-mar. O escritor nos mostra agora um jovem desencantado e enfermo tratando de refazer sua vida, de trabalhar em seus escritos. Estão numa hospedagem, fora brilha a lua. Abaixo, no primeiro antar, os hóspedes riem; estão alegres. No lugar somente se ouve a respiração de sua amante, Várvara Nikolayevna, que dorme.

O jovem medita, a vida lhe parece demandar demasiado pelas satisfações mais triviais que oferece. Ele, que estudou durante quinze anos, é um desempregado e no fim de tudo um medíocre. Mas, termina reconciliando-se com seu destino e acredita que cada homem deve conformar-se com o que é. E ele é, além de um desencantado pela vida, enfermo de tuberculose... (a enfermidade da qual morreu sua mãe). Supostamente a tuberculose foi a enfermidade da época romântica, século XIX e princípios do XX, mas neste caso resulta em algo retórico.

O jovem, sentado numa noite frente à baía, se dá conta, por um momento, que tem uma carta de sua ex-companheira nas mãos; entra em seu quarto e lê. Ela lhe conta a morte do pai e o acusa de ser o provocador da mesma. O enfermo se excita, volta à varanda. Durante um momento ouve a música de um violino no piso inferior e mulheres que cantam. A velha sensação de alegria e felicidade retorna; segura a respiração, o peito estala, o coração parece que vai deixar de bater, sente aquele arrebatamento esquecido. Um enorme pilar como de água aparece ao lado oposto da baía e com incrível agilidade atravessa o hotel. O monge negro reaparece e retira o capuz, mostra seu cabelo gris, sua cara pálida, suas sobrancelhas pretas espessas, seus pés descalços e com as mãos cruzadas sobre o peito, passa ao seu lado e se detém no meio do quarto.

O enfermo está eufórico, pensa que é de novo um eleito de Deus e de novo um gênio. Quer responder-lhe, mas um gosto de sangue enche-lhe a boca. Fazendo grande esforço trata de chamar a amante, mas é o nome de sua esposa o que vem à sua boca. E aí ao seu lado está o monge negro repetindo-lhe que é um gênio. Quando sua amante acorda, o jovem está morto; em sua cara há um sorriso de felicidade congelada...

Esta novela de Tchekhov se presta a diversas perspectivas. Olhada por um especialista em tuberculose não veria outra coisa que um caso clínico, um tísico delirante. É conhecido que a doença produz delírio cerebral, espelhismos e sensações óticas e auditivas. Sem dúvida, o enorme atrativo, a sedução que exerce sobre o leitor reside em sua beleza poética, na do espelhismo tão habilmente administrado.

Tchekhov na leitura pública de A gaivota

Filho de um comerciante que havia nascido servo, Tchekhov nasceu em 29 de janeiro de 1860 na Ucrânia. Em 1879 se muda com sua família para Moscou, onde alterna os estudos de medicina na Universidade de Moscou com a composição de narrativas curtas para diversas publicações humorísticas. Quase não exerceu a medicina devido ao seu sucesso como escritor e porque padecia de tuberculose num tempo em que a doença era incurável. A primeira antologia de seus escritos humorísticos apareceu em 1886 e sua primeira obra de teatro estreou em Moscou no ano seguinte. Com a estreia de Ivanov, a obra de teatro em questão, iniciou sua carreira nesse meio, que o deu fama universal. Herdeiro do realismo social de seus antecessores, a obra de Tchekhov é difícil de vincular em algum movimento estético e por isso tem sido admirado tanto quanto detratado. Suas peças não revelam claramente sua tendência; de sua leitura surge um traço do romantismo subjetivista. Em 1888 ganhou o Prêmio Pushkin e já então havia escrito mais de 200 narrativas curtas.

Dentre estas, além da novela citada, vale ainda destacar Enfermaria n.6, um prodigioso relato que não é só a descrição da amizade que vai surgindo entre um jovem paranoico, Iván Dmítrich, recluso num manicômio e o diretor do estabelecimento, Andrei Efímych, quem termina sendo acusado de demente e internado na mesma sala que seu paciente, mas também uma fábula acerca da situação de frustação e impotência dos intelectuais russos no final do século XIX. Num dos capítulos de sua já clássica obra, Rumo à estação Finlândia, Edmund Wilson relata a profunda comoção que produziu no jovem Lênin a leitura dessa novela: "foi presa de um horror tal que não pode permanecer em casa".

Em 1890, Tchekhov vistou a colônia penitenciária da ilha de Sacalina, na costa da Sibéria, para fugir das inquietudes da vida de intelectual urbano e posteriormente escreveu A ilha de Sacalina, um relato de sua visita. Tomado pela tuberculose se estabelece nos arredores de Moscou, onde trabalhará na criação de sua obra dramatúrgica.

Quase no fim do século conheceu o ator e produtor Konstantín Stanislavski, diretor do Teatro de Arte de Moscou que, em 1898, representou a obra A gaivota. Essa união entre dramaturgo e diretor de teatro que continuou até a morte de Tchekhov, rendeu várias encenações da obra do escritor russo: O tio Vania, As três irmãs, O jardim das cerejeiras. Em 1901 casou-se com a atriz Olga Knipper, que havia atuado em várias de suas peças. A frágil saúde do escritor o levou a mudar-se, em 1897, de sua pequena propriedade próximo a Moscou para a Crimeia, de clima mais quente; também fez frequentes viagens aos balneários da Europa Central; morreu na Alemanha no dia 15 de julho de 1904.