sexta-feira, 13 de maio de 2016

Quando defender a criticidade é ser subversivo

Por Rafael Kafka

Arte: Zeren Badar (detalhe)


Em seu Verdade Tropical, no meio de tantos movimentos políticos e culturais importantes Caetano Veloso faz questão de citar o método Paulo Freire. Criado pelo pedagogo brasileiro, tal método consiste em utilizar aspectos do cotidiano dos estudantes para promover a alfabetização e o consequente letramento dos mesmos. Vale ressaltar, que letramento e alfabetização não são a mesma coisa: alfabetização condiz ao processo de aquisição da linguagem verbal e letramento é o uso social da língua. Todo letrado é alfabetizado, mas nem todo alfabetizado é letrado: muitas pessoas conseguem ler um texto, mas não consegue explicar o que entenderam do mesmo, ligando ao mundo concreto.

Nesse sentido, o método de Paulo Freire se liga ao interacionismo de Vigotsky, importante teórico russo que desenvolveu a partir do construtivismo de Piaget a visão dos saberes humanos como algo socialmente construídos. Tanto o método quanto a forma de pensar do teórico russo levaram a profundas mudanças no modo como ensinamos hoje em dia: ao menos em tese, os professores devemos fazer com que os alunos liguem aspectos de seu cotidiano aos saberes construídos em sala. Somente desse jeito, eles passam a entender as condições concretas nas quais vivem e criam consciência dos processos de dominação presentes em suas existências. Por meio dessa consciência, cria-se também a autonomia para mudar a realidade em nível individual e coletivo por meio de uma reflexão concreta.

Esse método é brevemente citado em Quarup de Antônio Callado, quando uma das protagonistas se propõe a educar os camponeses por meio de aspectos de sua vida laboral. Ao passo que aprendem as palavras e suas respectivas escritas, os camponeses começam a entender como são explorados pelos patrões em suas vidas diárias e veem no saber vivo uma forma de melhorar de vida e estudar.

Callado explicita o porquê do método ser perigoso e ter levado Freire ao exílio, como Caetano cita em seu imenso ensaio autobiográfico sobre o tropicalismo: o conhecimento quando deixa de ser estanque se torna perigoso, subversivo, desperta os estudantes para os acontecimentos ao seu redor. Desse modo, eles começam a entender a realidade como algo dialético e não apenas dado, fechado em si mesmo. De certa forma, o método freireano nos desperta para o óbvio ululante da aprendizagem: ela deve servir de despertar para a realidade humana em todo seu esplendor. O professor, como mediador de saberes, é alguém com uma visão de mundo definida e seus métodos indicam o que é relevante para ele de ser visto.

Mas Freire teve de se exilar do país por conta de seu comunismo. Por mais que no caso em questão haja clara influência do ideário marxista e existencialista, fica evidente o quanto qualquer debate acerca de mudanças de base se torna demonizado diante da opinião pública nacional. Sempre é bom lembrar o que diz Terry Eagleton: o significante já possui um significado. Muitas pessoas, ao se depararem com a palavra comunismo, veem diante de si um termo demoníaco, cheio de energias e propósitos ruins. Isso se deve pelo histórico de perseguição ao pensamento de esquerda iniciado nos tempos da Guerra Fria pelo macarthismo americano e expandido pelos países parceiros do sistema de governo neoliberal de então, como a ditadura militar brasileira.

Numa época em que a perseguição ao pensamento comunista produziu um profundo sectarismo, conteúdos curriculares como filosofia e sociologia foram excluídos do ensino básico e até hoje sofrem profundo preconceito por parte de pessoas ligadas aos saberes exatos, naturais e da saúde. Isso se deve por ter ficado em suas mentes a ideia das ciências humanas e do saber pedagógico como algo ligado a vândalos baderneiros que só querem arruaçar e nada querem de trabalhar. Fazer manifestações políticas se tornou então um ato típico de gente vadia que não gosta de trabalhar e quer ser sustentado pelo governo. Por conseguinte, todo saber que exibia as contradições do mundo para os estudantes passou a ser visto como doutrinação marxista. O ápice do protesto contra essa suposta doutrinação se deu na última prova do ENEM, quando algumas pessoas viram em uma proposta de redação sobre a violência contra a mulher o jugo do pensamento comunista.

Há um incrível reducionismo nessa postura, com pessoas ignorando diferenças sutis entre coisas como o pensamento de esquerda, o pensamento marxista e coisas como stalinismo, a versão mais cruel do socialismo real. Quando tentamos explorar as nuances desses conceitos para debatermos a necessidade de luta por uma sociedade mais igualitária, logo somos demonizados em nossa postura e tão somente temos diante de nós pessoas agressivas prontas para o ataque. Freire, como Gramsci, é mais um a ser visto como uma influência maléfica a produzir espíritos rebeldes.

O curioso é que um crítico do comunismo sectário stalinista defende, de certa forma, o que Freire defendia. Tzvetan Todorov em seu Literatura em Perigo afirma que a literatura não cativa por ser ensinada desde as universidades para os futuros professores como algo sem vida. Ao invés de levarmos aos nossos alunos textos concretos a serem lidos, levamos uma série de regras de leitura e de análise as quais, insípidas, afastam os novos leitores do prazer do texto literário. Além da chatice de tais regras, os textos geralmente não são escolhidos com o fito de falar da vida dos estudantes. A preocupação em dar conta de certo cânone não promove uma reflexão concreta a partir da leitura literária.

Ou seja, os aspectos culturais que deveriam ser relevantes para qualquer forma de ensino também na literatura encontram-se ausentes do processo de ensino e aprendizagem. Por mais que o autor russo fale do sistema educacional francês, muito pode ser aproveitado em nosso contexto, em que cada vez mais analfabetos são produzidos. Temos uma educação que peca em diversos aspectos, mas o principal é justamente o fato de ser puramente tecnicista em diversos setores, pouco preocupada em formar cidadãos críticos e conscientes de seus papeis enquanto agentes a mudarem a realidade. O modo como a educação funciona em nosso país, focando nos lucros profissionais e dando prestígio elevado a certas áreas e desprezo a outras fomenta uma sociedade cada vez menos preocupada em se educar para ser mais e se conhecer melhor.

Dia desses, em uma discussão em um fórum do Facebook da universidade onde estudo, deparei-me com estudantes de áreas exatas menosprezando os saberes produzidos pelas áreas humanas e da linguagem, como simples balela e doutrinação. Claro que há exceções, e muitas, mas vi neles a concretização do fato de que para muita gente estudar política é perda de tempo. A obviedade dos fatos políticos, para tais pessoas, é similar à das fórmulas matemáticas. Não que estudar tais fórmulas seja fácil, porém uma vez compreendidas elas se mostram como algo mais estável, estanque, do que qualquer variável humana, política.

Assim, numa sociedade tecnicista e tecnocrata, super valorizadora de números e lucro discutir o social é perda de tempo e usar os saberes do currículo da educação básica para fomentar consciência política é doutrinação, é crime. Não é de se estranhar que em um contexto tão perseguidor do pensamento crítico e humano leis como a da Escola Livre de Partido comecem a ganhar força em certos setores da sociedade. Se tais leis forem aprovadas, em breve tudo o que as disciplinas pedagógicas de nossas universidades nos ensinam será jogado ao lixo, pois falar de temas do cotidiano pode ser visto como subversão e seremos sumariamente presos. Passamos por um momento em que a reflexão concreta e a necessidade de levar o prazer da leitura a todo canto se torna cada vez mais imperativo para garantir mais humanidade aos nossos processos sociais.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.