quarta-feira, 30 de março de 2016

A cor púrpura, de Alice Walker

Por Renato Fernandes



A autora Alice Walker criou um livro um tanto diferente de outros e um mundo que deixa o leitor agradecido porque este, apesar de muitos dos acontecimentos ainda se repetir, não é mais o seu próprio mundo. De 1900, o tempo da ação do romance, para cá, muita coisa mudou. Mas, muito ainda está por mudar porque a história da humanidade tem sido uma história de retrocessos.

A protagonista Celie, uma jovem negra nascida numa cidade segregada, conta sua história através de cartas. Muitas delas são escritas para Deus e outras para sua irmã Nettie. Há algumas cartas que são escritas por Nettie para sua irmã e ela explica sua história quando está na África. Na sua maioria, tudo está escrito em primeira pessoa, mas há algumas em que a escrita reconta o que outros disseram. O título significa a mudança e a transformação que a protagonista experimenta através de sua vida.

O tempo rememorado por Celie é o de depois que a escravidão foi abolida nos Estados Unidos e antes do movimento dos direitos das mulheres, assim, duas dominantes do texto são os temas do racismo e do sexismo. De modo que é possível afirmar que esta é uma obra sobre a opressão das mulheres pelos homens e uma trajetória sobre a possibilidade de obter a independência deles.

Apesar da relação monologal que a personagem desenvolve com Deus através das cartas, não se pode dizer que esta seja uma literatura que versa sobre religião, muito embora, ao se referir sobre uma transformação da vida pessoal da personagem, possa se admitir, pelo que já disse Alice Walker, que esta seja também uma trajetória sobre o conhecimento espiritual.

Essas considerações, leia-se, são fundamentais para o leitor saber sobre as intenções da escritora, a forma e o estilo como construiu sua narrativa. Quando lemos A cor púrpura podemos ficar ao lado de Celie, sentir suas emoções, experimentar as dificuldades que ela enfrenta, passar pelo desfecho altamente significativo que se mostra no final do romance. Dizer que o livro está organizado por cartas  é dizer mais que a organização desse romance é muito diferente de outros. As missivas criam, além da intimidade do leitor com quem as escreve, certa facilidade de acesso ao conteúdo vivido e experienciado por Celie.

Cada carta é breve e isso faz com que o livro tenha um fluxo de leitura livre. Embora alguns possam acusar de que a parte ruim é que as cartas não estão datadas e nem se identificam de nenhuma maneira e fica limitado o retorno a uma determinada correspondência específica, essa construção dá ao texto uma condição de obra quase indeterminada ou um tempo histórico suspenso – essa estratégia adotada por grande parte da literatura que quer se distanciar do material da história para depois não ser chamada de romance histórico.

Cada uma das cartas começa apenas com um “Querido Deus”, “Querida Nettie” ou “Querida Celie”. Não há outra referência que as diferencie. No início, todas as cartas são escritas para Deus e a informação é muito simples. Logo, durante sua transformação, Celie não quer escrever a um Deus que significa o homem branco ou homens em geral e por isso ela passa a escrever para sua irmã. Mais adiante, depois de sua transformação, ela não pensa em Deus como um homem branco, nem como um homem em geral; pensa em Deus como algo sem gênero e sem cor; pensa num Deus que é tudo. É quando recobra o tema conhecimento espiritual. Ao final do livro as cartas tornam-se mais complexas e não expressam apenas o que se passa, mas também discutem seus sentimentos mais profundos.

A obra carrega no drama e na seriedade como narra os acontecimentos. O tema da opressão, afinal, é muito triste e o que passou às mulheres é demasiado horrível. Alice preserva o estilo é informal não só porque Celie é a narradora mas porque nos quer convencer como se numa simples conversa o que foram os tempos do horror contra negros e mulheres.

A obra é também marcada, por isso, por uma transformação linguística ou discursiva de quem narra. Basta lembrar que no início a dicção do que se diz é muito simples, o uso da gramática é deficiente e depois, seja pelo exercício contínuo da escrita, seja do contato om as cartas da irmã – mais inteligentemente bem escritas porque teve alguma educação escolar que Celie não teve –, estão melhor escritas e as informações apresentadas são de teor mais profundo. Muito embora, nem Celie, nem Nettie, ressaltamos, utilizem uma dicção complicada. Também não se nega que essa seja uma estratégia utilizada pela escritora no processo de caracterização de suas personagens – isto é, impossibilitada de caracterizá-las diretamente o faz por via indireta.

Da mesma maneira são as apresentações sobre determinados acontecimentos na vida das personagens; dado o recurso da correspondência eles ficam limitados à informação sem muitos detalhes específicos sobre. Por exemplo, os abusos sexuais que Celie sofre do marido e do seu padrasto – duas situações fortes – são tratados com certa discrição e sem qualquer plasticidade. Estão aí inseridos para reportar um dos temas que já dissemos ser recorrentes de A cor púrpura que é o sexismo e a opressão sofrida pelas mulheres.   

Por falar nisso, é preciso sublinhar que tudo nesta obra se concentra em torno das relações: a relação entre Celie e os homens de sua vida, a relação entre ela e as mulheres suas amigas, entre ela e sua irmã, entre ela e sua espiritualidade, entre ela e a linguagem. O mais importante é como ela cresce enquanto pessoa, como ela extrai do horror a força para sua felicidade e a maneira como passa a se relacionar com essa diversidade de pares ao longo da escrita dessas correspondências. Outro elemento que esse recurso vem recuperar – além do efeito de intimidade com o leitor, da relação direta com os acontecimentos relatados e dessa exposição complexa de relações experienciadas pela interlocutora – é a de recobrar uma verdade do narrado. Estas cartas são fictícias, mas os temas trazidos por elas são da realidade do tempo vivido: a história oficial não negará os efeitos danosos do racismo e do sexismo.

Há muito simbolismo em A cor púrpura. A começar por esse título; depois pela variação da dicção de Celie. O púrpura não foi apenas a cor que simboliza a luta pelo empoderamento das mulheres desde o movimento sufragista inglês, é também uma cor que não aponta nem para o branco nem para o negro. Dizemos isso ao lembrar da maneira como ela concebe Deus no início de suas cartas e como o vê no final: “Querido Deus. Queridas estrelas, queridas árvore, querido céu, querida gente. Querido tudo. Querido Deus”. O vocativo, se por um lado expressa a alegria de reencontro com a irmã e os da sua família, é também uma maneira de marcar a ideia descentralizada que faz sobre um ente superior. O púrpura, se simboliza certa tristeza ou melancolia, também se deixa marcar pela sensação de prosperidade. É, portanto, um elemento significativo para a leitura e compreensão da atmosfera favorecida pela obra.

Pelo cariz histórico, também significa a independência. No início, quando Celie é maltratada mental, física e sexualmente, ela é invisível e só se veste de negro – uma cor triste. No fim da obra, depois de conquistar a independência dos opressores, ela veste-se de púrpura. Celie também tem uma amiga, Shug Avrey, que é uma mulher muito forte e independente e normalmente é descrita como a que usa uma roupa brilhante e púrpura. Depois de obter sua independência dos homens e sua felicidade, pinta seu quarto de púrpura. E, o próprio romance entrega esse simbolismo aqui destacado, quando em certa passagem Shug fala o que é a cor púrpura, algo no qual Celie precisa dedicar sua atenção por ser uma cor muito rara na natureza.

Não são apenas as cartas; a maneira como Alice Walker conjuga tema, símbolos e forma levam o leitor a uma estreita conexão com as mulheres do livro, a lutar com elas e sentir-se feliz pelo desfecho positivo que depois da luta. A prova do impacto que teve na cultura do estadunidense se observa pelas conquistas logo depois de sua publicação em 1982: um Pulitzer para a escritora no ano seguinte e uma versão cinematográfica de grande conhecimento do público dirigida por Steven Spielberg. Porque as questões que expõe ainda estão na pauta do dia em muitos países – inclusive nos Estados Unidos – esta é uma obra singular e indispensável ao leitor contemporâneo.