sexta-feira, 25 de março de 2016

A última convidada de Josué Montello

Por Rafael Kafka



A última convidada é o primeiro livro de Josué Montello que pego para ler e muito tem me agradado o estilo desse autor maranhense cuja obra mais famosa, Os Tambores de São Luís, espero ler em breve. Falando de um universo pequeno-burguês preocupado por demais com as aparências e as colunas sociais, o romance em questão é um interessante relato entremeado por memórias e crises existenciais ligadas ao sentimento de culpa.

Patrícia é uma moça que sofre de insônia e está prestes a comemorar 40 anos de vida e 18 de casada. Logo no começo do romance, em uma abertura a qual lembra No caminho de Swann de Proust. Assim como o texto proustiano, a prosa de Montello tem como intuito promover uma investigação narrativa da afecção que é o ato de recordar, como ilustra Paul Ricouer na primeira parte de seu  A memória, a história, o esquecimento. O ato de rememorar aqui é sempre provocado pelo presente, que cria pontes de analogias com o passado nem tão recente assim da vida de Patrícia.

Assim, o enredo é caracterizado por uma narrativa fluida e ao mesmo tempo densa. Frases curtas e verbos de ação fazem a história ter uma boa velocidade, controlada pelas idas e vindas ao passado. Uma solução interessante para Montello que preconiza mais a capacidade contadora de histórias das palavras do que sua capacidade de síntese e explicação, como Proust as usou em seu livro. Se o autor francês se preocupa em estabelecer uma visão plena da individualidade dos seres enciumados, Montello foca no andar das existências pela realidade concreta de uma classe social, mostrando como esse andar é ekstático, não limitado ao presente, sempre angustiado pelo futuro incerto e pelo passado vivo.

A data que marca o fim da juventude para Patrícia intensifica os seus encontros consigo mesma e a imagem de uma antiga amiga, Simone, volta à tona em seu mundo emocional. Simone era a namorada de Rodrigo, atual marido da protagonista da história, e amiga inseparável desta última. Dona de um temperamento estranho e possessivo, Simone não aceitava que a vida social de Patrícia não se resumisse à amizade das duas. Em um certo momento, Rodrigo e Patrícia se apaixonam e assumem um romance que logo vira casamento. Simone, então, é internada em um sanatório e até o momento em que a história começa ela ali se encontra.

A presença da amiga na vida de Patrícia se dá por um sentimento de ausência presente bastante forte, reavivado pelos comentários de pessoas próximas às duas que vivem a perguntar acerca da moça de temperamento solitário. Há nessas perguntas insinuações acerca do modo como Patrícia supostamente roubou o namorado de Simone, afundando a antiga companheira a se afundar em um estado de loucura profundo. Patrícia se nega a assumir a culpa de tal situação, mas nitidamente se mostra perturbada pelos comentários maldosos das pessoas próximas a si, ao mesmo em que organiza uma festa para comemorar o seu aniversário com todas aquelas que parecem estar mais preocupadas com a amiga injustiçada pela existência do que com ela e a recepção a ser feita.

Nesse sentido, ao mesmo tempo em que cria uma trama com interessante profundidade psicológica, Montello também avalia o comportamento de uma classe média preocupada com as aparências de felicidade e de riqueza. Em diversos momentos, o autor permite-nos ter uma imagem idiotizada de tais seres por meio de seus discursos. O engenhoso no texto do autor maranhense, algo que o aproxima esteticamente da prosa de Simone de Beauvoir, é o uso do discurso direto como uma forma de dar a tônica da história. É pelas falas que vemos o grau de afetação das personagens e a narrativa em si serve mais como indicador do cenário das cenas, quase como uma peça teatral com algo mais de densidade. Os discursos servem para exibir para o leitor a frivolidade de um conjunto de pessoas bem como as crises existenciais e de sono de Patrícia, grande leitora de romances e típica mulher da classe burguesa mais antiga que fica em casa a esperar o marido chegar das importantes viagens de trabalho.

Patrícia lembra a personagem de Machado de Assis que não queria envelhecer, impressionada com os elogios acerca de sua beleza a qual parecia jamais findar, mesmo com o passar dos anos.  A aparência em manter a estética de um ser adorável e adorado vicia ambas as protagonistas e o externo se torna essencial, essência. Algo que se revela nos menores gestos das pessoas pertencentes a ciclos sociais baseados em poder de consumo no tocante ao pertencimento. Montello foca bem em diversos desse fatores em sua prosa veloz, como as colunas de jornais evidenciando a beleza das festas, o poder do jornalismo paparazzi em criar ou destruir vidas, os ambientes cheios de luxo e de recato no agir, etc.

O que fica evidente em A última convidada é um contraponto interessante entre a felicidade externa e as crises internas da protagonista, a qual pode servir de espelho para análise de uma classe. Patrícia é alguém perturbada pelo seu passado, culpada pela ruína de uma amiga com quem tinha uma relação próxima demais, resvalando em diversos momentos para outro tipo de amor. Ainda assim, precisa demonstrar alegria e felicidade diante de todos, pois é isso que o seu mundo pede. Tal exigência de seu ciclo social é construída por uma narrativa atrevida e engenhosa em sua ambição de unir passado e presente em uma trama cheia de interessantes conflitos sociais que nos levam a refletir sobre o absurdo de uma existência pautada apenas na vontade de mostrar uma imagem de poder aos outros.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.