quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O regresso, de Alejandro González Iñarritu

Por Pedro Fernandes



O regresso é uma materialização do imaginário sobre o explorador estadunidense Hugh Glass, quem, pela vida que levou e os feitos heroicos converteu-se numa lenda popular; tanto que o trabalho conceituado de Iñarritu, louvado pela grandiosidade e pela beleza cinematográficas, não é o primeiro a reanimar os acontecimentos biográficos de Glass. É conhecido, dentre tantos outros, o poema “The song of Hugh Glass”, um dos cinco textos de tom heroico escrito por John G. Neihardt, este em 1915, o romance biográfico Lord Grizzly, de Frederick Manfred, finalista do National Book Award em 1954, o faroeste Fúria selvagem, de Richard C. Serafian, de 1971, e, mais recente, a reimaginação de Michael Punke no livro que serviu de propulsor ao filme de agora O regresso.

Possivelmente Iñarritu deva ter se alimentado, além das histórias populares que ouviu ou leu sobre Glass, de todas essas referências dado o seu aguçado senso de tornar crível, da maneira mais natural possível, os acontecimentos narrados pelo cinema, mesmo com as infiltrações de um realismo mágico, conforme se dá em várias ocasiões desse filme; citáveis são as cenas de relação espiritual entre Glass e sua companheira morta ou as em que a personagem é submetida ao ritualismo do tratamento indígena depois de sobreviver aos pontos mais altos da sua extensa lista de agruras – é sobre a mais famosa expedição da qual Glass participou, cujo interesse estava em seguir do Missouri pelo vale do Rio Grande até ao vale do rio Yellowstone, na caça de peles. Dos cem homens selecionados para missão poucos foram os que sobreviveram; a personagem principal desse história foi um deles e ficou reconhecido pelo trabalho de traçar novas rotas na consolidação do território estadunidense.

O que terá chamado atenção de Iñarritu na produção de um filme que recontasse essa história, parece residir noutra dimensão que não o caráter heroico do sobrevivente, digno de qualquer epopeia clássica, ainda que esse tipo de narrativa esteja em falta no cinema estadunidense dada a ascensão dos blockbuster com super-heróis cunhados pela ficção em quadrinhos; está no elemento propulsor do drama e da vingança desenvolvidos em grande parte da narrativa fílmica. Isto é, no caso de, mesmo vivo, Hugh Glass ter sido abandonado pelos companheiros que ficaram responsáveis pelos seus cuidados até à morte num combinado jogo de interesses financeiros, logo depois do herói sobreviver em más condições ao ataque de uma mãe-urso.

O regresso não é uma mera história de uma aventura ou a lição de vida de um sobrevivente a toda sorte de provas num universo inóspito; é a história sobre o quanto o jogo de interesses marcados pela ambição do capital é capaz de transformar o caráter das pessoas. Essa constatação não se perde apenas no intervalo das relações humanas, tal como acontece no filme; ela funciona como uma forte metonímia sobre uma relação mais ampla manifestada na própria condição do país onde essa história é narrada. Está muito visível na fala de um indígena na negociação por cavalos em troca de mantimentos a expedicionários franceses quando reafirma a crueldade com que o homem branco se apossou do que já tinha dono em nome do progresso e de um ideal de civilização marcado pelo curso da barbárie.

Desse ponto de vista, o cineasta ainda ressalta como a comunidade humana parece ser um projeto fracassado uma vez que sempre haverá entre um grupo algum interessado em zelar pela própria face; isto é, há uma forte tendência do homem para o individualismo, ainda que esta seja uma postura paga sempre em alta moeda. No caso do filme em questão o espectador compreenderá essa impossibilidade de se sustentar sozinho no mundo pela maneira como termina o vilão, ainda que seja esse fim determinado não por um destino do além, ou justiça divina, e sim por aqueles cujo espírito, digamos assim, não se sente à vontade para aceitar a condição de traidores.       

Sobre o texto cinematográfico, Iñarritu não tem pressa em fazer com que o desenvolvimento de uma narrativa extremamente simples corra de maneira atropelada – nem poderia; o grande desafio do cineasta para o cinema acostumado com a compressão da narrativa a fim de preencher integralmente o tempo da tela com situações que coloquem em suspenso os sentidos do espectador é o de respeitar a vagarosidade do tempo a que se refere sem fazer cansar quem o assiste. O mesmo que tornar palatável o ritmo de um texto clássico para um leitor contemporâneo se formos pensar numa relação com a literatura.

E as estratégias adotadas pelo cineasta estão na valorização dos planos fotográficos que, mesmo referindo-se a uma paisagem que quase não muda de forma, é captada por planos e em momentos diversos e sempre com o intuito de acentuar o grande fosso entre o homem e a natureza. Sim, porque nessa história de sobrevivência, outro tema que aí prevalece é a da capacidade humana de se submeter às mais diversas condições na adversidade a fim de zelar pela vida.

Combinam nesse diálogo entre texto e imagem uma rica trilha sonora e a atuação de Leonardo di Caprio num papel grandioso, transformado no que se refere a imagem clean que assumiu durante sua carreira até aqui, mas sem grandes exigências se formos pensar que o efeito de encenação de tom quase documental ou reconstituição histórica prevalece sobre a capacidade de interpretação com a presença de texto, tal como ocorre, por exemplo, em O lobo de Wall Street ou A ilha do medo, para citar dois trabalhos recentes do ator que exigiu mais que uma presença cênica.

Nesse ínterim, Tom Hardy, quem interpreta o traidor Fitzgerald e assume-se aos poucos como o vilão dessa narrativa tem uma presença muito mais marcante em cena que o próprio herói – este modelado à semelhança da figura pura, sem falhas, o mero traído; sua personagem é tão significativa e forte para o andamento da obra que mesmo o status de vilão se amplia pela complexidade com a qual se constrói, porque é o homem tocado pela ambição, de tônus racionalista e interessado a fazer, do aparente lance de sorte, a oportunidade de galgar seus interesses individuais, mas não sem ser tragado pelo medo de seus planos não correrem certos.

Nisso tudo é preciso sublinhar a capacidade criativa de Iñarritu na construção de um de seus trabalhos mais ousados porque diferente daquilo que o espectador já conheceu dele; e por combinar uma extensa quantidade de bons criadores para a formação de uma peça muito bem desenhada, com poucos deslizes, e com força suficiente para ser lembrado por longa data como uma das produções marcantes do cinema produzido por Hollywood. E será muito esse epíteto se pensarmos na casa como uma indústria de produção em massa e pouco afeita à manutenção do valor artístico da obra cinematográfica, valor que parece ter sido seiva para os trabalhos do diretor mexicano. Que continue assim.