quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

As sufragistas, de Sara Gavron

Por Pedro Fernandes



“Não se nasce mulher torna-se mulher”. A frase de Simone de Beauvoir casou, entre desavisados e machistas, uma celeuma de proporções vergonhosas nas redes sociais quando apareceu num excerto de uma das questões do Exame Nacional do Ensino Médio no Brasil. As opiniões desse grupo nenhum pouco discutíveis porque execráveis é um sinal de que a história ainda é recente e certas lutas ainda não foram de um todo vencidas (possivelmente nunca serão porque estamos muito longe de uma civilização ideal e há outras pautas em favor do bem-estar coletivo que sofrem diariamente golpes de retrocesso); certos direitos ainda estão na cartilha dos desafios constante para muitos. Mesmo o embate iniciado em eventos como o desse grupo de mulheres operárias que comandam um levante na puritana Inglaterra de início do século XX. Os discursos rasos contra o excerto de O segundo sexo na prova do Enem e os xingamentos públicos voltados para o desmerecimento não da incompetência política mas da figura feminina devotados à presidenta da república (para citar outro exemplo constante) são expressões claras de que essa mazela de sobreposição do homem sobre a mulher permanece em plena atividade. Daí que o apelo recente da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie não é um disparate; é uma necessidade. “Sejamos todos feministas”.

Sara Gavron produziu então o filme certo, na ocasião certa. Esse debate não é brasileiro; ele é universal. E As sufragistas é uma produção recomendável nesse contexto, sobretudo para aqueles que disseminam diariamente certos barbarismos – sem o conhecimento da história e porque em grande parte vivem numa situação social confortável quando o assunto em questão é gênero. Para os radicais desse grupo, é lógico que qualquer amostra, por mais impactante que seja, não irá abalá-los de sua posição errada de que às mulheres só servem a casa e os filhos. E para o desandar do projeto humano essa é uma prática corriqueira espalhada em contextos diversos, da religião à educação; estes são os que, num contexto a que se refere o filme de Gavron, assistem calados o massacre diário contra mulheres (recordo aqui a triste e impactante cena em que as mulheres depois de ouvir um não do rei George – as mulheres não têm direito ao voto – são massacradas com toda força e petulância pela polícia).

A luta pelo direito das mulheres nas escolhas políticas foi uma das primeiras causas do ativismo feminista. E é sobre isso o filme de Sara Gavron – que pela fidelidade ao material histórico demonstrado inclusive, no desfecho da trama, pela fusão entre o texto ficcional e o registro da história – se configura numa recriação documental do nascimento dessa luta na Inglaterra do início do século XIX. No desenvolvimento da trama, a diretora explora com primor a atmosfera efervescente do movimento e da organização política das mulheres: estavam motivadas pelas reivindicações que deram forma às primeiras conquistas dos trabalhadores, pela necessidade de se unirem politicamente em torno de romper com o círculo vicioso de submissão ao jugo dos homens e porque só com discursos a luta estava fadada ao fracasso. Nesse solo, Sara demonstra que o anseio já era compartilhado de certa maneira entre algumas mulheres que haviam alcançado certo cargo social de importância para época e, claro, apesar dos homens sempre tratar os assuntos pela divisão entre sexos, no grupo dessas mulheres (assim como nas lutas históricas do movimento feminista) a presença masculina nunca foi negada.

É quando as mulheres vão às ruas, e a União Social e Política das Mulheres, fundada por Emmeline Pankhurst (vivida brilhantemente numa aparição de Meryil Streep), nas detenções, perseguições e morte de uma manifestante, a primeira mártir do movimento num episódio que marcou a história no mundo inteiro, que se concentra As sufragistas. A diretora, na obsessão pela fidedignidade ao vasto material disponível sobre o momento, não deixa escapar nenhum elemento; e, claro, está interessada em reanimar esse passado a fim não apenas de reconhecer sua importância para as conquistas alcançadas pelas mulheres mas velar pela extensa pauta ainda recorrente quando o assunto é equidade de direitos entre cidadãos. Isto é, não dá para ler essa produção apenas com o mérito do documento histórico – é preciso vê-lo como um artefato cultural de intervenção política na atual conjuntura social. Isto é, tem vez a ideia de lembrar o passado como maneira de esclarecimento do presente e continuidade de determinadas revoluções. Assim como o aparente simples movimento das operárias britânicas significou (e em alguns casos ainda significa) um levante entre as mulheres de toda parte.

Olhando sobre outras questões – tais como figurino, fotografia, trilha sonora – este é um filme merecedor de estar entre os melhores de sempre. Não há nada arrojado, mas dirigido com primor e uma precisão de detalhes a não dever nenhuma produção de grande impacto. Sara Gavron nos convence disso por essa construção tão bem ajustada; e a maneira como nos conta esse momento importante da história, nos seduz pela ideia de estar ao lado dessas mulheres – seja porque elas têm convicção e creem pelo que lutam, seja porque os dramas pessoais são talvez mais caros que qualquer luta. É um filme que só reforça a ideia do quanto sempre tudo foi (e é) fácil para os homens num mundo pensado e talhado à sua imagem, semelhança e dominança