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Mostrando postagens de Agosto, 2016

Vida vaza: uma paideia da resistência

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Por Márcio de Lima Dantas

O curta Vida vaza está estruturado na cor azul, que predomina nas indumentárias dos atores, nas águas do mar, nas tomadas dos pequenos planos. A cor azul representa as estruturas presentes no Imaginário. Tudo que se apresenta com essa cor e suas tonalidades se reveste de um ethos de infinito, no qual o indigitado real concreto vem a demandar as fronteiras da comarca do Imaginário. O azul lança sua irradiação para contraditar as cores representantes do status quo.
O azul é a vereda que conduz ao devaneio e à fantasia, lugares no qual repousa a morada da “louca da casa” (Gilbert Durand). Em suma, o azul ocupa, na geografia mental, as locas da irrealidade, onde pulsam as vontades e os discursos antípodas ao estabelecido, ao que nos obrigam a ser; pela linguagem, a dizer; ao que nos fazem querer parecer algo que não somos. Enfim, o azul se opõe ao ocre e ao vermelho, cor da terra, do cenário do cotidiano, da carne, da realidade, a qual somos compelidos a dar solu…

Ossos de eco, de Samuel Beckett ou um inédito que já nasce clássico

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Samuel Beckett não teve uma juventude comum e sadia; como observou mais tarde, aqueles anos 1930 foram-lhe os piores em todos os sentidos, porque a falta de dinheiro foi sua principal ameaça e porque, desajeito e tímido, foi sempre motivo de escárnio do público. Nesse época, já havia sido professor na École Normale Supérieure, em Paris, e vagado pela Alemanha e Inglaterra graças a uma pequena herança familiar. Foi quando tentou escrever seu primeiro romance. Dream of fair to middling women fora escrito na França, mas ainda não havia encontrado uma editora interessada em publicá-lo mesmo depois de bater à porta de várias delas: Chatto &Windus, Hogarth Press, Grayson & Grayson. As sucessivas recusas e o fim do dinheiro, obrigou-o que voltasse para casa, em Dublin, onde se dedicou a revisar o manuscrito e daí começou a escrever uma coletânea de contos. 
Tal como no romance, Beckett recriou uma diversidade de episódios da vida de Belacqua, um estudante irlandês obcecado por Dante…

As últimas palavras de Christopher Hitchens

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Por Vinicius Colares


Christopher Hitchens era um confesso amante do bom diálogo. Entendia a importância do debate público e, um adorador de George Orwell, levava aos seus artigos uma prosa inspirada pelo autor de A revolução dos bichos. Sempre o respeitei por essas razões  -  embora não concorde com alguns dos posicionamentos que marcaram sua postura sempre “ofensiva” (como contrário de defensiva e não do vinda do verbo ofender). Em muitos momentos de sua vida intelectual, Hitchens foi acusado de um tom proselitista em favor do ateísmo  - acusações, em alguns casos, pertinentes. 
Ainda assim, sua autobiografia Hitch-22 conta até hoje com um espaço reservado em minha estante. Ao lado dela, desde setembro de 2012, outro livro de Hitchens preenche mais um pouco do espaço reservado às biografias. Foi lançado nesse período o Últimas palavras (Globo Livros), organizado por Graydon Carter, editor e colega do autor na revista Vanity Fair.
São menos de 100 páginas. Deparei-me à época, sem surp…

Flash de sangue engolfada pela boca

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Por Lucas Miyazaki Brancucci


E penso que há blocos sonoros e táteis onde essas criaturas-eventos ocorrem.
Ali era o escuro da sala de cinema vasta pela sua solidão p&b. A música que fazem ecoar lá dentro me desloca para aqueles movimentos sonhados, a abertura de camadas sedimentadas pelos discursos dominantes, esfacelando-se, correndo pelo rio a paisagem interior; aqui eu te conheço, Manaus: brota-se um mundo, habita-o na língua alheia – o botânico alemão, o xamã caxinauá, os padres espanhóis, os portugueses com suas manias excessivas. O mundo é uma fera indizível, se diz numa canção.
Nada; nem as mensagens piscando nos bolsos, ou as ligações perdidas de alguma urgência inútil e familiar, e-mail de noticiário catastrófico ou demissões, me tiram das imagens que estão rodando, sempre. Entre o filme e nossos silêncios me intriguei com o corpo na outra extremidade da mesma fileira. Traços que se recortavam líquidos, com o lançar imprevisível das luzes da tela. Cabelos curtos, olhos co…

Boletim Letras 360º #181

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Aqui, copiamos todas as notícias relacionadas ao núcleo de interesse do blog, que estiveram ao nosso alcance e foram postadas em nossa página no Facebook. Em breve iremos divulgar nossa promoção - há muito prometida. Aguardem só mais um pouco. É que iremos aproveitar as ocasiões de coisas boas que pensamos já para o aniversário de 10 anos do Letras e gostaríamos de inserir essa big promoção.
Segunda-feira, 22/08
>>> Brasil: Livro-referência de Eduardo Lourenço ganha edição no Brasil
Em meados de 2016, publicamos por aqui que a editora portuguesa Tinta-da-China, com sede no Brasil, passaria a editar uma coleção com autores de Portugal há muito conhecidos no nosso país mas pouco ou já não editados. Os três primeiros títulos vieram a lume: de Herberto Helder, Agustina Bessa-Luís e Antero de Quental. A boa notícia é que em breve sairá O labirinto da saudade, de Eduardo Lourenço, sua obra mais conhecida e já uma referência do pensamento lusitano.
Terça-feira, 23/08
>>> Bra…

O desvelar da existência em Beleza americana

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Beleza americana me faz pensar nas obras de Clarice Lispector que terminam com a morte da personagem central em seu momento de maior graça existencial. Tal momento é como que o desvelar de uma verdade absoluta a qual revela ao ser que a tem o caminho para uma vida mais autêntica. Lester, personagem central do universo dirigido por Sam Mendes, passou a vida preso a um padrão familiar e por isso se revela como a prova viva de que o modelo de família tradicional é falho quando se torna algo sem sentido, mantido apenas para causar sentimento de pertencimento ao ciclo social tido como normal. Quando isso ocorre, há a negação de que outros modelos familiares podem, também, ser fonte de felicidade, como se houvesse um código – e na verdade muitos de nós pensam que ele exista de verdade – que impeça que haja amor além das fronteiras impostas por nossa linguagem.
Lester e sua esposa, porém, estão ocupados demais com sua própria tragédia para tentar anulas outras formas de felicidade, ao contrá…

A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

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Por Pedro Fernandes


Jorge Reis-Sá visita um tema que não é novo na literatura (aliás qual é esse, se, desde sempre, a literatura é variação dos mesmos tons). O tema em questão é o da ausência do outro que se ama. Da literatura portuguesa recente é possível citar de passagem pelo menos três romances que reconstroem, cada um à sua maneira, sobre: António Lobo Antunes fez reiteradas vezes e com maestria em obras como Sôbolos rios que vão, José Luís Peixoto fez em Morreste-me, e Inês Pedrosa, em Fazes-me falta. Das três, a última parece ser a que mais se aproxima A definição do amor.
Fazes-me falta é construído como um jogo entre dois narradores – um ponto de vista masculino e outro feminino – que se conversam pela ausência, visto que ela está morta, sobre um amor possivelmente nunca realizado. No romance de Jorge Reis-Sá, o ponto de vista é só o do homem que, às voltas com a mulher num leito de hospital condenada à morte, reflete sobre a ausência dela na sua vida e até quando esse amor, …

Dois anos, oito meses e 28 noites, de Salman Rushdie

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Por Luisgé Martín


Salman Rushdie foi marcado há anos com um destino que obscureceu publicamente sua grandeza literária; suas últimas obras, depois disso, não voltaram nunca à mesma altura de Os versos satânicos e, também, Os filhos da meia-noite. De modo que o escritor tem se convertido mais num mártir ou numa personagem icônica e não num escritor respeitado. Este novo livro poderia ajudar a corrigir esse desvio de caminho, o que faria Salman Rushdie um dos maiores nomes vivos da literatura de nosso tempo.
Dois anos, oito meses e 28 noites são exatamente mil e uma noites; esse é o modelo que, comum olhar irônico, ele emprega na construção desse livro: um romance cheio de histórias triviais, marcadas pela fantasia delirante, e de indignação imaginativa sobre a natureza humana. Salman Rushdie quis ser a Sherazade de nosso século, mas o empenho não parece ser grande o suficiente. Isso, não serve em nada para desmerecer a riqueza da obra ora publicada.
O título conta a história da Era da E…

A prosa de Ana Cristina Cesar

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Toda vez que um leitor encontra a poesia de Ana Cristina Cesar reunida na primorosa edição que, no mesmo rastro do livro com a obra poética de Paulo Leminski galga espaços em estantes diversas Brasil afora, é de saltar a busca pela resposta sobre como seria ter entre nós em atividade uma poeta cujo talento se revela ainda na criatividade de quando criança e se aperfeiçoa naquele tempo em que para muitos não é mais que o de experimentação – afinal, mesmo que não haja um tempo para a poesia, é verdade que a maturidade é, sem dúvidas, quando podem os deuses soprar o seu melhor ao poeta. A título de curiosidade, sobretudo para aqueles que não têm a edição de Poética, Ana C., como gostava de ser chamada, e nome pelo qual podemos identificar como o de sua persona poética, publicou pela primeira vez quando tinha só sete anos no jornal Tribuna da imprensa; e amigos íntimos da poeta, como o também poeta Armando Freitas Filho, lembra reiteradas vezes que muito nova ditava coisas para que a mãe…

No teatro de Arthur Miller, as mulheres em segundo plano

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Por Lourdes Ventura

Em certos dramas de Arthur Miller as mulheres parecem destinadas a gravitar como satélites ao redor dos protagonistas masculinos, heróis fracassados que carregam o peso do mundo. Se a família é o núcleo centro para evocar as pressões sociais sobre os indivíduos, a figura da esposa-ama da casa contribui para a projeção de uma sombra, um sujeito em segundo plano.
O professor Jeffrey Mason considera que nas obras iniciais de Miller os papéis femininos pertencem a dois estereótipos: o da esposa e o amante. As primeiras são complacentes e sacrificadas e as segundas tentadoras e sensuais; em ambos casos, com personalidades passivas, sem individualidade própria e só definidas em relação com os homens. Martin Gottfried chega a dizer que “as obras de Miller são essencialmente histórias de homens”, mas um olhar mais atento sobre Linda Loman, a mulher-esposa em A morte de um caixeiro-viajante (1949), ou sobre Kate Keller, a mulher-mãe em Todos eram meus filhos (1947), nos lev…