terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Girândola, Julio Cortázar e O Poeta de Meia-Tigela. Ou: uma breve crônica literária

Por Léo Prudêncio



Após ler o mais novo livro do Poeta de Meia-Tigela intitulado Girândola (Substânsia, 2015), relembrei uma conversa rápida que tive, pessoalmente, com ele. Na ocasião, me falou de alguns livros que viriam a lume e um deles, desde esse dia, me chamou atenção logo pelo título: Girândola. Indaguei sobre e sua composição, e ele confidenciou-me (acaba-se agora a surpresa), de que se tratava de uma obra com indícios cortazarianos (nessa época o autor cearense estava em contato assíduo com a obra do cronopiano-mor). 

Quando o livro me chegou em mãos e, lendo-o, me deparo com o nome do argentino escrito de maneira subliminar em um contopoético: "desinvenção da fábula, a ou era uma vez... para cortar o azar". A forma como os poemas são apresentados não segue uma linha lógica de sumário, pois eles estão embaralhados ou misturados com todas as oito divisões do livro: se bem que a (des)ordem não altera o fator final dessa leitura; mesmo embaralhado, o volume possui uma unidade poético-textual que nos leva a vasculhar mais e mais a propensa estrutura verbal-imagética da obra. 

O livro é composto de haicais, palíndromos, sonetos, versos livres e desenhos. Ao final lemos uma entrevista em que o Poeta responde fazendo uso de versos, como se estivesse em uma rinha com outro cantador. Para o Poeta de Meia-Tigela tudo vira poesia: inclusive as 64 contas do rosário. Nesse poema, faz a sua oração em prol da poesia. Músicas dos Beatles, Black Sabbath, Morrisey dentre outros servem como empréstimo para a construção de poemas. (Inclusive há um desenho dos quatro beatles atravessando a famosa rua de Liverpool, e há outro de que gostei bastante: a figura de Bashô). 

Agora eu volto a falar de Cortázar. Muitos de seus livros incluem gêneros literários de todas as formas. Em Girândola, com os poemas, desenhos, conto, canções e uma entrevista, logo deveremos nos perguntar: como classificar um livro desse? Eis um livro-almanaque, à moda de Cortázar. 

Mas, deixemos o prefaciador desta obra tigelírica, Cid Ottoni Bylaardt, falar: "Assim, o que cabe na tigela deste poeta, posto que meia? Inicialmente a fragmentação, a diversidade e a superposição de textos sugerem uma bagunça poética de gêneros, estilos e recursos. A impressão inicial vai sendo desfeita aos poucos, pela sedimentação de alguns traços que persistem, sem, entretanto, quebrar a expectativa de algo novo que surge aos olhos do leitor. Ao final, bem ao final, o foguetório parece querer organizar o inorganizável. Talvez essa seção seja mais útil aos comentadores, analistas, prefaciadores etc. Do que à própria poesia, que prescinde dela." 

Alguns autores já fizeram uso do sumário como guia ou desguia de leitura (vede Tutaméia de João Guimarães Rosa, em que o sumário inicial é desmentido no sumário final, ou vede o sumário-guia de O jogo de amarelinha do já tão citado nesta crônica Julio Cortázar). Os poetas contemporâneos e escritores de uma forma geral fazem uso de todo o material do livro para compor o poema. Fazem do livro um objeto-poético. 

Desvio o assunto para comentar outros poemas de Girândola, como os que fazem uso da língua brasileira de sinais, a Libras. A desbiografia do autor, situada no final do livro, é um capítulo à parte, pois seu nome é reinventado, Aves de Aquilino, assim como a data e o local de nascimento. O motivo? 

Bom, melhor parar por aqui. Segredar significados e influências é também uma maneira de incentivar a leitura deste Girândola, se bem que não se precisa de muito incentivo para ler tal obra literária, pois ela nos chama desde a feitura da bela capa (de Nataly Pinho). Até o próximo ensaio de orquestra arquitetado pelo maestro e poeta, este, de tigela transbordante.

[Aviso aos navegantes: O Poeta de Meia-Tigela nasceu Alves de Aquino, em 1974. Todos os livros publicados por ele são coletados do 1nico livro a que se dedica: Concerto Nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Esta obra é formada por quatro movimentos, cujo primeiro foi publicado integralmente em 2010. Em 2008 uma coletânea de poemas do segundo movimento foi publicada, e relançada em 2011 com anexos e mais poemas, o Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas. Em 2014 o Poeta organizou uma publicação coletiva chamada Mutirão e em 2015, além do Girândola, publicou a antologia de sonetos que permeia os quatro movimentos do Concerto, saída pela Confraria do Vento, Miravilha: liriai o campo dos olhos]

***

Léo Prudêncio é colunista no site LiteraturaBr e autor de Baladas para violão de cinco cordas (Editora Penalux)