quinta-feira, 12 de novembro de 2015

As rãs, de Mo Yan


Por Pedro Fernandes



Na minha muito recente vida de leitor, há dois instantes de aproximação com a literatura oriental que recordo neste texto porque são experiências frustradas possivelmente vencidas pela leitura das quase quinhentas páginas de As rãs, de Mo Yan. É, não fui logo à leitura do breve Mudança, publicado no Brasil assim pouco depois de sabermos que o Prêmio Nobel de Literatura em 2012 tinha sido para o escritor chinês. A aproximação com a obra de Yan, logo antecipo, se deu quando visitei com maior curiosidade sua biografia, assinalada por uma sorte de eventos capaz de inclui-lo, depois de alcançar o posto máximo na carreira literária, entre as figuras de interesse aos interessados por vidas próximas ao fato heroico.

O primeiro instante de leitor da literatura oriental, é um episódio certamente pouco importante porque muito inocente, aconteceu quando era moda entre os jovens um anime japonês chamado Death Note. Por causa do vício na animação quase debandei para as narrativas em HQ, mas, sorte ou ironia do destino, as obrigações e uma série de outros acontecimentos falaram sempre mais alto e o resultado foi que sequer conseguir continuar a ver o desenho.

O segundo foi motivado pela leitura de Memórias de minhas putas tristes, o último romance de Gabriel García Márquez, que devo ter lido alguns anos, dois ou três, depois dos episódios de Death Note. Ao ler sobre a obra e sobre o escritor colombiano, descobri que Memórias foi uma espécie de sua homenagem a Yasunari Kawabata por causa de A casa das belas adormecidas, um dos livros mais bonitos que já teve a oportunidade de ler. Quando encontrei a obra, não hesitei tê-la e depois de começar a ler uma vez logo passou a figurar entre os títulos que não consegui concluir a leitura – eis o caso de um dos poucos livros que conseguiram me dobrar. Mas, possivelmente, devo ter encontrado mais algum pilar na formação leitora que permitirá, em breve, retornar a Kawabata, autor que exige um estado quase pleno de contemplação para se deter na sua narrativa.

Não é o caso de Mo Yan, ao menos do Mo Yan autor de As rãs. Este é um romance de força objetiva, cores realistas e construído nas fronteiras entre história e ficção por remeter especificamente sobre o período em que é implantada na China a política do filho único, política, aliás, revista agora em 2015. Ao dizer isso, já aproveito para questionar a relação sempre apresentada pela crítica entre a narrativa do escritor chinês e a de Gabriel García Márquez, sobretudo por certa cor do realismo mágico. Não sou, evidentemente, um leitor de Yan e nem do colombiano, mas o contato com este romance sobre o qual redijo essas notas e alguns outros de García Márquez, não me convenceu da autenticidade dessa relação; agora, é óbvio que ela pode ser verificada em alguma outra obra específica.

Além da questão histórica colocada em análise através de um conjunto diverso de situações, o ponto crucial para a narrativa de As rãs – e aqui, sim, encontro uma das nuances sempre sublinhadas pela crítica – é a tentativa de contar a história de um povo, seu drama, suas resistências e o embate produzido pelas rápidas efervescências políticas e culturais de um país que como um foguete foi içado dos tristes índices de pobreza e miséria a um dos candidatos à vaga de potência do século XXI.

O trabalho de Mo Yan não é reproduzir isso num painel minimalista, tampouco estabelecer uma crítica ou elogio vazio dessas transformações, mas expô-las como elemento de reflexão a fim de que o próprio leitor possa construir suas reflexões. Faz isso também de maneira que o leitor perceba os vários lances em ação da história, uma vez que parece alimentado da certa convicção de que o homem é sujeito constituído na e pela história, algo que o aproxima com todas as forças da literatura de um José Saramago, por exemplo.

Há mesmo uma passagem desse romance em que o narrador denuncia sobre a quantidade de esqueletos que terá servido para fortalecer os empreendimentos faraônicos construídos pelo homem num passado e hoje visitados como deleite para os turistas. “A história olha tão somente para o resultado, ignora os meios, como as pessoas que admiram a Grande Muralha da China, as pirâmides do Egito e outras obras grandiosas sem pensar nas pilhas e pilhas de ossadas debaixo delas”. Quem terá lido Memorial do convento, do escritor português saberá do que falo.

Mas, antes de ler com mais atenção essa característica, que é uma das melhores desse romance, convém chamar atenção do leitor para o seu aspecto estrutural, e a maneira como Mo Yan rompe com as fronteiras dos gêneros literários – afinal As rãs é um romance, mas o interesse de seu narrador é escrever uma peça de teatro. Poderíamos mesmo dizer que todo o livro é uma espécie de longo prólogo ou escrita minuciosa que prepara o leitor para o drama em nove atos com o qual o livro é concluído. E não finda aí.

A situação propulsora para o desenvolvimento dessa estrutura é dada quando Girino, pseudônimo de Wan Perna, apelidado de Corre Corre pelos da aldeia, decide, depois de uma conferência com um professor de literatura, se esforçar para cumprir o desafio por ele lançado: cada indivíduo tem a responsabilidade de fazer com que a história de seu povo não pereça e, não importa quais as condições, cada um tem uma história por contar. Essa provocação é uma das lições mais caras propostas pelo escritor: a literatura como forma de recriação e preservação da memória ou a literatura como um subterfúgio contra o esquecimento e a morte.

Motivado por esse impulso criativo, Girino inicia uma extensa correspondência ao professor conferencista no intuito de esclarecê-lo sobre a feitura do texto dramático apresentado no final do romance. O romance é, dessa maneira, lido como se uma extensa carta onde vai relatando as histórias vividas pelo narrador e as vividas por personagens próximas dele. Tem aqui a razão para sua objetividade e não se deter em certas trivialidades e, por vezes, adquire um ritmo quase da crônica jornalística pela maneira como especula ou apresenta determinadas situações. Trata-se de um relato que cobre não apenas uma parte das vidas de um pequeno povoado no interior da China mas da inclusão dessa parte menor sobre a qual esse narrador se debruça no âmbito das questões de cunho nacional num tratamento de fazer o trivial dialogar com o universal.

Nesse aspecto, por mais que os dramas expostos por Mo Yan se refiram a uma condição muito específica de uma cultura e de um povo, eles são transformados em questões universais: os limites entre a honra e o próprio interesse ou entre as pulsões mais subjetivas e as necessidades de obediência ao coletivo são exemplos fáceis de apontar como um dilema humano. Todos sairão da leitura desse romance com a imagem sobre uma figura que ganha uma dimensão fabulosa ao longo do enredo, que é a da tia do narrador, uma solteirona convicta pelo menos até a meia-idade, que, depois de ser traída pelos interesses escusos de um jovem piloto da aeronáutica, abraça com todas as forças possíveis e imagináveis a causa do Partido Comunista Chinês de vencer com os números alarmantes de nascimentos de crianças. Ela é a produtora, digamos assim, de situações que testam esses limites que apontei agora, como quando, descobre que a mulher de seu sobrinho (o narrador) estava grávida depois de infringir a política sanitária do filho único. 



Mo Yan não poupa as tintas do realismo para dar força às vivências desse narrador ou expor a história de seu país. A própria estruturação do relato em forma de missivas reúne essa coloração realista sobre as ações. Também esta é uma maneira de guardar certos segredos num primeiro momento não alcance do narrador e revelados um a um em situações por vezes inusitadas, como a procedência e o paradeiro do aviador com quem se envolveu sua tia.

As correspondências, principalmente, as primeiras que abrem cada uma das partes do romance, alcançam ainda a forma metanarrativa; uma crítica ao próprio texto que esclarece uma humildade do escritor ou expõe seu nível pouco à vontade como escritor e leva-o a orientar a visão do leitor sobre o narrado.

Outra questão fundamental de se observar – e aqui retorno a relação entre história e ficção – é de como Mo Yan usa o tema do planejamento familiar para expor, além de uma série de outras questões, a condição das mulheres na sociedade chinesa ou a atuação sempre perigosa do poder do macho; isto é, toma o tema como exercício de se pensar como a história é determinada por uma visão machista e determinante, no sentido de modelar, à formação dos indivíduos e os rumos da cultura de um povo. As rãs expõe a mulher como a maior vítima porque padece da obrigação de seguir o curso contrário de suas próprias naturezas ao qual foram, desde sempre, induzidas a fazer uso.

Mas não há, repito, uma tomada de partido sobre o tema ou as personagens desse drama – exercício, aliás, sempre válido ao bom romancista. Se utiliza do drama feminino, acentua-o, mas não o imprime com as letras do vitimismo; persiste em questionar os diversos lados do tema: a miséria que grassou as famílias de camponeses ou o país entregue à toda sorte de dificuldades; a política do incentivo à gravidez para conter a defasagem de perdas na fome e nas guerras; e logo em seguida a necessidade conter esse fluxo biológico desregrado através de um controle de natalidade ferrenho; o encanto com uma nova China, as grandes transformações econômicas e sociais; a crítica à permanência da corrupção e do malfeito em detrimento dos interesses individuais.

Mas, não poderia concluir estas notas sem antes fazer duas observações: uma advém dessa relação entre história e ficção, e é a capacidade do escritor em reunir, no âmbito do ficcional, uma forte vertente da tradição popular. Com esse narrador, Mo Yan constrói uma peça capaz de alinhavar histórias advindas da experiência vivida e da atividade criativa, uma das grandes vertentes do romance cada vez mais perdida em nome apenas da criação o que sempre desemboca em enredos plastificados e pouco convincentes.

Outra, na vertente do diálogo entre sua obra e a literatura clássica. Nenhum leitor mais ou menos experiente deixará de perceber a relação entre o título desse romance e o mesmo título de Aristófanes. Preservadas as diferenças de enredo, no texto clássico, Dionísio viaja ao reino dos mortos a fim de resgatar Eurípedes porque descontente com os dramaturgos de Atenas; viagem que é acompanhada pelo constante coaxar das rãs que dão título à comédia, As rãs, de Mo Yan se ergue nas tintas da tragicomédia. Há em toda parte, mesmo nas ocasiões de tons mais negros, uma sorte de riso, responsável pela leveza do texto e incapaz de imprimir qualquer forma de tédio no leitor.

De certo modo, a cobrança recebida indiretamente por esse narrador antes de se dedicar à composição do texto dramático está alinhada com os propósitos de Dionísio na busca por um dramaturgo a altura de sua Atenas. E as rãs, bem, o sentido para o termo, aparece explicado pelo próprio romance – a relação que, na cultura chinesa, o bicho mantém com o bebê, desde a semelhança do choro do recém-nascido visto por eles de forma parecida com a do coaxo de uma rã ao nome da deusa criadora da humanidade, Nü Wa (Wa=rã) e a teoria popular de que homem não evoluiu do macaco mas da rã.

O leitor atento encontrará outra quantidade de questões possíveis de apontar a partir desse romance; é, logo se vê, um rico manancial. E o que se faz com mananciais? Desfrutam-se.