quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Raridades sobre Lolita, de Vladimir Nabokov

Vladimir Nabokov realizado na paixão pelas borboletas e na escrita de um clássico.

"Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta".

A repulsa a Lolita

Este é já eleito um dos melhores começos para um romance na Literatura Universal. E, claro, a obra também se tornou uma das mais quistas (também odiadas) e mais conhecidas quando se fala o nome do escritor russo de nacionalidade estadunidense Vladimir Nabokov. Mas, isso não começou assim. O início da fama de Lolita foi o da rejeição. Pelo menos cinco vezes.

Um dos pareceres, de 1953, é taxativo: “É esmagadoramente nauseante, mesmo para um freudiano iluminado. Para o público, será uma obra revoltante. Não irá vender e causará um dano incomensurável a uma cada vez mais crescente reputação do escritor [...] Eu recomendo que ele seja enterrado sob uma pedra por pelo menos mil anos”.

Se sabemos que o livro foi publicado é porque Nabokov não ouviu os conselhos de enterrar o romance. Ruim não era, afinal a recomendação de ser enterrado soa um tanto não é um romance desse tempo. Apesar de escrito em inglês o romance não foi publicado logo nos Estados Unidos. Claro, depois de um parecer desse e da rejeição dos principais grupos editoriais, seria difícil o escritor romper o circuito de perseguição à obra.


Lolita - da primeira edição às edições brasileiras

Então, Nabokov vê que o livro tinha chances fora dos Estados Unidos. Num país de mente mais aberta, talvez. A França? Sim, Lolita, foi publicado inicialmente dois anos depois das primeiras reprovações, em Paris. E levou mais três anos para que chegasse finalmente às livrarias dos Estados Unidos. E ela só ocorreu porque pouco antes de sua publicação na América, o escritor Graham Greene concedeu uma entrevista elogiando bastante o livro.

Mesmo assim, John Gordon do Sunday Express, por exemplo, diante do sucesso da publicação (estima-se que só nas primeiras semanas tenham sido vendidos mais 100 mil exemplares do romance) apelou; classificou o romance como “o livro mais imundo” que já lera; é um livro, disse, recheado de “pura pornografia”. Terá levado muito tempo depois de publicado para que a crítica passasse a lê-lo com outro olhar (embora ainda dure a imagem de Nabokov com um velho pedófilo inveterado atraído em seduzir ninfetas). É fato que esse outro olhar, o do romance como um clássico, só veio já próximo dos cinquenta anos depois de sua publicação e o sucesso ininterrupto nesse intervalo de tempo.

O possível nascimento do romance

Um bangalô de estilo espanhol na Sequoia Avenue, em Palo Alto é sempre apresentado como o lugar onde Nabokov teria escrito a primeira versão do romance. Pesquisadores não acreditam na versão; o autor viveu aí durante a nomeação como professor em Stanford em 1941 e já a ideia para o livro haveria sido gestada. Isto é, possivelmente Nabokov teria iniciado aí sua escrita; e teria Humbert sido inspirado em parte no amigo que o indicou para a universidade, Henry Lanz. São suposições, evidentemente; toda obra de ficção se constitui de muitas influências e não apenas num retrato em específico sobre alguém.

Mas, não foi Lolita a única contravenção que terá sofrido o escritor; ele mudou-se da Rússia perseguido pelo regime e na sua terra natal teve seus escritos taxados como antissoviético. Depois que foi viver em Berlim com sua companheira judia, Véra, teve de se passar com o nome de Vladimir Sirin, mas só o que sofreu foram inúmeras rejeições das editoras inglesas sobre seus escritos. A situação de quase-miséria foi o que levou o casal para os Estados Unidos, onde foram viver com o filho de 6 anos num pequeno apartamento em decadência.

A nomeação para Stanford terá sido o primeiro momento de glória do escritor. E, claro, foi-lhe a ocasião que o fez trabalhar na construção do que, mesmo rejeitado tantas vezes, se encaminhava para servi-lo de obra-prima de sua literatura. A vida que levou nos Estados Unidos, então, foi de total encanto: entre a academia e a escrita, gastou o tempo em viagens para o oeste sempre no exercício de seu maior hobbie, a caça às borboletas. Foi numa das viagens que conta ter encontrado a inspiração para a escrita de Lolita

Retornar à repulsa e uma virada

Na ocasião em que foi publicado nos Estados Unidos, também circularam, (poucas, mas circularam) críticas positivas sobre o romance. Elizabeth Janeway, por exemplo, escreveu para o New York Times que Lolita é uma história “classicamente trágica, a expressão mais perfeitamente realizada de uma verdade moral sobre a luxúria”. Humbert é um homem “possesso, tomado por uma desejo insaciável”; “ele nunca pode parar de querer a Lolita porque ele nunca realmente a tem, tem apenas seu corpo”; “Humbert é a representação de todo homem que, impulsionado pelo desejo, e tanto querendo sua Lolita, não lhe ocorre que ela seja um ser humano ou nada mais que um sonho-invenção que se faz carne, ela é a natureza eterna e universal da paixão.”

A adaptação de Lolita para o cinema em 1997 por Adrian Lyne

A opinião de sessenta anos mais tarde e num contexto totalmente controverso se aproxima da leitura da estadunidense. Azar Nafisi em Lendo Lolita no Teerã afirma que “esta é a história de uma menina de doze anos de idade que não tinha para onde ir. Humbert tentou transformá-la em sua fantasia, em seu amor morto, que ele próprio havia destruído. A verdade desesperada de Lolita não é a de um estupro de uma menina doze anos por um velho sujo, mas o confisco da vida de um indivíduo por outro.”*

A verdade é que Nabokov terá se orgulhado e tanto sobre a obra a ponto de reconhecê-la como o trabalho que mais lhe agradou produzir. Tanto que, foi o primeiro roteirista de seu livro para a adaptação de Stanley Kubrick. “Eu diria que de todos os meus livros, Lolita me deixou como se preso diante de um agradável arrebol, talvez porque é a mais pura de todas as histórias que escrevi, a mais abstrata e cuidadosamente planejada.” Noutra ocasião: “Lolita é um favorito especial meu. Foi o livro mais difícil — que tratava de um tema que era tão distante, tão remoto, da minha própria vida emocional que ele me deu um prazer especial para usar meu talento de combinações para torná-lo real.” Depois, num programa de TV nos Estados Unidos chamado “EUA: a novel”, Vladimir aparece todo prosa diante das diferentes edições estrangeiras do romance.  

* Esta é uma tradução livre para o texto em inglês. No Brasil a obra foi publicada pela Editora Best-Seller em 2009.