quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Steinbeck e a rua das ilusões perdidas

Por Maria Vaz 




Confesso que me encontro deslumbrada pela miscigenação cultural e pela divulgação de ‘cultura’ em pequenos nadas escondidos no quotidiano de uma cidade que não dorme: São Paulo estranha-se mas não tarda a entranhar-se pela diversidade, pela novidade eterna, pela oferta e pelas surpresas culturais, acessíveis a todos que por aqui passam.  Foi assim – num misto de surpresa com felicidade literária –, que sorri, por exemplo, enquanto comprava um livro novinho, por dois reais, na Estação de metrô da Sé; foi assim que me perdi na variedade de livros de histórias que fizeram parte de outras histórias, desta vez, reais; foi assim que fui introduzida no mundo fascinante dos “sebos” desta cidade.

Destarte, perdida num dos muitos sebos daquela cidade, polvilhados por poeiras de outros tempos, cruzei-me com Steinbeck, enquanto fui deambulando mentalmente pela sua “rua das ilusões perdidas”. A verdade é que nunca antes lera Steinbeck: como pode uma amante da literatura não ter lido um dos grandes clássicos da literatura internacional? Com o pasmo essencial da ignorância, dei por mim a juntar ao cestinho mais um livro da Agatha Christie e outro sobre o pensamento de Pascal: tudo por 5 reais. Pensei: quando é que na Europa, supostamente desenvolvida, isto vai acontecer? Será que a crise (ou as várias crises que se sucedem) matarão a cultura acessível a todos? Ou os livros vão morrer – por ocuparem espaço, por serem caros, pelas desculpas de insustentabilidade ambiental ou pela reprovabilidade advinda do ‘status quo’ em comprar livros usados –, cedendo lugar à quase imperativa dinastia do Kindle?

Não sei porquê – nem temos de perceber todos os porquês que nos inundam a psique –, mas senti que, neste âmbito literário, as ilusões se encontraram: deixaram o seu ‘quid perdido’ numa pós-modernidade envolta em eficiências e lucros, em materialidades concretas, em que se perdem a alma e os conhecimentos mais ancestrais, porque o que importa é o agora e a satisfação de necessidades meramente físicas de um tempo eternamente presente.

A ilusões positivas voltaram e redensificaram-se na crença, talvez utópica, de que pode existir uma ‘rua de ilusões’ positivamente inúteis, imateriais,  pouco lucrativas e insusceptíveis de perda: uma rua de ilusões com capacidade para colorir realidades sociais insustentavelmente cinzentas; uma rua de ilusões pela capacidade de criação de uma espécie de universo paralelo em que a criatividade e o sonho tocam as pessoas mais improváveis, acabando com qualquer ideia de determinismos sociais sombrios ou em linha recta.  Afinal, a realidade modifica-se e melhora-se pela capacidade de sonhar: um recurso interno de todos aqueles que não se fecham à crença – que limitam as mentes pela necessidade de se irresponsabilizarem pela existência de um destino incontrolável ou imutável – e de todos aqueles que não se rendem a improbabilidades certeiras ou a redundâncias ontológicas.

Este texto, em que vos escrevo, não se volta o estilo literário peculiar de Steinbeck, nem para a sua capacidade analítico-descritiva ou de construção de enredos com um toque de realidade em que as ilusões vão morrendo pelas desgraças. Não. Este pequeno texto é um elogio a Steinbeck por me fazer perceber a capacidade que todo o ser humano tem em se superar, a si mesmo ou a qualquer circunstancialismo material que gere abundância ou desgraça. Fez-me mergulhar em buscas filosóficas daquilo que seria a felicidade: em pensamentos que, inarredavelmente, passaram por Aristóteles ou por Séneca. E tudo se deveu a Mary Talbot, a personagem que me arrebatou com a sua cabeça nas nuvens e o seu optimismo radiante, que não deixava espaço a sofrimentos motivados por adversidades. 

Posto isto, resta-me deixar-vos as palavras de Steinbeck acerca daquela personagem carismática. Resta-me isso e o desejo de um mundo povoado de pessoas como ela: um mundo em que as ilusões sombrias se perdem e se trocam pelo optimismo ensolarado de uma ou outra ilusão colorida e imperdível. Afinal, quem sabe objectivamente o que é a realidade?

“Mary Talbot – ou seja, a sra. Tom Talbot – era adorável. Tinha cabelos vermelhos, com reflexos esverdeados. A pele era dourada, os olhos muito verdes. O rosto era triangular, com as faces largas, olhos bem separados, o queixo pontudo. Tinha pernas compridas de bailarina e pés de bailarina, parecia jamais tocar no chão quando andava. Quando estava excitada, o que acontecia com bastante frequência, o rosto adquiria um brilho dourado. Sua tatatataravó fora queimada como feiticeira.

Mais do que qualquer coisa no mundo, Mary Talbot adorava festas. Adorava oferecer festas e adorava ir a festas. Como Tom Talbot não ganhava muito dinheiro, Mary não podia oferecer festas constantemente. Por isso, costumava persuadir as pessoas a dar festas. De vez em quando telefonava para uma amiga e indagava bruscamente:

– Já não está na hora de você dar uma festa?

Mary tinha normalmente seis aniversários por ano e organizava festas-fantasia, festas-surpresa, festas de feriados. A véspera de Natal em sua casa era uma noite emocionante, pois Mary resplandecia. E ela empolgava o marido com o seu excitamento por festas. (…) Não possuía lindas roupas e os Talbot não tinham qualquer dinheiro. Na maior parte do tempo, estavam à beira da miséria total. E quando se encontravam realmente nas últimas, Mary sempre dava um jeito de promover uma festa. E era bem capaz de fazê-lo. Podia contagiar a casa inteira com a sua alegria e usava o talento como uma arma contra o desânimo, sempre à espreita, aguardando a oportunidade de se lançar sobre Tom. Mary estava convencida que essa era a sua missão, impedir que o desânimo total desse o bote sobre Tom, pois todos sabiam que ele seria um dia um grande sucesso. De um modo geral, ela era bem sucedida em manter as coisas sombrias longe de sua casa.”  

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Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.