sexta-feira, 10 de julho de 2015

Desnorteio, de Paula Fábrio

Por Pedro Fernandes



Se este texto merecesse um título deveria se chamar, talvez, “Paula Fábrio, um narrador em trânsito”. Não recebe porque não esta uma reflexão sobre a escritora, nem concebo uma prática de a escritora se imiscuir entre aquilo que narra, muito embora, admita certa inclinação memorialística logo na primeira página de Desnorteio, seu primeiro romance. Mas, é a ideia de trânsito tornada experiência e por isso tomo nota depois da leitura e cismo que este deveria ser um texto com este título.

Narrar tem se tornado sempre mais experimentar-se (digo isso enquanto penso na experiência mais radical com que tive contato nas minhas leituras recentes – o português António Lobo Antunes). Agora, quem sou para dizer quando os escritores notaram sobre a possibilidade da manipulação corriqueira tal como fazem contemporaneamente com a narrativa. Alguma parte da crítica atesta que as coisas começaram com as vanguardas. Desde os surrealistas, dizem estes, nunca mais narrou-se como antes. Depois vieram as descobertas da psicanálise e os escritores se sentiram cada vez mais inclinados a fugir do mundo externo para averiguar os labirintos do eu.

Eu estou entre os que preferem concordar que, desde sempre, os escritores estiveram num grande campo de experimentação estética. Pode ser que Homero nem tenha existido, como brigam uns, mas a Odisseia é já uma grande experiência narrativa; se ausente de quaisquer psicologismos ou piruetas do vanguardismo, mas é a epopeia um texto de construção extremamente elaborada, principalmente quando percebemos os volteios para sustentar o desfecho do enredo e a execução de certa atividade manipuladora do tempo da narração.

Tudo isso para dizer que Paula Fábrio, longe de se filiar a qualquer vanguarda ou grupo de natureza experimental, redige uma obra com características bem singulares na recente produção literária brasileira, mas que essas características encontram lugar na extensa atividade de reinvenção da narrativa. Digo isso, por constatar também que sua obra dialoga com certas práticas consideradas comuns por aqui: penso, sobretudo, em nomes como Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, ou mesmo Clarice Lispector. Concebo que, por mais inventor que seja o escritor ele não pode recusar as forças que o antecedem e tem por obrigação ser um leitor acurado e crítico delas. Isso é condição necessária não apenas para solidificação de sua obra, mas renovação da tradição e fortalecimento da cena literária nacional.

Há em Desnorteio ainda muito do que já experimentou a literatura estrangeira; fruto evidentemente de uma abertura maior das fronteiras entre as expressões artísticas. Também não é novidade; há Proust e Joyce em Clarice Lispector, por exemplo. Alimentar-se das forças externas ao solo nacional, não é decisão fortuita num contexto em que a literatura é cada vez mais universal, isto é, integra-se às discussões, temáticas e aos exercícios estéticos mais amplos. Assim, pela dicção teatral, lembrada pela voz principal do romance, aquela que seria a de quem contaria a história, a obra de Paula Fábrio enseja proximidades com a literatura de Samuel Beckett e o teatro do absurdo.

É um texto que beberica nas diversas fontes da literatura; há iluminações da tradição desde a notinha colocada na abertura do livro ao modo do que faziam os romances clássicos como os de José Alencar. Acontece que no tempo de Alencar as tais notas tinham por interesse avivar a veracidade do narrado ou colocar o escritor distanciado das penas de expor uma determinada realidade não-autorizada. Nesse sentido, Paula subverte pelos dois lados a intenção do pré-texto, substituindo a necessária verdade do narrado pela ilusão do imaginado, e colocando-se responsável pelo exercício da criação de marca identificada como impressionista. Narrar é uma experiência de impressão sobre a realidade.

E, por falar em subversão, tudo é subvertido nessa obra; averiguamos a estrutura mais próxima de um feixe de contos com mesmo eixo narrativo, mas assumido por pontos de vista diversos, afinal, grande parte dos da família Oliveira, o núcleo de personagens retratado pelo romance tem poder de voz. Também averiguamos o traço teatral. Desnorteio é um texto eminentemente de indicações; por vezes, esquecemos que estamos diante de uma narração e estamos ante alguém a determinar, distanciadamente, sobre as cenas. Não há ações no sentido tradicional da mobilidade da personagem; Desnorteio é um conjunto de cenas.

Da mesma maneira que há esse distanciamento que imobiliza os sujeitos da narrativa, é a aproximação extrema: quando essas cenas passam a ser contadas pela voz em primeira pessoa. Paula Fábrio constrói uma história sem se ater a miudezas; é um texto limpo, integralmente alinhavado com sentenças de cunho conclusivo como se buscasse sempre alcançar uma síntese sobre o que narra.

O flerte da autora de Desnorteio é com a saga de família, mas, é tomada pela impossibilidade de realização de um forma de fôlego como se aventurou um Erico Verissimo, por exemplo. Claro, as condições contextuais são outras. Paula, ao invés de se interessar pela típica família rica ou a que alcança certa posição social pelo esforço do trabalho, para citar duas condições específicas da saga familiar, prefere contar a história dos que nem sequer sabem que existe história: a família Oliveira, de três irmãos loucos, cada um à sua maneira, e as irmãs que tentam compreender a sina da família ou acobertá-la por incompreensão até mesmo de si nessa amplidão de mundos em desfazimento. A família esfacelada é assim um dos temas do romance: nasce desde a total falta de amor do patriarca pelos da casa, ou essa é uma casa sem pai, só lembrado pelos filhos por ter aparecido duas vezes – quando vinha espancá-los e depois levado preso para o Carandiru.



Como a saga de uma família, o romance cobre amplo tempo da história do Brasil (passado que muitas vezes se manifesta indiretamente entre os interstícios de organização dessas peças soltas ou a partir das reflexões contempladas por voz que seria a central do romance). Está aí os desmandos da escravidão, raiz dos Oliveiras (ou de certo modo de todas as famílias brasileiras), o trabalho a qualquer custo nas fazendas de algodão ou para os de grandes posses na cidade, a bastardia, a perseguição imputada pelo Estado à diversidade de credos, os grandes fluxos de êxodo dos das cidades interioranas para os grandes centros urbanos e a constituição da marginalidade, a Ditadura Militar e o engodo do milagre econômico, a era de ouro do rádio, ou mais recentemente o desemprego e as exigências milimétricas do mercado de trabalho, tudo, aí se ajusta e compõe um mosaico que é a sobreposição de instantes da formação do país. Não seria exagero considerar Desnorteio uma metonímia sobre a construção do Brasil, presa na circularidade dos temas a que se filiam as histórias do romance.

Os tais temas são a loucura, a morte e o amor (especificados desde os títulos que abrem cada capítulo). Todas as vidas estão atravessadas, umas mais que outras, por essas três condições. O tempo que quase não sofre variação no livro de Paula Fábrio, porque este, pelo ponto de vista (o distanciamento ou aproximação) se suspende numa presença quase-fixa de um eterno presente, é o solapado pela tristeza, pela perdição, pela ignorância e pelos sonhos deixados pelo meio do caminho. Mas, há laivos de uma beleza que alcança quase a vez de uma recordação nostálgica, ou uma fotografia sépia, como a viagem dos parentes em melhores condições aos que ficaram no interior para levar ajuda. Falo, evidentemente, do capítulo “O sobrinho e a viagem de fusquinha”, uma das passagens mais doces do livro, doces e carregadas de uma melancolia assim tão próxima da vida de tantos de nós.

Ao lembrar dos títulos de cada capítulo, sei que são como bússolas norteadoras para o narrado e que participam mesmo na compreensão de quem é quem nos enredos possíveis, mas me parece que se não existissem o romance cumpriria plenamente o efeito que anuncia desde o título: desnorteio. E esta é uma única ressalva que, nem é de leitor crítico, mas de quem se atreve a dar pitaco no terreno alheio; terreno, aliás muito bem desenhado. Sim, porque além de uma panorâmica sobre a história do Brasil, Desnorteio também insere uma gama de questões de cunho mais individual: as relações familiares, a ausência dos afetos; o desfazimento do amor, o labor feminino pela liberdade do corpo, entre outras questões.

O romance é uma galeria de retratos construída não por uma única imagem reveladora, mas por uma variedade de imagens, algumas colocadas mesmo diante de um espelho. Nada é revelado de um todo num texto que se preza pela fragmentação. Assim como o que seria fio central de narração vez ou outra baldeia a compreensão linear que ousamos formar a partir desses fragmentos e de sua unidade temática, há sempre uma necessidade de o leitor se colocar atento à mobilidade dos fotogramas.

É também cada vez mais sintomático que quem diz a que gênero pertence uma obra é seu autor; e novamente digo que talvez tenha sido sempre assim. Nós, os da crítica é que temos insistido obsessivamente em seguir aquilo que reza a sabedoria quase milenar da teoria literária para encaixar obras em gêneros específicos. Se nos guiamos pela tradição filiaremos Desnorteio não ao romance, nem à novela, quando muito numa antologia de contos que versam sobre um mesmo eixo temático e ora recorre com frequência à um mesmo núcleo de personagens, como disse. Por isso, na constante reinvenção da forma, Paula Fábrio insere sua pequena colaboração que é (e isso deve ter ficado perceptível ao longo dessas notas) integrar duas linhas distintas, a que prima pelo realismo e tem tons sociais mais aguçados e a que zela pelo subjetivismo e é, portanto, eivada de uma natureza mais psicológica.

Também não há em Desnorteio a ambição em ser um romance, pelo menos na concepção que se tem de aspiração do grande romance; essa expectativa parece ser recorrente nos escritores contemporâneos – com raras exceções ou com uma revisão daquilo que se compreendeu por longo tempo como grande romance. O despojamento assumido pela forma, a incessante necessidade de encontrar uma síntese que possa dizer tudo numa frase, numa palavra (tal como se expressa no título), faz desse livro uma obra corajosa, cujo campo de interesse é, antes de tudo, pela natureza humana cada vez mais solapada pela loucura de um tempo que não deixa de ousar em atentar contra a nossa própria existência.