sábado, 4 de abril de 2015

Consciência

Por Jeferson Luis de Carvalho



Era um sábado como qualquer outro.  O pai saiu para massagear e admirar o carro com a desculpa de ter que lavá-lo. A mãe, trabalhadora de dupla jornada durante a semana, tomou posse de seu domínio pleno e irrestrito sobre o reino residencial, distribuindo tarefas a seus fiéis súditos que usufruíam dos proveitos de uma cama aconchegante e o alimento na mesa.

Enquanto a ordem natural da casa seguia, em seu mundo, esquecido por um instante, saía o cachorro da casa. Um desses que tem seu pedigree identificado pelo não desenho do focinho e a não uniformidade do corpo, mas era feliz em sua vida e posição naquele lar. Deitou, como sempre, com seu pato de borracha na boca defronte a porta, tudo como devia ser. Até ele ouvir o baque.

O que causara aquele baque ele não sabia, apenas tinha consciência de que tinha consciência. Sim, tinha consciência de tudo e de todos. Seus ouvidos habituaram-se com os sons, seu cérebro passou a processar e dar sentido àqueles ruídos antes indecifráveis produzidos pelas pessoas da casa. Entendia o que conversavam, e mais, pensava sobre o que ouvia, nunca antes raciocinara algo.

Deu-se conta de que tinha um pato de borracha na boca. O cuspiu rapidamente, sentiu pela primeira vez um sentimento repulsivo que, logo, descobriu ser o nojo. O pato era velho e sujo. Como podia ter estado alegre e satisfeito com tal objeto, pensou imediatamente. Sentiu uma náusea momentânea, a língua cresceu como um objeto com vida autônoma, cuspiu novamente, o pato parecia ainda estar ainda em sua boca.

O pai gritou para uma das crianças saírem de perto do carro para não se molhar. A mãe lembrou o pequeno súdito que ele tinha afazeres e que deixasse o pai em paz. O cachorro estava maravilhado, entendia perfeitamente cada palavra. O que antes não passavam de barulhos indissociáveis, agora ganhavam sentido como mágica. Ninguém falava com ele, pareciam que não estavam preocupados com a presença do animal. Foi em direção ao pai, quis informar que o compreendia, que poderiam discutir coisas ou, simplesmente, passar o tempo.

 – Olá, pode parecer estranho, mas, sim, estou falando.

Tentou ser formal e educado, mas estranhamente o pai não o entendeu, fez um movimento brusco e berrou:

– Sai daqui! Marquinhos! Pega o Fagulha aqui!

Fagulha? Que nome era esse? E por que toda essa indignação? Sentiu mãos ao redor do seu corpo, foi erguido de forma brusca em direção ao peito de uma das crianças. Tentou virar a cabeça para enxergar o que estava acontecendo, mas não obteve sucesso. Tentou argumentar, contudo, novamente, a comunicação não ocorreu. Foi deixado de qualquer jeito nos fundos da residência sem antes ouvir uma reprimenda do garoto por ter estado na frente de casa. Abandonado no ponto esquecido da casa naquela manhã de sábado, sentiu-se injustiçado e ultrajado. Era velho para os padrões dos cachorros, deveria ser respeitado por um garoto tão jovem, além do mais, o que havia feito de tão grave ao tentar conversar com aquele que conhecia há tanto tempo. Começou a se dar conta de sua situação naquela casa. Estava do lado de fora, tendo inúmeras cadeiras e um belíssimo e confortável sofá do lado de dentro. Como sabia os nomes desses objetos e não seu próprio nome? Fagulha? O nome não lhe saía da cabeça. Deveria ter um nome mais pomposo, pensou. Sempre esteve a serviço daquela casa, amou aquelas pessoas, e nem o direito de repousar em um local macio adquiriu.

Sua indignação já era grande quando uma das crianças abriu a porta dos fundos e trouxe um pequeno pote nas mãos, colocou ele no chão e o encheu com ração. Não podia acreditar que o deixariam comer no chão, uma formiga distraída adentrava o pote. Foi a gota d'água.

Assistiu incrédulo a família sentada à mesa, compartilhando, ceando e divertindo-se enquanto ele estava do lado de fora, acompanhado apenas de duas formigas que sumiram dentro de sua refeição. Recolheu-se a um canto. A tristeza tomou conta de si. Amaldiçoou o momento em que tomou consciência de sua existência e das coisas que o cercavam. Em sua inocência instintiva de sobrevivência, satisfazia-se com o pouco, mas, agora, que tem consciência do que acontece, enxergou que o desprezo o acompanhava pela casa. Era apenas mais um animal de estimação, nada mais do que isso, um animal de estimação.  Tentou comer a ração junto com as formigas, a fome era grande, mas não conseguiu. A cada tentativa, era violentamente punido por seu pequeno estômago que regurgitava de forma intensa como um exército tentando sair de seu ventre. Exaustou, decidiu repousar, entretanto não encontrou local para isso. A todo canto havia insetos e sujeira, sentiu-se enojado de si mesmo, lambia os pés desses ingratos, murmurou amargurado.   

Essa situação não ficaria assim, a consciência é uma dádiva que permite que possamos pesar situações e posicionamentos para utilizá-los como base de pensamento para ações futuras. Com esse pensamento, o pobre cãozinho foi em direção ao pote pela última vez, era velho, sujo, todavia havia servido muito bem a ele. Subiu-lhe pelo meio do peito um calor e um desejo de encontrar o pato, imundo, proliferado de bactérias (como conhecia bactérias?) para um último adeus. Limitado pela porta fechada, resignou-se em cantar uma melodia triste e chorosa, uma ode a um pato rejeitado. Ao fim da canção, foi decidido em direção à piscina, daria fim àquela pobre vida.

No caminho para o momento definitivo de sua vida, um baque. As pernas perderam a rigidez, os olhos ficaram pesados, sentiu o chão rodar, tentou levantar uma pata, contudo ela pesou contra o chão, caiu.

– Marquinhos!

O grito do pai interrompera o ritual alimentar. Assustou-se com a queda brusca do cachorro, mas tão logo levantou da cadeira, o cãozinho levantou abanando o rabinho e correndo direto para o pote de ração. A consciência abandonara novamente o pobre animal.

– Você, hein pai? Parece que não conhece o Fagulha, esse vive brincando. Cachorro mais feliz não tem.

– Tá certo, filho. Tá certo...

Achou melhor não mencionar que vira o cachorro sentado nas patas traseiras e apontando as dianteiras para o céu como se estivesse cantando uma música de lamentação.

Fagulha nunca mais teve baques. Morreu de velhice sete anos depois. O pato sempre esteve com ele e, por vontade da família, foi enterrado junto ao seu corpo. Na sua lápide, as ex-crianças escreveram: Cão mais feliz do mundo!

Tudo uma questão de consciência.

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Professor,colorado, mestrando em letras e um apaixonado por leitura.

Boletim Letras 360º #108

Nesta edição do Boletim Letras 360º vimos lembrar duas novidades interessantes aos leitores: finalizamos o mês da poesia com oito leitores recebendo livros de poesia (!). Pode parecer muito pouco para o universo de leitores que nos acompanha, pode, mas para um espaço mantido a duras penas por dois braços e sem quaisquer vínculos financeiros é muito. É um esforço de quem acredita ser possível transformar a realidade tão escassa e mesquinha pelo poder encantatório da palavra. A outra novidade é que abriremos, em breve, em parceria com a página sobre livros “Dicas de leitura” mais uma promoção.

Herberto Helder deixou um inédito. Mais detalhes ao longo deste boletim. Foto: Alfredo Cunha/Expresso


Segunda-feira, 30/03

>>> Portugal: Herberto Helder deixou um livro inédito

Poemas canhotos será lançado pela Porto Editora por alturas da Feira do Livro. São os últimos poemas poeta. Depois da morte do poeta, a editora não tinha a certeza de que tudo tinha sido revisto e passado a limpo pelo autor. Mas já agora os textos foram verificados e todos estão mesmo passados a limpo por Herberto Helder.

>>> Brasil: Todas as homenagens a Donizete Galvão

Comentamos aqui que o poeta receberá a antologia Outras ruminações com a voz de 75 poetas brasileiros dedicados à sua obra. Mas, além desse feito, há duas outras publicações que assinalam o nome do brasileiro: outra antologia - Ofícios do tempo, que é uma espécie de panorama poético organizado por Lindsey Rocha Lagni, e uma edição especial do poema Escoiceados. Esse título é publicado pela Casa de Virgínia, novo selo da editora Musa com ilustrações de Carlos Clémen. É um trabalho que ainda tem um toque do próprio Donizete que soube da edição que estava sendo construída.

Terça-feira, 31/03

>>> Brasil: Obra de Virgilio Piñera será reeditada por aqui

"O tema central de sua obra, bastante coerente, é o da vida encarada com uma sucessão de golpes terríveis, que levam o ser humano a uma existência de miséria e de dor. Convém lembrar que o humor negro está quase sempre presente em seus escritos e cria certo distanciamento próprio dos textos absurdos" - assim comenta Dirce Waltrick sobre a obra de Piñera.O escritor que foi lido e admirado por nomes como Jorge Luis Borges há muito que padece de um ostracismo; parte de sua obra, por exemplo, ainda inédita, tem destino escuso. No Brasil, em 1989, a Editora Iluminuras publicou Contos frios. Agora, é essa a obra que será reeditada.

>>> Brasil: Escritores brasileiros e portugueses se reúnem em torno do tema "Minha Língua, Minha Pátria"

O extenso programa que cobre todo o mês de abril tem início no dia 10. Este é o segundo projeto realizado pela Livraria Cultura e pelo jornal português PÚBLICO, que desde novembro de 2014 publica uma versão mensal do suplemento Ípsilon, por aqui. O Ípsilon Brasil é distribuído gratuitamente junto a Revista da Cultura. O evento tem ainda como parceiro o Instituto Camões e apoio da Embaixada de Portugal no Brasil e da Universidade de Coimbra. No dia 10 o professor Carlos Reis, abrirá o acontecimento numa conversa sobre Eça de Queirós; no dia 11, Gonçalo M. Tavares; dia 12, Adriana Calcanhotto entrevista Jerónimo Pizarro, sobre Fernando Pessoa; no mesmo dia Afonso Reis Cabral, vencedor do Prêmio LeYa 2014; dia 13, Alexandra Lucas Coelho; dia 14, Norberto Morais;e dia 15 Matilde Campilho e Gregorio Duvivier.

>>> Brasil: Manuel Bandeira e 20 poemas sobre o amor

Teadorar é editado pela Global Editora e com ilustrações de Orlando Pedroso. Todos impulsos entre a paixão e o amor - das pernas trêmulas, passando pelos calafrios na barriga, à ardência de viver intensamente sorrindo e chorando - cabem nessa antologia. Teadorar é somente um neologismo desgarrado de amor criado pelo poeta para demonstrar esse arroubo quase sem fim.

Quarta-feira, 01/04

>>> Portugal: Mais inéditos de Fernando Pessoa

Já noticiamos aqui a publicação de uma antologia de contos com inéditos de Fernando Pessoa. O projeto conduzido por Ana Maria Freitas vem a luz agora pela Assírio & Alvim. A edição, de certo modo, é uma continuidade do já se publicou como O mendigo e outros contos (2012). A obra dá a conhecer 18 contos inéditos, como “A Estrada do esquecimento”, “O caso do sargento falso”, “A trincheira”, “Uma tarde clerical”, “A caçada” e “Um conto”, entre outros.

>>> Brasil: Edição reúne a música de Vinicius de Moraes e traz textos ainda não publicados na antologia

Livro de letras reúne algumas das pérolas da moderna canção brasileira: são as letras que Vinicius produziu sozinho ou com parceiros como Antonio Carlos Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque. Vinícius esteve na Bossa Nova como o poeta que foi além dos rótulos. A obra reúne, além das músicas conhecidas, duas letras que anteriormente não tinham sido publicadas, fruto da parceria do poeta com os compositores Francis Hime e Edu Lobo. Acompanha um ensaio de Paulo da Costa e Silva, encomendado especialmente para esta edição, com uma análise detida e esclarecedora da canção em Vinicius de Moraes, além de textos de Eucanaã Ferraz (curador da coleção), José Castello (sobre o percurso do Vinicius letrista) e uma divertida crônica do autor português Alexandre O’Neill sobre um concerto de Vinicius e Baden a alegrar uma noitada e espantar o cinza em plena Lisboa salazarista

Quinta-feira, 02/04

>>> Brasil: Samuel Beckett e Textos para nada

Todo hermetismo do qual é acusada a obra do escritor irlandês parece não servir de empecilho para a edição sua no Brasil. Duas editoras têm obras de Beckett no catálogo. E agora uma delas, a Cosac Naify, que na coleção Prosa do Mundo publicou os já-esgotados Esperando Godot, Fim de partida e Dias felizes, começou a retrabalhar essas edições com um novo projeto gráfico. Depois desse segundo momento, outros títulos vieram fazer parte do catálogo como “Murphy” e agora Textos para nada. A obra publicada em 1955 radicaliza os experimentos já feitos por Beckett na trilogia formada por Molloy, Malone Morre, O inominável, recém-editada por aqui pela Globo Livros.

>>> Portugal: Morreu Manoel Oliveira

O cineasta português foi autor de trinta e dois longas-metragens e, aos 106 anos, ainda trabalhava ativamente em algumas peças: em 2014, por exemplo, apresentou uma adaptação de Os lusíadas, sob o título O velho do restelo.

>>> Israel: Anne Frank como nunca se viu no cinema

Dissemos há algumas semanas sobre o trabalho de um novo longa preparado na Alemanha sobre a história de Anne Frank. O seu diário já serviu várias vezes aos cineastas e tem agora outra experiência inédita. Ari Folman (de Valsa com Bashir) prepara uma animação com técnicas stop-motion. No filme, a protagonista não é Anne Frank mas Kitty, a amiga imaginária a quem Frank escreve no seu diário. Ari Folman imagina Kitty a descobrir o diário. À medida que o vai lendo a história de Frank é contada. Para fazer o filme, o israelita teve acesso integral e ilimitado aos arquivos do Fundo Anne Frank, criados em 1963 pelo único sobrevivente da família da menina.

Sexta-feira, 03/04

>>> Brasil: Aos estudiosos da literatura, edição de Mikhail Bakhtin, recupera originalidade de seus estudos sobre o romance

Teoria do romance I é o primeiro de três volumes traduzidos por Paulo Bezerra a partir da edição de 2012 que reúne o texto integral publicado parcialmente em 1975 no volume "Questões de literatura e estética". A edição é acompanhada de um glossário que discute e esclarece diversos conceitos do teórico russo.

>>> Brasil: Reedição da obra contística de Ernest Hemingway

Já noticiamos diversas vezes aqui sobre o refação gráfica da obra do autor de O velho e o mar. Pois bem, além dos romances, as narrativas curtas ganham espaço nessa proposta. Prova disso é chegada às livrarias de Contos - volume 1, que teve tradução de José J. Veiga. A edição é composta por 28 textos e circula desde o fim de 2014. Os outros dois volumes, já anunciados, devem chegar as livrarias em breve.


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