sexta-feira, 27 de março de 2015

Anjos da desolação, de Jack Kerouac

Por Rafael Kafka





Jack Kerouac não era um primor como escritor. Isso é perceptível em seu clássico mais comentado, On the road. Mas sempre cabe a tentativa de procurar entender em que contexto, em qual parâmetro, Kerouac não era um primor de escritor. Realmente, se olharmos os clássicos e suas escritas trabalhadas com sintaxe profunda e perfeita, veremos nele um escritor amador, movido apenas pela empolgação. Mas se olharmos os parâmetros literários do século XX, em que a escrita se torna menos formal e mais apaixonada, veremos Kerouac como o que ele realmente é: um Buda da escrita espontânea.

Em meu último texto, fiz uma comparação um tanto que colocando Kerouac contra a parede: a comparação citada no começo do meu texto sobre O ano da Morte de Ricardo Reis (leia aqui) focava no aspecto pouco político da obra de Jack que era reflexo de seu temperamento até mesmo alienado diante das questões políticas que pululavam no período pós Segunda Guerra. Porém, para ser justo, devo assumir que mesmo não vendo em Kerouac esse desejo de ser engajado politicamente, sempre reconheci nele uma figura muito importante para o debate de questões sociais relevantes, como o papel da arte e da literatura em especial na libertação do indivíduo e a valorização da cultura negra e oriental.

Kerouac era extremamente influenciado pelo jazz e é mais do que batido que suas obras eram tentativas de imitar, na prosa e no verso, o ritmo da música negra marcada pela velocidade e pelo improviso. On the road é mesmo um hino ao jazz, com direito a vários momentos de pura descrição de sentimentos causados pela batida do ritmo. O jazz em sua melodia representa o espírito inquieto que caracterizava o autor considerado pai da Geração Beat. Tal espírito inquieto se manifestava na forma de várias aventuras amorosas, sexuais e psicodélicas vividas com amigos e amantes; viagens e mais viagens ao redor dos Estados Unidos e do mundo; e um ritmo de escrita pulsante, febril, sem interrupção.

Para Kerouac, em quem faltava, talvez, um pouco de talento imaginativo, o que importava era a capacidade de transformar a vida em arte. Todos os livros lidos dele por mim são fatos vividos e transformados em uma literatura que mescla elementos do jazz, da cultura oral e do desejo de descoberta e paz herdado do budismo. É bem provável que Kerouac tenha superado Simone de Beuavoir na quantidade de fatos biográficos usados na feitura de livros. Podemos considerar que o que há de mais literário em seus textos é o cuidado quase infantil de disfarçar as pessoas do mundo real em pseudônimos usados mesmo nas cartas com Allen Ginsberg e a empolgação de relatar tais fatos em um ritmo frenético de sensações e ideias.

Todos os livros de Kerouac seguem esse mote de fazer arte da vida, mas Anjos da desolação tem algo a mais de visceral: a sua escrita é bem crua, quase sem edição, truncada em alguns momentos, corrida em outros, despretensiosa sempre. O livro é uma transcrição dos diários de Jack e seria originariamente duas obras separadas: a primeira parte da obra, que seria o primeiro livro, fala do período em que Jack foi vigia de incêndios no Desolation Peak e ali se viu sozinho consigo mesmo, sem drogas de qualquer tipo. Essa parte do livro lembra demais um dos trechos do Livro do Desassossego de Bernardo Soares (Fernando Pessoa) e mostra o autor em um constante exame de si mesmo, relembrando fatos passados, falando de impressões de, dos amigos e da vida, além de tecer aforismos sobre a vida e sobre sua fé, verdadeiro sincretismo entre a crença católica e o budismo zen. Já a segunda parte do livro, lembra mais o que foi feito em relatos como os presentes em On the road e Vagabundos iluminados e falam das andanças de Jack pelo México, por Paris, por Tanger, Londres e Nova York. Aqui o zen budismo sai um pouco de cena e vemos o autor se envolvendo em casos amorosos confusos, em orgias, em bebedeiras e outras cenas comuns na vida dos escritores marginais que marcariam a cultura americana.



O livro todo é escrito em uma forma fragmentada, sem enredo fixo, como uma espécie de diário de viagem cuja principal função é registrar os fatos e impressões de um determinado período da vida do escritor. Além disso, vemos o mote de outras histórias surgirem aqui e mesmo com os pseudônimos fica fácil de saber quando estamos diante de Allen Ginsberg, Gregory Corso, Neal Cassady e outros autores. Kerouac mesmo revelando uma grande preocupação em ser considerado um ícone de uma geração de novos escritores (a mesma preocupação, creio eu, que levaria Kurt Cobain a se matar em 1994), sempre demonstra empolgação com o espírito irrequieto de seus amigos e em todos os momentos está a trocar ideias sobre a natureza profunda da arte e sobre o desejo de levar uma vida tranquila na qual possa escrever em paz.

Há em Kerouac  muito da aspiração à transcendência pela arte típica dos poetas simbolistas. A diferença do autor beat é que havia nele a vontade de compartilhar a verdade profunda da arte e entre seus amigos existia uma grande comunidade de escritores/leitores vorazes que ajudavam-se mutuamente a desenvolverem e publicarem os seus escritos. Para Jack, em cada ser havia um poeta em particular e o incentivo à produção escrita era mais do que uma aparência e sim a procura por algo essencial, sublime: a paz interior.

Por isso o susto presente ao se perceber como porta-voz de uma geração de escritores: a coisa ficara séria demais e agora ele não sabia ao certo qual o sentido de tudo aquilo. Em Big sur o desespero diante de uma tarefa que agora parecia vã (a de escrever) chega a um extremo assustador e a desesperança nos faz olhar uma simples sombra daquele escritor vibrante que balançou a América.

Talvez, Kerouac tenha morrido sem perceber ao certo a sua importância para o cenário cultural como um todo. Mesmo Allen Ginsberg tendo uma importância política mais sólida, haja vista o seu papel de ativista político, Jack foi o provocador de novas formas de leitura e escrita e da descoberta de um outro lado da sociedade americana até então ignorada. Há no comportamento de Duluoz (o alter ego de Kerouac no presente livro) muito do comportamento de Perron, personagem central de Os Mandarins de Simone de Beauvoir: Duluoz também sente medo de se ver esmagado pelas demandas de questionamentos sociais profundos e sem tempo para escrever. O seu individualismo pode soar mesquinho em alguns momentos, mas é natural diante de um mundo que saiu cada vez mais incerto do pior de todos os conflitos bélicos já vistos por nós, quando se esperava que tudo ficaria bem e em paz.

É esse individualismo de Kerouac que o tornou em um autor importante, mesmo com tantas limitações técnicas. Livros como Anjos da desolação mostram que mais do que a técnica o que define a boa literatura é a paixão contida em suas linhas e entrelinhas. Tal paixão está presente tanto nas linhas tortas destinadas a falar de alguma amante em potencial quanto para falar de alguma figura marginal conhecida, como o viciado Old Bull, que ele conhece no México, ou ainda prostituta Tristessa, que gerou um mote para outra história a qual em breve estarei a ler e a falar por aqui. Anjos  parece uma conversa franca entre o escritor cuja meta ainda é uma fama que se concretizará cada vez mais e lhe tirará sua tranquilidade espiritual e seu leitor ávido por respostas. Em alguns momentos do livro, tal ritmo de conversa é assumido francamente pelo narrador que parece estar ciente de que escreve para entreter e desassossegar, como diria Saramago. Tais momentos do romance/diário/relato de viagens lembram por demais o manifesto desvairista escrito por Mário de Andrade, no qual ele diz não querer ser mestre de ninguém, pois ser mestre de alguém implica em ser mestre de cópias sem pensamento próprio.

O medo de Kerouac, e o de Kurt, era esse: ver seus amigos reduzidos a cópias de si mesmo, ou ver a si mesmo como cópia de um mito criado contra sua vontade. Escrever para desassossegar é escrever sem a pretensão de dar conselhos, pois, como bem mostrou Sartre em O Existencialismo é um Humanismo, dar conselhos é apenas a confirmação de uma verdade previamente tácita. Escrever para desassossegar é sentir a vontade de provocar no leitor o desejo de ser escritor e contar suas histórias para provocar novos leitores a serem novos escritores até que o máximo possível de pessoas queira escrever as suas verdades sem se preocuparem em absorver verdades alheias prontas. Dessa forma, quem sabe, tenhamos um mundo melhor, mais amoroso e mais belo, como Kerouac sonhava.

Mesmo ingênuo do ponto de vista político, talvez esmagado pelo susto diante deste mundo complexo e bizarro de agora, Jack foi capaz de causar uma reviravolta no mundo cultural dos Estados Unidos e do Ocidente como um todo. Há muito do desvairismo de Mário de Andrade nele nessa vontade de experimentar formas e mais formas de escrever sobre qualquer temática e de levar aos outros o desejo de ler mais e escrever mais. Diria que Kerouac é uma leitura obrigatória tanto para o jovem que quer descobrir o mundo quanto para o professor que quer incentivar um jovem estudante a gostar de ler.

Tal paixão pela leitura, pela escrita e pela verdade vemos em todos os seus livros. Por isso que falar de um texto dele é ao mesmo tempo falar de todos, pois a literatura em Kerouac sempre está se renovar. Seja pelo fato de novas vivências, seja por máximas artísticas, filosóficas ou religiosas novas, a escrita de Jack seguirá um padrão mutante o tempo todo. E por mais limitações que ela encontre, ela sempre dará um jeito de falar de uma forma que toca no fundo da alma de qualquer leitor que queira andar pela estrada da existência sem medo.


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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.