segunda-feira, 16 de março de 2015

Quando Gabriel García Márquez aprendeu a escrever

Por Winston Manrque Sabogal



“O coronel destampou a garrafa de café e comprovou que não havia mais de uma xícara...”.

“Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que...”.

O universo literário de Gabriel García Márquez se constrói na caribenha Arataca, quando vive sua primeira infância com seus avós maternos: Tranquilina Iguarán Cotes e Nicolás Ricardo Márquez Mejía. Ambos o envolveram com as narrações de suas histórias. Ela contribuiu com a imaginação com seus relatos de defuntos, fantasmas e mistérios do além e de cá; e ele, velho coronel aposentado, com o pragmatismo e o raciocínio com suas recordações da Guerra dos Mil Dias e as batalhas da vida diária. E em casa encontrou, também, o livro que definiria seu futuro como escritor: um dicionário que foi presente do avô e que o menino leu como se um romance, “em ordem alfabética e sem entendê-lo”.

Naquela casa colombiana, sob sóis inclementes, formava-se o futuro. Com seus avós viveu até os oito anos. Sua última recordação foi a fogueira onde, depois da morte do coronel, queimaram suas roupas, entre elas os trajes de guerra, como os que o próprio Gabriel usou em Estocolmo na entrega do Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Tinha 55 anos. Aquela perda do homem que lhe criou numa casa invadida de mulheres o acompanhou sempre e disse: “Hoje o vejo claramente: algo meu havia morrido com ele. Mas também creio, sem dúvida alguma, que nesse momento era já um escritor de escola primária ao que só faltava era aprender a escrever”.

No primeiro tomo de suas memórias, Viver para contar, o mestre de contos e romances indispensáveis e artigos de jornal exemplares conta que lhe custou muito aprender a escrever. Ao final criou um mundo onde, como disse Mario Vargas Llosa em Historia de um deicidio, “esta vontade unificadora é a de edificar uma realidade fechada, um mundo autônomo, cujas constantes procedam essencialmente do mundo da infância. Sua infância, sua família, Aracataca constituem o núcleo de experiências mais decisivo para sua vocação: estes demônios foram sua fonte primordial”.

Outros demônios em sua adolescência e juventude foram Kafka, Woolf, Sherezade, a Bíblia...

A linguagem de toda sua obra parece ser feita “para contar histórias, para mudar o mundo aterrador, para introduzir o homem sem que dê conta nos vales confortáveis do sonho. Como se de um grande caleidoscópio se tratasse para mostrar a realidade dos traços e das cores, mas ordenadas em vistosos encaixes, mágicos, modificados, multiplicados por espelhos enganosos”, explicou Ricardo Escavy Zamora, da Universidade de Murcia num congresso em homenagem aos Cem anos de solidão em 1992.

Escrever bem para García Márquez “não é uma exibição de dotes estilísticos; é unir a noção épica do idioma às épicas existentes”, dizia Carlos Monsiváis. Isso o levou à exploração e conquista de novos territórios literários que, em palavras de Carlos Fuentes, “não apenas reunia numa viga as grandes tradições da literatura hispano-americana – mito de fundação, épica de destruição, história de recriação – embora que, magistralmente, generosamente, demonstrava a compatibilidade dos gêneros de uma época de seca literária determinada pela ditadura do nouveau roman francês, empenhado em converter a literatura em deserto”.

A García Márquez lhe encantava escrever, por isso não entendia quando alguém dizia que a literatura era um sofrimento. “Outra coisa”, confessava, “é alcançar que o leitor acredite em mim. Isso sim é um desespero até que se aqueça o braço e tudo sai, e se mistura, e começa enfim, a tomar forma. Mas o leitor tem que acreditar sempre, se não tudo foi um fracasso”.

Tentou desde sua escola na fria Zipaquirá nos Andes colombianos. E se lançou ao grande público num domingo de setembro de 1947 quando o jornal de Bogotá El Espectador publicou um conto seu, “A terceira resignação”. Logo chegou o jornalismo em todos seus gêneros, enquanto à hora do lazer fazia literatura. Dali e dessa lição saíram narrativas de “Olhos de cão azul” ou “Os funerais da mamãe grande”, ou romances como Ninguém escreve ao coronel, Cem anos de solidão, O outono do patriarca, Crônica de uma morte anunciada, O amor nos tempos do cólera, Do amor e outros demônios.

Apesar de reconhecer que o mais lhe interessava no trabalho de escritor era a concepção da história, e o que mais lhe aborrecia era escrevê-la. Mas uma vez diante da folha era um conquistador. Sobre a progressão de uma obra afirmava, “consiste justamente em continuar escavando dentro de algo para ver onde se chega, onde se encontra o botão que se busca e que é o mistério da morte. A vida, já se sabe, não se decifrará jamais”. Sob essa premissa começou a escrever frases como “O que dia que iam matá-lo, Santiago Nasar se levantou às 5h30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Havia sonhado que...”.


“Era inevitável: o cheiro de amêndoas amargas sempre lhe lembrava o destino de um amor não correspondido...”.

Ligações a esta post:
Leia notas de Rafael Kafka sobre Cem anos de solidão, aqui.
Leia sobre Memórias  de minhas putas tristes, aqui.
Quando da morte do escritor, Rafael Kafka escreveu-nos uma crônica com lágrimas; leia aqui.


* Tradução livre para "Cuando Gabriel García Márquez aperndió a escribir", publicado no jornal El País.