quarta-feira, 4 de março de 2015

Roth libertado, de Claudia Roth Pierpont

Por Anna Caballé




Sempre foi dito que Jonathan Swift, talvez o mais importante escritor em língua inglesa de seu tempo (com a licença de James Boswell), foi um escritor que unia à sua grande inteligência uma absoluta incapacidade para a ilusão. Um oculto desespero o levava ser crítico de todos os valores dominantes a fim de ameaçar as próprias raízes da existência humana como faz em As viagens de Gulliver. E agradeço a autora de Roth libertado. O escritor e seus livros, Claudia Roth Pierpont, que sugere as relações apreciáveis quanto ao talento e a sensibilidade dos dois romancistas. Porque, de fato, mesmo com séculos de distância, os dois têm relações em comum: recorrem à sátira como principal instrumento de sua literatura, e há também neles o desejo de renovar a prosa de seu tempo, dotando-a de uma nova e pulsante vitalidade. E não só isso: os dois se caracterizam por um componente obsessivo e amargo de sua personalidade que ocasionalmente o conduzem ao lugar da depressão.

O título deste iluminador ensaio com traço biográfico joga com o conhecido Zuckerman acorrentado de Philip Roth, como se sugerisse a liberação das chaves indispensáveis de acesso ao universo de um escritor contido (no caso aqui como pessoa, não como romancista). Não há nenhum laço de parentesco entre eles – escritor e jornalista –, ainda que o sobrenome seja idêntico. Claudia Roth trabalhou para o The New Yorker até 2004, quando saiu para se dedicar à sua própria escrita. O livro que agora falamos segue sua metodologia característica: justapor vida e obra a fim de que ambas se enriqueçam mutuamente e permitam reconstruir as verdadeiras dimensões de uma trajetória literária. Agiu dessa maneira com Hannah Arendt, Gertrude Stein, Anaïs Nin e Margaret Mitchell. Isto é, quase sempre foram elas – “mentes apaixonantes” – as de seu interesse.

Sua última contribuição é também em torno de uma mente apaixonante; Philip Roth é o escritor vivo mais importante da narrativa estadunidense contemporânea. Mas um romancista que teve seus problemas com a crítica feminista acusando-lhe quase sempre de misógino e inclusive de mal tratamento emocional nas raízes da publicação das memórias de sua segunda companheira, Claire Bloom, em Leaving a Doll’s House.  Um livro que lhe valeu a inimizade de John Updike, quem deu crédito absoluto às acusações, e uma infinita quantidade de comentários e piadas que o deixaram particularmente indefeso. 

Para amortecer o golpe, Roth abandonou Nova York e se refugiou em sua casa em Connecticut, mas aquela experiência trabalharia em seu interior e dela sairiam Casei com um comunista e A marca humana, uma obra excepcional em que o romancista desconstrói a forma como a desonra moral e a fofoca o hão convertido num entretenimento público, causando um dano irreparável. Em todo caso, havia ficado marcado por seu primeiro casamento com Maggie Martinson, uma mulher instável e de quem se vingaria em Minha vida de homem.

Roth libertado se lê com fluidez e está escrito com inteligência e perspicácia; oferece ao leitor uma interpretação coerente de sua carreira literária. Mas não espere uma biografia convencional da personagem, pois o livro conta com sua estreita colaboração: parte de uma amizade imprecisa entre os dois – “na saúde e na doença” – e por isso oferece algumas limitações. A mais grave é que não se analisa a psicologia de Roth nem se menciona sua evidente neurose e passeia panoramicamente sobre o contexto judeu de Newark, de onde saem os primeiros e importantes livros, como O complexo de Portnoy. 

A escritora, consciente de seu antifreudismo, evita aprofundar-se na vida familiar de Roth e traça uma diagonal até o primeiro livro, Adeus, Columbus. Aí é onde Claudia Roth começa a pisar firme, proporcionando uma visão filosófica de sua obra que inclui a tensa relação do autor com a crítica. É óbvio que o livro deve lutar com tudo o que Roth escreveu e disse de si mesmo – Os fatos de um romanista, Patrimônio, O ofício: um escritor, seus colegas e suas obras e especialmente através do seu “heterônimo”, Nathan Zuckerman – mas sai muito bem do empenho. A biografia, entretanto, virá algum dia.

Ligações a esta post:
>>> No Tumblr do Letras um conjunto de fotografias raras de Philip Roth 

* Este texto é uma versão livre "El pequeño Swfit" publicado no El País