quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O jogo da imitação, de Morten Tyldum



Fabuloso. Termo utilizado aqui não com o sentido de fantasioso, mas de grandioso e belo. Termo que abrevia uma opinião sobre um título que integra outras produções do gênero: seja A teoria de tudo, Uma mente brilhante, Capote, Milk, Piaf – um hino ao amor, O discurso do rei... É evidente que, o grande pecado cometido na elaboração da narrativa é a obviedade com que é construída: um jogo previsível, como já admitiu outras figuras da crítica. Entretanto isso é fato muito aceite, se pensarmos quem são os produtores e para qual público o filme é destinado. A obviedade que rouba a cena é também a responsável pela construção bem acabada da obra. E, claro, fantasiar demais quando se lida com cinebiografias seria um problema um tanto grave. Mais ainda quando o filme aposta na ideia do fato real como se dissesse com isso um maior realismo da obra.

A narrativa de O jogo da imitação se beneficia de uma série de outros elementos que levam o telespectador ao gosto imediato pelo filme: nutre-se do efeito cada vez mais comum do ‘baseado numa história real’, se mostra como uma história de superação e conquista, lida com a ideia de injustiça e está situada num dos contextos mais comoventes da história da humanidade, a Segunda Guerra Mundial que, é apenas, figura ou amálgama ao conjunto de narrações que sustentam o filme. Isso não é uma bula do sucesso, mas é quase uma garantia de sua plena aceitabilidade pelo grande público.

No centro de atenção, o matemático Alan Turing cuja interpretação coube a Benedict Cumberbatch; o ator dedicou-se, ao que parece, profundamente à construção da personagem e conseguiu sobrepor a rixa que normalmente teríamos da figura do gênio (nenhuma, ao que consta dada à simpatia popular) pelo encantamento com seu modo de ser e a obsessão em dedicar-se ao projeto de uma vida: fugir da repetição das teorias e das fórmulas para tornar real uma máquina capaz de competir com outra e possibilitar o desfecho antecipado da guerra. É esse o motivo definidor da tradução brasileira; afinal, o que Turing e companhia (ao menos no filme) incorporam é a imagem dos jovens nerds, protegidos numa bolha distante do confronto, com a obrigação de criação de um método que supere uma invenção que permitia aos nazistas o avanço, cada vez mais rápido, de suas tropas sobre os Aliados. A invenção de Turing, baseada na máquina alemã, uma imitação, não apenas teria apressado o fim do conflito, como colocaria o mundo noutro patamar de competição, a tecnológica. Basta dizer que, o protótipo criado pelo britânico foi um dos precursores do atual computador.

Além do mérito de atuação, certamente a melhor até o presente de Benedict, e fenômeno que não intervém na obviedade da narrativa, é preciso dizer que, concorre plenamente com esta, a própria elaboração do narrado: Morten Tyldum não aproveita do tempo que tem para contar a história que tem de contar para ludibriar ou maçar o telespectador. Conhece a plena medida de poder reunir numa unidade de sentido todos aqueles elementos responsáveis pelo carisma do filme. Que não são poucos. É muito comum em situações dessa natureza o prolongamento desnecessário em alguns dos temas ou uma panorâmica sobre outros e o resultado é um castelo de cartas mal armado.

E a título de não se debandar para nenhuma das duas posições, a opção é feita por dar corpo ao um longo depoimento do próprio Alan, quando este encontra-se prestes a ir para a prisão acusado de sodomia. Aqui, não nos cansa uma voz em off a dizer o tempo todo sua vida; só temos certeza absoluta de em que posição está o narrador da história já muito próximo do desfecho do filme. Ou seja, não há nada de inovador no processo de construção da narrativa, mas o diretor tem pleno controle em não abusar de determinados mecanismos que poderiam deixar ruir toda a unidade do filme.

Mesmo sem se arriscar na forma e na estética e mesmo acusado de sua obviedade, O jogo da imitação inaugura na filmografia sobre Alan Turing outra determinante fundamental para compreensão do homem que foi: a já citada questão da homossexualidade. Reiterar sua biografia por esse ângulo assume um novo tour de force num contexto onde se alinhavam toda uma série de embates pela perseguição às minorias. 

Não é o caso de compreender que Turing foi quem foi pelo fato de ser gay, tampouco ressaltar o gênero como determinante daquilo que mudaria, mais adiante, o curso de uma civilização. Não. É o caso de tornar público um elemento dos mais escamoteados de sua biografia. Vindo de onde veio, de uma sociedade medíocre o suficiente para entregá-lo de bandeja à morte, fato que quiseram maquiar com um mea culpa fora de forma dado em 2013 pela Coroa Britânica, o modo como tema se desenvolve, acaba por ser um tapa com luva de pelica na cara do preconceito. 

De certo modo, o ângulo escolhido para dar vida à personagem, foge da estereotipia de se deter apenas no feito para compreender o nome além da invenção. Um gênio, afinal, não é alguém acima de todos, semideus ou imortal; é também um humano como a gente comum e padece dos mesmos dramas que dão forma às demais existências.