quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os trabalhos e os dias na poesia de Donizete Galvão


Por Alfredo Monte



“De fato a linhagem agora é de ferro:  nunca, de dia,
se livrarão da fadiga e da agonia, nem à noite,
extenuando-se: os deuses darão duros tormentos.
Todavia, para eles aos males juntar-se-ão benesses...”
(Hesíodo, Trabalhos e Dias, versos 176-9, trad. Christian Werner)

“Poderia ser este o lugar.
Este o tempo de repouso.
Mas a roda dentada nunca para...”
(Donizete Galvão)

Entre os trinta e seis poemas reunidos em Ofícios do tempo (ed. Positivo), dois podem ser considerados nucleares, inclusive por sua concisão e perfeição: “Memória do paraíso / não tenho não. / Lembro-me da dor. / Da vergonha. / Do desgosto. / Da gota de suor/ pingando do rosto.” (“depois da queda”); “Nu / bailo / numa / navalha // Sem / nada / que me valha / só / me prende / um fio / de esperança” (“equilíbrio”).

Ao destacá-los, corre-se o risco de sublinhar o lado mais abstrato, mais “condição humana”, relegando a segundo plano uma das linhas de força da poesia de Donizete Galvão, cuja morte prematura completa um ano agora em janeiro: a concretude das referências, na intersecção delicada e perigosa do rural e do urbano, do eu lírico que traz as marcas do interior profundo de Minas mesmo na mais caótica das metrópoles, São Paulo. Diga-se, de passagem, que a antologia levada a cabo no volume (sob responsabilidade de Lindsey Rocha Lagni), muito feliz nesse aspecto, ressente-se de uma incômoda uniformização do fazer poético de Galvão, passando ao leitor a (falsa) impressão, ainda mais quando a autora do posfácio, Marina Ianelli, nos diz que estamos diante do “sumo do sumo” da obra1, de que sua vocação, por assim dizer, é a dicção do verso curto, “simples”, “claro”, e sobretudo muito calcada, como em boa parte do melhor lirismo a partir do modernismo, nas perplexidades do cotidiano, o que deixa de fora uma linha mais “ambiciosa”, mais intelectualizada, no diálogo com a mitologia, cujo exemplo mais notável é “Nós e Filoctetes”, ponto alto de A carne e o tempo (1997)2. Feita tal ressalva, e assumindo que nenhuma seleção, por mais criteriosa e feliz, dá conta de todas as facetas de um universo complexo, voltemos à dialética entre a “condição humana” e  o contingencial que domina esse póstumo e oportuno Ofícios do tempo.

Como já apontado, o rural ainda é muito presente nessa experiência do contingencial, particularmente como substrato da memória. Mas, aqui, o grande poeta mineiro foge totalmente de certa deturpação malsã e kitsch desse universo rural a infestar tantas narrativas infanto-juvenis e muito da recepção do universo de um poeta como Manoel de Barros, leitores não levando em conta de que se tratava de uma topografia lírica extremamente peculiar (além de tardia), e desabrochada a partir do uso incomum da linguagem, e não de uma representação de alguma realidade rural encantada que já houvesse existido e que se perdeu nos processos de urbanização.

O rural que emerge da memória lírica de Donizete Galvão é um mundo de trabalhos e dias (o que não deixa de apontar, se pensarmos no poema de Hesíodo, para a “condição humana”)3, de ofícios, como observamos em “reboco”:

“Sexta feira:
dia de rebocar o chão.
É preciso ir ao curral
e trazer na bacia
o estrume das vacas.
Melhor aquela pasta
que solta fumaça,
ainda cheirando a capim.
Na beira do barranco,
perto do córrego,
cava-se a tabatinga.
Do branco do barro
com o verde da bosta,
que se mistura com os dedos,
surge uma argamassa
com que se barreiam
o piso da cozinha,
a taipa e os lados da trempe.
Para quem não tem muito,
tudo tem serventia:
a argila, a bosta da vaca,
o perfume da grama,
o giro ágil das mãos,.
Faz-se sem saber como,
sabendo-se desde sempre
essa alquimia.”

Por conta dessa vivência, o eu lírico pode interligar os topói da vida alienada na era burguesa e da “vida de gado”, fruto da massificação, com relação ao seu (e ao de tantos outros) cotidiano urbano, de uma forma que recupera a contundência das analogias, em poemas como “curral”, onde orquestra toda uma movimentação  da cidade, em diversos estratos sociais (“saem dos subterrâneos das garagens... saem dos conjugados sem luz do sol... saem de bairros Jardim Qualquer Coisa... saem de buracos sob a linha do trem...saem das esquinas, nos semáforos...saem dos portões com grades...saem das lojas de mármore e vidro...”), e “autorretrato como boi”, ele um “Boi com crachá / e carteira assinada. / Boi comprovado. / Boi indistinto / na boiada da cidade...”.

Nessa vida bovina, a única “distinção” é a insônia onipresente: “No curral da insônia, / rumino palavras pastadas / na ribanceira dos dias”. Aliás, a insônia mesma torna-se um “trabalho” dentro dos “dias”, como mostra, já a partir do título, “lida”:

“Peleja
para pegar
no sono.
Repele
os becos
em que
os pensamentos
giram em falso.
Rumina
os restolhos
ofertados
pelo dia.
Coloca
cunhas de
imagens
de bicas d´água
e pastagens
para que represem
os círculos infernais...”

Mais adiante, em “insônia”:

“Passou a noite na capina.
Quanto mais capinava
mais tarefa espichava.
Acordou com o corpo moído.
Agora o olho desconfiado
não quer mais dormir
com receio  de trabalho
                  dobrado.”

Mas outro poema, além de “reboco”, situado numa sexta-feira alçada a um plano simbólico que permeia a civilização ocidental (a da Paixão), talvez seja a mais cabal demonstração da arte com que esse poeta fazia os grandes temas da “condição humana” passarem pelo crivo dos “trabalhos e dias”, pelo “áspero caroço” dos instantes, engolidos ainda assim, pela roda dentada4:

“A mulher que ganhou os peixes
não traz os olhos cabisbaixos
nem os ombros arqueados.
Treze peixes finos e prateados
deslizaram para dentro da sacola.
A mulher que ganhou os peixes
dá uma gostosa gargalhada.
Para que bairro de Belo Horizonte
irá com sua sacola de peixes?
Vai comentar o presente
com o cobrador de ônibus?
Usará a frigideira  preta
que fica no armário da pia?
Vai passar os peixes na farinha,
fritá-los e servi-los bem sequinhos.
Quem dividirá os peixes com ela?
O marido aposentado? Os filhos?
Haverá um gato eriçado
defendendo o inesperado das tripas?
A mulher que ganhou os peixes
não os salgou com sua mágoa.
Recebeu-os como um milagre
embora lhe fossem dados de esmola.” (“sexta-feira da Paixão”)

Assim, nessa nossa condição mais-que-contingente, onde tanto não tem cabimento na linguagem (“...nenhuma palavra / traduz o tormento / somente grito / gemido / uivo / corte / ferimento /  podem dizer / o que não tem / cabimento”), é necessário e urgente ficar atento (“... a atenção: / forma natural /de oração” lemos no poema inaugural, e um dos mais belos, da antologia), sob o vento frio de julho, aos virtuais pêssegos da primavera (afinal, Hesíodo nos diz em seu poema sobre os trabalhos e os dias, após narrar o mito de Pandora: “...Lá mesmo só Esperança, na casa inquebrável / ficou, dentro do cântaro, sob as bordas, e não porta / afora voou...”5), mesmo sendo a morte nosso horizonte, fazendo o equilibrista  estremecer de calafrio, na  “antecipação do abismo”.

Numa poética que é “Roçar de andorinha / entre voo e pouso”, o mundo da experiência, sendo também desejo, pede e não encontra o fio que a solde:

“Os pensamentos saltam do trilho
e ferem e vibram e caotizam,
sem que nenhum fio
possa soldá-los...”

Notas

1 Composta pelos seguintes livros: Azul navalha (1988); As faces do rio (1991); Do silêncio da pedra (1996); A carne e o tempo (1997); Ruminações (1999); Mundo mudo (2003); O homem inacabado (2010).

2 Do qual cito um trecho:
 “Naqueles dias tão transparentes,
ela pressentia a noite que depois viria?

Aquela película de mágoa acompanhou-a,
dormente por dormente, desde o Rio?

Nas conversas com o vento,
sabia que um dia abriria em mim
a mesma ferida que consigo trazia?

Nas súbitas aparições de santos,
antevia os mesmos signos da melancolia,
impressos nas correntes dos genes,
a memória da dor gravada nos neurônios?

Seriam também meus os vincos de sua carne triste?

Se acaso soubesse disso, me avisaria
que nem pó de carvão, nem água boricada,
nem mesmo a visita do filho de Aquiles
fechariam a ferida que nós dois possuíamos?”

3 O próprio poeta nos diz explicitamente:
“Baldados os trabalhos e os dias,
os abraços em gente sem serventia
e os apertos de mão de última hora.
Ama só aqueles de quem nasceu,
a quem deu vida e os amigos
cujos afetos enraizaram-se na alma.
Que não se gaste apreço ao geral,
ao que por todo mundo é gostado,
às imagens e notícias em demasia...”

No trecho acima, de “tatu-bola”, temos uma espécie de convocação para a concentração no ofício de viver e seus afetos, um não à dispersão, à falsa ideia de se estar “conectado” com o mundo em geral, tão vendida nos dias atuais.

4 “Um tapete de goiabas
estende-se sobre a grama.
Os jacintos em bloco
ergueram as suas flores.
Poderia ser este o lugar.
Este o tempo de repouso.
Mas a roda dentada nunca para.
Mói o caramujo envolto em formigas.
Mói o cão içado do poço por um balde.
Mói os fios de cabelo de Anita
que protegem os pés de rosa.
Mói as rosas.
(Em direção ao rio,
lá vai a mulher com a pedra no bolso.
Lá está ele na cama
com os tubos no nariz.)
Há perfumes de jacintos
e  goiabas vermelhas de outono.
Cada instante tem sua polpa
e no centro o áspero caroço.” (“a dureza do instante”)

5 versos 96-8 (ed. Hedra, 2013)

  
Ligações a esta post:
Quando da morte do poeta, Pedro Fernandes escreveu algumas notas sobre o poeta Donizete Galvão que podem ser lidas juntamente com outros poemas aqui.

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Alfredo Monte é professor e leitor, as duas grandes atividades da sua existência. Tem doutorado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, desde outubro de 2002, com uma tese sobre a obra de Autran Dourado. Desde 11 de abril de 1993, mantém uma coluna semanal no Galeria do jornal A Tribuna de Santos. Volta e meia publica na Folha de S. Paulo. Mantém o blog Monte de Leituras dedicado exclusivamente a comentários sobre as obras que vai lendo e agora integra o corpo de colunistas do Letras in.verso e re.verso.