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Mostrando postagens de Agosto, 2015

A desconstrução do gênero em Orlando: uma biografia, de Virginia Woolf

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Por Neiva Dutra


Virginia Woolf escreveu, há mais de cem anos, uma obra em especial, na qual se questiona sobre as diferenças entre homens e mulheres.
Embora a figura e a obra da escritora sejam consideradas por alguns o princípio da geração do pensamento feminista na idade moderna, pela forma como transformou momentos efêmeros da vida em uma concepção espiritual e artística que transcende a separação entre os universos masculino e feminino, em essência ofereceu ao mundo respostas valiosas sobre a vida, a morte, a identidade, o gênero e a literatura – porque a arte que amou em vida se encontra intimamente unida às suas personagens e à história que as envolve.
Possivelmente uma dessas respostas – e talvez a mais enfática – seja Orlando, uma autobiografia na qual um jovem aristocrata se transforma em mulher. A vida desse personagem andrógino transgride os conceitos de gênero, satiriza a biografia e o próprio discurso feminista e rompe com os padrões da sociedade inglesa da época para exp…

Boletim Letras 360º #129

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Nesta postagem publicada semanalmente no blog estão todas as notícias que compilamos de uma semana de diálogo com os leitores em nossa página no Facebook. É a oportunidade de rever, reencontrar aquela notícia perdida ou ainda ver o que passou despercebido nesse fluxo de postagens.
Segunda-feira, 24/08
>>> Brasil: Um texto de Dario Fo que faz aquilo que bem fez o dramaturgo: satiriza a Igreja Católica
O italiano tem peças traduzidas em mais de 30 idiomas. Entre elas, estão títulos como A descoberta das Américas, A morte acidental de um anarquista, e o Papa e a Bruxa. Em 1997 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. E agora, pela Editora do Sesi-São Paulo, temos acesso à tradução de Mistero Buffo, descrita como irreverente e impiedosa e uma de suas criações mais célebres, escrita em 1969. Baseado nos evangelhos apócrifos e em contos medievais, na mais pura tradição da commedia dell’arte, apresenta-se como um jogral contemporâneo, retratando a relação do homem com a religião e suas…

Utopia crítico-docente

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Por Rafael Kafka


Há uma utopia em mim que está diretamente ligada a minha vida enquanto assalariado dentro de uma sociedade capitalista: a de tentar produzir um discurso de mudança social sem expor demais opiniões que coloquem em risco de exposição demasiada minha vida pessoal e minha vida profissional. Isso se daria por meio de um trabalho de mediação de leitura em minha página do Facebook, a rede social que mais uso, falando por lá acerca de filmes, séries, livros etc. O objetivo seria promover uma ampliação dos horizontes de leitura dos que se encontram em minha lista de contatos por meio de dicas de leitura nos mais variados tipos de mídia e formatos. Mas há um grande, entretanto: como ser ativista da leitura sem ter uma agenda política bem definida?
Pergunto-me isso, pois falar de leitura por si só para mim é fugir da principal questão a se colocar no momento: ler para quê? Será que somente incentivar alguém a ler é suficiente para gerarmos uma sociedade que melhor se dirija no r…

Rebentar, de Rafael Gallo

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Por Pedro Fernandes


Quando criança, em casa, sempre me contavam histórias sobre um papa-fígado e, com alguma variação, sobre um velho do saco cujo interesse, de um e de outro, era o de enganar e raptar crianças. Nunca soube de alguma família próxima da minha ou distante que tenha sido vítima de uma das personagens dessas histórias. Mas, carreguei comigo para onde fui desde quando andava acompanhado dos pais, e mesmo depois quando sozinho, o medo de ser raptado. Não sei se isso é um medo comum a todas as crianças que, por mais dadas que sejam, sempre têm mais confiança ao lado dos pais. 
Muito tarde descobri que essas histórias poderiam ter sido inventadas ainda no tempo da Ditadura e o papa-fígado ou velho do saco era ninguém menos que um comunista interessado em usar crianças para serviços de má-fé. Claro, a história continuou sendo mal contada porque os raptores não eram comunistas, mas os próprios militares; sabe-se que desde sempre houve um comércio clandestino de crianças para ca…

Uma literatura a salvo de modismos: Edson Amâncio e seu “Diário de um médico louco”

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Por Alfredo Monte


«… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante “do mundo da lua”. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…»
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Há uma vinculação óbvia que podemos fazer de Diário de um médico louco (editora Letra Selvagem) com certa linhagem na ficção cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassoss…

Ernest Hemingway e Martha Gellhorn: a guerra era uma festa

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Por Tereixa Constenla


Com 50 dólares e sem noção de espanhol, a jornalista estadunidense Martha Gellhorn cruzou a pé a fronteira para entrar, na chegada a primavera de 1937, num país em guerra. Era sério seu empenho. “Fui para a Espanha com os meninos. Não sei quem são os meninos, mas vou com eles”.
Duas semanas depois, vivia numa cidade sitiada, num hotel cheio de importantes personagens, num espaço ocupado por um daqueles meninos: Ernest Hemingway. Em Espanha foi a primeira vez que Gellhorn pisou numa guerra, o que daria mais interesse em depois ir à outras frentes de batalha no mundo todo até despedir-se com as crônicas sobre a invasão no Panamá quando já tinha 81 anos. A fúria, sua energia motriz, tardou a extinguir-se em quase nove décadas de vida e ainda sobreviveu às dores necessárias que foram capazes de lhe permitir escrever sua biografia ao lado do seu ex-companheiro. Embora a morte de Gellhorm incite a pensar que havia feito as pazes com ela mesma enquanto Hemingway, ao que…