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Mostrando postagens de Julho, 2015

Praticidade, foco e ignorância

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Por Rafael Kafka


Tenho sido constantemente criticado pela minha prática de escrever “textões” na internet. Outro dia, eu estava em uma discussão em um grupo de Whatsapp quando chamei uma pessoa de homofóbica por conta das piadas feitas por tal ser humano. Em uma de suas respostas, todas cheias de ad hominem, o indivíduo disse que eu iria para o Facebook fazer algum texto imenso cheio de teoria para rebatê-lo. Achei curioso isso, pois no contexto em questão ficou bastante claro que eu estava sendo criticado por gostar de ler e usar a escrita pada discutir minhas ideias. O mais curioso é que essa crítica, se é que posso chamar disso, é um eco: eu já a ouvi diversas, inclusive em ambientes ligado à educação.
Escrevi em meados de dezembro do ano passado para o Letras in.verso e re.verso um texto no qual eu relatava uma situação em que eu estava decidindo se participaria da confraternização de um grupo de colegas de trabalho. Disse a um eles que se eu o tirasse novamente na brincadeira do …

Negras flores da mesma haste - três mulheres suicidas na literatura: Virgínia, Florbela, Ana C.

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Por Márcio de Lima Dantas

Alma sonhadora  irmã gêmea da minha Fernando pessoa

Alguns parecem nascer assinalados para cumprir o papel do sacrificado, em nome da harmonia genérica de um padrão convencionado como “normal”. São os profetas, os mártires, os loucos, os santos e os poetas. Os referidos por Marcel Proust como nervosos. Uma grande parte dos poetas trilhou veredas secundárias, diferentes ou diretamente antípodas à ao que se diz de normal. É claro que a grande máquina do mundo cobra seus altos tributos. Esses seres de exceção, desafinadores da longa sinfonia geral do existir sobre a terra, imprimem com suor, sangue, arte e ciência seus nomes nas margens das tipográficas manchas negras da vida. Alguns deles, consciente ou inconscientemente, optaram pelo suicídio, num processo de autodestrutividade, muitas vezes, impetrado de maneira que atinge requintes de esquisita violência narcísica contra seu próprio corpo.

A forma escolhida para dar cabo de si consubstancia uma semiótica, um …

António Vieira e os mistérios que palpitam na noite

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Por Alfredo Monte


«É às noites que minha alma se confia» (Rainer Maria Rilke)
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Os 12 contos reunidos por António Vieira em Olhares de Orfeu têm como mote as considerações de Maurice Blanchot sobre Orfeu no clássico O espaço literário (1955)1. Se no Segundo Fausto goethiano, Mefistófeles diz: «compreender à luz do dia é ninharia, mas na escuridão todos os mistérios palpitam», o grande pensador francês radicaliza essa potência da noite, sua “dissimulação”, ao ponto de tornar a exploração dos seus mistérios sempre uma tarefa oblíqua, um “risco do olhar”:
«Orfeu pode tudo, exceto olhar esse ponto de frente, salvo olhar o centro da noite na noite. Pode descer para ele; pode, poder ainda mais forte, atraí-lo a si e, consigo, atraí-lo para o alto, mas desviando-se dele: tal é o sentido da dissimulação que se revela na noite (…) A profundidade não se entrega frontalmente, só se revela dissimulando-se na obra (…) ao voltar-se para Eurídice, Orfeu arruína a obra, a obra desfaz-se imediatamente…

Kalahari, de Luís Serguilha

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Por Ana Maria Oliveira 

Kalahari é o desnudar do homem que desperta para um mundo simultâneo de conhecimento científico, matemático e mitológico, em que todos os seres vibram em ligamentos de metamorfose. O mundo cósmico é dinâmico mesmo quando apresentado em estáticas figuras geométricas. A transmutação das formas passa a ser a lei incontornável e incontrolável, pois o ser é aparência. O mundo acontece como devir.
O livro expressa na sua criação um "tratado de estética" labiríntico como a vida, sendo universal e intemporal. Um livro a ter em conta para o estudo da poesia contemporânea portuguesa. Explora um tema filosófico com vários tentáculos, como o cosmos aliás. Uma perspetiva aberta sobre o exterior em que tudo se conecta como líquido que escorre e se mistura sobre tudo e com tudo, incluindo o eu pensante.
O leitor mais sensível e intuitivo sente o desdobramento, deslizamento, as conexões, os entrelaçamentos. Não é elaborada uma focagem no conceito de humanidade, embora …