sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Entendendo o universo feminino e a ditadura militar: resenha de "As meninas", de Lygia Fagundes Telles

 Por Rafael Kafka




A ditadura militar brasileira é um período histórico ainda muito marcado pelo mistério acerca dos fatos ocorridos nos poucos mais de vinte de anos de vigência. Crimes de tortura, corrupção, censura, exílios e uma série de outras coisas foram marca registrada de uma época da vida social no Brasil marcada pela constante agressão aos direitos humanos e ao direito de expressão e liberdade de ir e vir. Ainda assim, vemos no ano de 2014 uma série de manifestações repletas de discursos de ódio pedindo a volta de um poder comandado pelos militares para restaurar a paz social de nossa nação, que segundo uma pequena parcela de maus perdedores das últimas eleições ainda se encontra ameaçada pelo terror comunista.

O que soa mais perturbador nisso tudo é ver pessoas como Jair Bolsonaro alegarem em nossa conturbada contemporaneidade que nada disso que se fala por aí realmente ocorreu na ditadura militar e que tudo não passa de mentiras de uma oposição composta de vagabundos arruaceiros a fim de implantar o leninismo em nossas terras. Tais pessoas alegam que naquele tempo não havia corrupção com uma pose de cientistas políticos de doer, mesmo que ignorando com bastante má-fé que no período do militarismo a imprensa ou era vendida aos coronéis ou cortada completamente em seu direito de expor fatos sobre a realidade do período.

Tudo se torna ainda mais interessante de ser analisado quando nos deparamos com o fato de que as pessoas que defendem uma intervenção militar sequer se dão ao trabalho de procurarem ler os inquéritos da Comissão Nacional da Verdade ou mesmo obras de arte que foram produzidas relatando os fatos ocorridos quando no Brasil tudo era resolvido na base da cacetada, do exílio e da tortura (se bem que ainda hoje, em diversos cantos das cidades brasileiras, ainda seja tudo resolvido assim, ficando, portanto, perigoso falar em termos de tempos idos).

Um interessante livro para se entender esse período é o romance As meninas da autora brasileira Lygia Fagundes Telles. O romance em questão conta a história de três amigas e é ambientado no período da ditadura militar. O foco narrativo do romance passa por constante alternância entre uma e outra personagem e isso transforma o enredo em um verdadeiro quebra-cabeça, caleidoscópico, que no decorrer da trama se complementa em cenas narradas por mais de único ponto de vista.



As meninas que dão título ao romance são Lia, Lorena e Ana Clara, três amigas de longa data que apresentam características bastante diferentes entre si, mas que não deixam de ter uma amizade bastante sólida e forte, mesmo permeada de conflitos. Cada uma delas assumirá o foco narrativo e a voz de narrador-personagem em diversos momentos do texto nos permite entender as origens e os motivos de uma personagem por meio da outra.

Lorena, por exemplo, é uma jovem culta e cheia de sonhos bastante femininos de obter um casamento e assim se sentir plena na vida. Perde-se em devaneios literários e filosóficos sobre a essência do ser e estar e divide-se entre as paixões juvenis por pessoas da mesma idade que ela e o amor ardente por um homem mais velho de nome Marcus Demesius, ou MN, como ela o chama durante a maior do tempo. Lorena é de família rica e vive recebendo dinheiro de sua mãe, que é passado para as amigas resolverem os seus problemas pessoais. Quase o tempo todo, vemos Lorena trancada em seu quarto na companhia das freiras que cuidam do pensionato onde ela mora, das amigas Lia e Ana ou mesmo de algum rapaz morto de amores por ela. É uma personagem que passa a impressão de ser rodeada pelo mundo, cheia de pensamentos e problemas a serem resolvidos e que por isso não consegue se deslocar de seu ponto de origem.

Ana Clara, por sua vez, revela um passado cheio de traumas por conta de sua mãe que se envolveu com diversos homens, alguns inclusive tentando abusos sexuais contra a própria Ana. Percebemos nela um discurso cheio de racismo e machismo, que se caracteriza por uma procura pelo casamento bem diferente da que é tida por Lorena: enquanto esta vê o casamento como uma experiência de profundo sentido ontológico e moral, Ana apenas o vê como a chance de subir na vida, de ter alguém que banque os seus caprichos e lhe dê uma vida bastante confortável. Enquanto se divide entre seu “escamoso”, o atual noivo que ela vê como a porta de entrada em um mundo de glamour, ela passa dias se drogando com Max, um amante da mesma faixa etária que ela. Dessa união clandestina, nasce um feto que agora precisa ser eliminado contando com a ajuda de Lorena, que doa a quantia para a realização do aborto. O discurso de Ana Clara chega a ser odioso em diversos momentos e temos real noção de seus problemas com drogas pelos relatos de Lia e Lorena.

Lia é a personagem mais interessante do ponto de vista político. Longe de ser uma fútil como Ana Clara, aparenta-se com Lorena pelo fato de possuir um imenso poder intelectual. Ainda assim, difere de Lorena pelo fato de ter uma posição a ser defendida no decorrer da trama: a de esquerdista militante que se posiciona contra os abusos cometidos pelos ditadores que aqui governam no período em que se passa o relato. Lia possui um romance com o jovem Miguel, militante como ela, mas que se encontra preso devido à atuação em protestos contra a ditadura. Lia é filha de um ex-nazista com uma baiana, mistura de condições a qual torna seu enredo particular em uma espécie de símbolo de uma classe oprimida que começa a questionar por vias conceituais e práticas, cada vez mais, a posição imposta pela classe dominante a ela na nossa sociedade.

Cada uma das três personagens conta histórias paralelas que se interconectam e juntas forma um belo panorama social sobre classe e raça. Lorena lembra demais o Andrés de O livro de Manuel, de Cortázar, por ser alguém que possui um alto poder cultural, porém não possui o menor desejo de sair de sua situação confortável para efetuar qualquer mudança na sociedade. Pelo poder da reflexão, Lorena espera se colocar acima de qualquer situação concreta que se apresente a ela, ao mesmo tempo em que usa da caridade de seu dinheiro para ter alguma espécie de consolo para a sua inércia mais do que voluntária. Já Ana Clara procura usar o seu passado como justificativa para uma postura egoísta e preocupada o tempo todo com ascensão social, repetindo o quanto odeia pobre e preto, e dizendo que após tanto sofrimento tido nada mais justo do que ela se dar bem com a fortuna de seu “escamoso”. Lia, por sua vez, procura engajar-se em um movimento crítico contra a estrutura social vigente, mas deve viver uma contradição atrás da outra, como a do envolvimento com um jovem de seu grupo de revolucionários enquanto seu namorado está preso, a dependência do dinheiro de Lorena pertencendo esta à classe tão criticada por ela, a constante crítica aos devaneios apaixonados da menina burguesa ao mesmo tempo em que ela se propõe a ter um idílio amoroso disfarçado de autoexílio na Argélia com Miguel e outras coisas mais.

A ditadura militar no romance de Lygia aparece como o pano de fundo de um contexto caótico. Vemos diante de nós personagens angustiadas com seu passado e tentando produzir algo concreto com seu futuro. Em Lia vemos alguém que de certa forma se sente segura de seus rumos, pois rompeu a barreira da esfera meramente individual para entrar em contato com o mundo que a rodeia. Projetando-se para frente, procurando se concretizar enquanto ser, ela transforma a sua angústia em práxis e dessa forma se sente mais plena, mesmo que o seu amor por Miguel a perturbe e a faça sair de seus rumos em certos momentos. Ainda assim, ela consegue manter-se acima da angústia abstrata de suas amigas, presas em demasia no seu universo de angústias pessoais.

O livro lembra demais em alguns aspectos O livro de Manuel. Usando-se de uma linguagem realista mágica, cheia de marcas de oralidade como anacolutos e discurso indireto livre e a narração de cenas com altas cargas de absurdo, Lygia se aproxima em qualidade do grande mestre argentino, apenas não tendo a mesma genialidade deste para dar voz a um narrador irônico e que fala como se estivesse em uma mesa de bar. Ainda assim, a autora brasileira consegue mostrar de forma sutil o caos que era a sociedade do período militar e de como as pessoas começam a se sentir fragmentadas em si mesmas, ao passo que o Estado ao seu redor se transforma em algo brutalmente opressor.

Talvez se o romance fosse um pouco maior, o equilíbrio entre o lirismo das personagens e a crítica social do período fosse mais acentuado e mais profundo em sua capacidade de comunicação. Ainda assim, como panorama social de um período conturbado ou como exploração do universo feminino que se metamorfoseia em três projetos de vida, o livro de Lygia se torna em uma excelente leitura, fluida e cheia de idas e vindas. Muito boa para quem gosta de contribuir com o autor na criação de sentidos de uma literária.

E sem dúvida alguma, em um bom instrumento para se entender um pouco melhor esse período tão sombrio de nossa história, que até hoje ainda emite seus lúgubres gritos de barbárie e controle de mentes. Em especial, nos contextos menos afortunados.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.