sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Política, suas complicações e a leitura

Por Rafael Kafka



Em 2014, eu percebi uma coisa bem interessante (e óbvia até): política é uma coisa muito complicada e complexa. Se fosse preciso me descrever perfeitamente agora por meio de uma metáfora literária, eu faria uma comparação entre mim e Henri Perron, jornalista e escritor protagonista do romance Os Mandarins de Simone de Beauvoir. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Perron pensa que finalmente poderá andar livremente por um mundo em paz e aproveitar ao máximo todas as possibilidades que se lhe mostrariam. Todavia, o convívio com outros intelectuais mostra a ele que na verdade a guerra ainda persistia na França e em todo mundo e aquela ideia de liberdade lírica por ele tinha de dar lugar a uma nova postura de existência baseada em tomar partido sem medo de estar errado. Perron começa então a questionar-se de aonde sua vida irá parar: terá ele tempo de ler e escrever por prazer ou se verá imerso em atividades políticas enfadonhas? A sua vida seguirá sendo sua ou deixará de ser para se tornar uma coisa pública em prol da coletividade? Terá ele tempo de estudar tudo o que precisa para definir seu ponto de vista como sendo seu e não apenas reificação dos pontos de vista de seu amigo e mentor Robert Dubreuilh?

Pois bem, são certos questionamentos como esses que têm tomado conta de minha mente. De uns dois anos para cá, meu processo de formação pessoal deu uma guinada justamente para a direção dos textos teóricos e políticos. Durante o período de meus 17 anos até meus 21, minhas leituras eram majoritariamente literárias. Lia ainda um pouco de Filosofia, mas não suficiente para começar a tecer pontos de vista sólidos. Quando me formei, percebi que minha leitura não me permitia tecer pontos de vista concretos nem mesmo em um âmbito acadêmico. Tal fato, fez-me sentir uma espécie de sentimento de culpa horrível e passei a me condenar por ter “desperdiçado” muito tempo de minha vida na biblioteca pública do CENTUR em Belém lendo quadrinhos e literatura. Pensei durante muito tempo que deveria ter lido mais textos políticos ou críticos de minha área para saber sobre o que eu estava a dizer. Com desespero, eu percebi-me um alienado.

De 2013 para cá, influenciado demais pelos aspectos filosóficos da obra de Simone, comecei a ler textos mais pontuais ligados a questões como o feminismo, o racismo e a luta pelo respeito LGBT. Tanto textos vindos de teóricos renomados como textos pegos na web, escritos por anônimos como eu, fizeram-me entender o mundo em que eu vivia e as questões sociais nele imbricadas por um outro prisma. Antes, eu que ironizava as lutas de gays, mulheres e negros por respeito (usando o velho discurso humanista burguês de que não devemos lutar por esta ou aquela classe e sim por um todo social) agora entendia os motivos concretos de tais movimentos e sua importância e tornei-me seu defensor.

O mais curioso é que muito do que eu li nos textos teóricos, eu já lera em livros literários. Todavia, a literatura com sua falta de obrigação de ensinar é muito aberta e leitores ignorantes como eu poderiam não ser competentes o suficiente para redimensionar um significado textual em um outro contexto que não era o de produção daquela obra. Hoje, por exemplo, sou bem capaz de fazer ligações de leitura básicas entre a questão judaica tal como é apontada por Sartre em seu curto ensaio dedicado aos judeus às lutas promovidas pelas minorias socialmente discriminadas e as mulheres que não aceitam o regime patriarcal de vida. Os textos teóricos me permitiram reler mesmo sem os ler livros lidos anos antes por mim e me fizeram perceber o quanto eu não entendera o que havia lido.

Por algum tempo, achei-me ignorante. E critiquei, mais uma vez, o tempo “perdido” na biblioteca do CENTUR lendo livros e quadrinhos pelo simples prazer de ler. Foi-me preciso outro tempo considerável de muita convivência e conversa com outras pessoas para entender o quanto aquele tempo de tardes lendo livros e quadrinhos ao som de músicas de uma fonoteca pública ou da chuva tipicamente belenense salvou de ter uma vida extremamente sectária.

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Em 2007 eu fazia cursinho no CEFET/Pa em seu campus da capital paraense. Era um projeto chamado Vestibular Solidário que por questões políticas terminaria no fim daquele ano. O seu foco eram as pessoas de baixa renda e eu para pegar uma vaga tive de passar uma noite em frente ao campus com um amigo e uma amiga para podermos nos inscrever. Havia uma primeira seleção baseada nos dados socioeconômicos na qual eu e meus amigos não passamos. A segunda, para complementar o número de vagas disponíveis, era uma prova dedicada aos candidatos rejeitados na fase de escolha por critérios ligados à renda. Apenas eu passei e meus amigos ficariam aquele ano sem fazer cursinho. (Ele passou em Direito na UFPA, ela até hoje peregrina em busca de um lugar no curso superior.)

O andamento do ano letivo que foi de maio até dezembro daquele ano foi complexo. Os problemas familiares com os quais sempre convivi pacatamente passaram a se mostrar um grande estorvo. Em casa eu não conseguia estudar e um belo dia decidi passar a frequentar a biblioteca do CENTUR. Todavia, lá eu ia para emprestar livros que eu devorava em uma semana e ler os quadrinhos, em especial os japoneses, e nada estudava... Culpado, eu dizia que focaria completamente nas aulas e assim compensaria a minha incapacidade para estudar. Isso funcionava com as matérias de ciências humanas e Filosofia, mas não com as exatas. E o ano se aproximava do fim e eu me sentia péssimo por ver minha mãe se esforçando em me dar o dinheiro do ônibus e um benfeitor meu pagar meu almoço todo dia com a justificativa de me ajudar a estudar, quando na verdade eu estava lendo romances e contos na biblioteca do CEFET, livros emprestados do CENTUR.

Por milagre, eu passei em Letras/Português pelo IFPA e conformado com a nova vida de estudante de ensino superior, passei a frequentar a biblioteca com mais afinco ainda. Enquanto isso, meus colegas de turma dedicavam-se à vida acadêmica e hoje alguns deles estão profissional e academicamente bem melhores do que eu. Por isso mesmo, após formado, comecei a me culpar por essas farras literárias na biblioteca: eu achava que se tivesse seguido de forma mais modelar o protocolo acadêmico, hoje estaria em um mestrado e bem empregado. Contudo, ao me cobrar a leitura de textos teóricos ligados a minhas áreas de interesse e após começar a ler artigos de opinião de pessoas que abordam temas caros a mim, entendi que aquelas farras tinham sido importantes para despertar minha sensibilidade e um saber latente que residia em mim.

Pelo começo deste ano, ainda procurando me organizar (na verdade, até hoje procuro) para ler textos e mais textos para ampliar minha visão crítica e política para fazer análises literárias, lembrei de um ex-amigo mestre em Linguística pela UFPA cujo diálogo todo girava ao redor de sua imensa capacidade acadêmica. O nosso rompimento se deu por um motivo muito fútil que se restringia ao fato de eu o ter questionado em relação a uma visão filosófica sua baseada puramente em senso comum e por isso mesmo tacanha demais. Isso foi há três anos e seu orgulho acadêmico jamais aceitaria o questionamento de um mero graduado em um instituto federal com sua primeira turma de Letras. Ele foi o começo da desconstrução para mim de que ninguém é o título que tem e de que o discurso capitalista de produção em série hoje burocratiza tanto o conhecimento que um mestre e um doutor está enredado em uma grande teia de mesmice discursiva e de práxis dentro da universidade.

A academia tem olhos pequenos demais para diversos fatos sociais e humanos. Ao ler os beats, isso se evidenciou ainda mais para mim. E aquelas tardes “perdidas” em uma biblioteca pública ao invés de estar a estudar para o vestibular ou o mestrado me fizeram entender que a leitura me salvara de não enxergar o quão complexo são os fatos ligados à existência humana. E me salvara por não me permitir reificar e reproduzir com tanta facilidade discursos prontos e servidos a minha boca por algum grande irmão qualquer.

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Hoje eu compreendo que nossas vidas são um processo de aprendizado constante e dividido em etapas. Alguns obtêm um título mais rapidamente, mas isso pode ser uma grande armadilha se levarmos em conta que o ser pode se ver enredado em uma teia de conhecimentos fechada em si mesma. Outros demoram anos para se interessarem pelo mundo acadêmico enquanto investem seu tempo em viver ao lado das massas imersos em seus problemas. Não sei ao certo qual foi o meu processo, mas hoje eu revejo as cenas do meu passado de tardes a ler romances, contos e poesias, sem interesse em estudar o que eu “deveria” estudar e penso que naquele momento eu rompia com uma hierarquia de saberes e discursos altamente excludente.

Já tive uma verdadeira ojeriza pelo universo acadêmico e hoje digo que tal ojeriza se volta à possibilidade de me ver fechado nesse universo. Meus dias atuais são cheios de leitura crítica e política, mas também de literatura. Cada ida ao trabalho ou cada hora livre é um tempo de ler linhas de autores que dizem suas verdades de forma metafórica e poética. É o momento de minha vida em que meu cérebro capta uma profundidade estética na realidade que o rodeia e se sente rejubilado, como que livre de uma prisão ontológica fechada demais.

Ainda assim, rejubilo-me em estudar os textos críticos de literatura. Autores como Umberto Eco, Terry Eagleton e Lawrence Venuti despertaram em mim o olhar mais acurado no tocante a como os fatos e conflitos sociais estão nas malhas do discurso literário de forma tácita ou não. A leitura dos artigos de opinião e a dos discursos defensores de uma visão de mundo mais humana, fazem-me perceber claramente as ameaças dos imensos discursos de ódio existentes nas redes sociais que mostram o recrudescer de uma visão conservadora que passa a ganhar força na voz de indivíduos que não consegue, ou não querem, ver além dos horizontes captados por seus olhos. Tais pessoas mostram em seus discursos hermetizados e miméticos de uma grande mídia vendida o quanto é preciso incentivar a leitura, em especial a literária, não para a defesa de um ou outro partido: mas para dramatização desse imenso ser que é o ser humano e para que aprendamos a ver o outro como outro, autônomo, e não um arremedo ou corruptela daquilo que esperamos que ele seja.

As redes sociais estão a mostrar como as pessoas se fecham em seus cotidianos e em seus veículos de verdade e evitam questionar as fontes de onde vêm as informações. É mais fácil crer no jornal que diz que o partido do candidato tal é corrupto do que procurar a veracidade das informações ou mesmo saber se o candidato rival fez coisas piores, tudo porque as grandes mídias nada veiculam acerca do  segundo que eles pretendem vender como o nome a ser honrado e protegido pelos amantes da pátria.

Não consigo compreender isso se não dando como sendo analfabetismo funcional, a incapacidade de se entender e questionar o que se leu, de se procurar o contexto em que tal discurso foi produzido e como ele se relaciona com outros discursos e meios de produção discursiva. Foucault nunca se mostrou tão atual ao se ler a frase dele que diz ser o poder não apenas uma força coercitiva, mas também permissiva: o poder gera subjetividade, formas de conhecer e a forma de conhecer de diversas pessoas hoje no Brasil, e mesmo em meio letrados, é a de simplesmente usar verdades ditas por outrem algures sem saber quem é esse outrem onde é esse algures e se aquela verdade serve para descrever minha vida e suas problemáticas.

Hoje eu entendo uma frase de Magda Soares que batiza um artigo seu muito importante: ler [é um] verbo intransitivo. Antes eu me questionava acerca do que a pessoa está a ler, mas hoje eu entendo que os livros são uma grande teia viciante e uma pessoa cujo hábito se inicia em Crepúsculo pode chegar a ler um Ulysses. Basta que a ela seja dado o incentivo constante e que os livros não sejam um bem distante de si. Se uma pessoa pode ir de livros em livros sem parar por meio do incentivo à leitura e à troca de ideias sobre o que se leu, creio que o mesmo movimento se dê na discussão política, seja ela no bar ou no laboratório de pesquisa da universidade. A pessoa leitora, que não se limita a ler os gêneros que interessam ao conforto de sua visão, é alguém que questiona as fontes que lê com mais competência e pode ser alguém que simplesmente não repita um discurso pronto e na bandeja de uma mídia vendida.

Talvez eu seja um sonhador. Mas se isso funcionou para mim, filho de uma senhora a qual não sabe ler e é vendedora de bombons até hoje, acredito na possibilidade de ser possível para outros seres. Por esses dias, recebi uma homenagem por conta do dia dos professores de uma ex aluna já citada por mim em um post de Janeiro deste ano, Cássia. No grande texto, a jovem com todas as limitações da idade e dos erros de ortografia tocou-me profundamente ao me agradecer por não simplesmente dar aulas de Língua Portuguesa e sim por incentivá-la a gostar de rock (que para ela assim como para mim representou uma abertura de visão de mundo) e a ler, hábito o qual ela diz não ver mais fora de sua vida.

Penso que Cássia represente essa chance de perder tempo com literatura para ir-se descobrindo como a política do mundo é complexa e acima de nossos discursos prontos. Penso também que ela representa a esperança de que para o mundo ser um local um pouco melhor, basta que falemos de literatura a quem quer ler para ser mais e ver mais desse imenso conjunto de fatos que a todo instante se mostra a nós e que alguns tolos pensam saber como funciona em fórmulas fechadas e defasadas pegas de empréstimo a algum veículo de fins obscuros.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.