segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Poesia, saudade da prosa – de Manuel António Pina (Parte I)

Por Pedro Belo Clara



Eis um dos autores contemporâneos portugueses mais conceituados, com longa carreira jornalística (embora licenciado em Direito) e um percurso literário recheado de conceituados prémios, dentre eles o talvez mais emblemático de todos: o Prémio Camões, outorgado em 2011. Não obstante, claro está, em 2005, a ordenação de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que distingue individualidades pela prestação de relevantes serviços em nome do país. Agora que se completarão dois anos desde o físico desaparecimento do autor, aos sessenta e oito anos de idade, um livro da sua autoria é justamente levado a discussão no habitual espaço de análise quinzenal.

Manuel António Pina espraiou a sua obra pelos domínios da poesia e da literatura infantil de um modo mais frequente, encontrando-se a mesma traduzida em dialectos como o francês, o inglês, o dinamarquês ou o russo. No entanto, com igual competência e qualidade, desenvolveu esforços junto de áreas de produção tão distintas como a crónica ou dramaturgia. Uma figura maior e multifacetada, como se depreende. O escritor Francisco José Viegas, antigo Secretário de Estado da Cultura (cargo que ocupou de 2011 a 2012), referiu-se a Manuel António Pina como «não só o cronista maravilhoso», mas «um poeta maior, um dos maiores da nossa língua», ilustrando bem a influência e o carinho que o dito autor detinha e merecia dentro dos círculos literários portugueses.

O primeiro ponto de interesse da obra hoje seleccionada é o facto da mesma ser uma antologia pessoal. Isto é: um conjunto de trabalhos reunidos pelo próprio autor (no caso, falamos de poesia). E quão raras são as hipóteses do leitor poder desfrutar dum trabalho do género organizado pelo criador do mesmo, com as suas guias de selecção e respectivas preferências em tão completa evidência! Sabe aquele que escreve da dificuldade subjacente a um projecto de tal índole... Mas de igual modo compreende que os projectos mais antigos quase sempre não correspondem às actuais ambições e estilos de um autor. Será, por isso, interessante compreender o porquê dos poemas que compõem este livro terem merecido resgate e a subsequente elevação por parte daquele que os escreveu. De um modo ou de outro, Pina tê-los-á considerado dignos representantes dos principais assuntos explorados pela sua temática de cariz poético.



O livro, editado ainda em vida (2011), conheceu a sua segunda edição cerca de um ano e meio depois, talvez impulsionada pelo súbito desaparecimento da pessoa em causa. Em termos da sua organização, a mesma não se efectivou de modo cronológico, antes pela consideração das temáticas expostas, géneros estilísticos propostos ou obedecendo a linhas seguras que o autor entre eles viu e, naturalmente, seguiu. Será assim natural ler um poema editado em 2003, por exemplo, seguindo-se um outro lançado num projecto datado de 1991.

É igualmente interessante, e desde logo esse aspecto sobressai, a forma de Pina nomear a sua poesia: uma «saudade da prosa». Na verdade, o seu estilo poético em muito deve a sua forma e conteúdos aos trâmites prosaicos. Esse era o seu modo de sondar o acto verdadeiramente transcendental que a poesia pode oferecer. Em A um jovem poeta, com o subliminar simbolismo da mais mística das flores, a rosa, em evidência, essa ideia é através da exploração do lado oculto do género em questão abertamente transmitida:

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

(…)

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Por esta breve amostra poder-se-á compreender muito sobre o estilo poético de Manuel António Pina. Desde logo, destaca-se a sua simplicidade de processos e o recurso a um léxico amiúde corrente. O uso da metáfora é raro e os versos, geralmente longos, fragmentam-se ao longo da sua organização. A rima é opcional, mas frequentemente se a observa, de modo liberto, a perfumar cada passagem escrita – não permanecendo isenta de pontuais “sacrifícios silábicos”, embora não privilegie a rigidez métrica. Em todo o caso, o modernismo faz-se sentir com todo o seu esplendor, sendo inclusive exercido em moldes notoriamente distintos se comparados com as primordiais tendências do movimento. Uma evolução de registo, claro está, abrindo caminho para o que até se poderia designar, e de todo seria infundado dizê-lo, “neo-modernismo”.

O recurso a estrangeirismos, nomeadamente em epígrafes, é uma tendência frequente e de meritório registo. Também a exposição de situações típicas do quotidiano obtém uma nota de destaque, pois amiúde se tece um poema com a imagem de um passeio num jardim (Primeiro domingo) ou com a imagem do “eu” num hospital em convalescença (Cuidados intensivos). A partir desses palcos, a poesia, como profícua semente que é, inicia o seu processo de germinação, sempre fiel à natureza que, pulsante, em si se desenvolve e prolifera pelas margens do poema que, qual brioso canteiro, a ostentará.


Um dos temas adjacentes a essa natureza é a “questão temporal”. Dentro do mesmo, a época da infância adquire uma posição de destaque. Logo o segundo poema que abre esta colectânea, Numa estação de metro, dá o mote ao assunto, não sem incutir uma certa melancolia ao caso: «A minha juventude passou e eu não estava lá. / (…) / Agora, vista daqui, da recordação, / a minha vida é uma multidão (...)». Invariavelmente, e começamos agora a constatar que a poesia de Pina contém um certo carácter indagador e meditativo, sendo muitas vezes o próprio acto motivo de criação artística, o tema “Passado” levar-nos-á à inevitável passagem do tempo e à amargura residual que daí sobeja: «Se ao menos tivéssemos / envelhecido sem motivo, sem tempo, / desaparecido para dentro / lucidamente, como uma coisa desprendendo-se» (Azul). Deste ponto até ao conflito com a morte, e com tudo o que a mesma comporta, somando talvez a implacável fatalidade do sempre irónico destino, o passo é breve e deveras irreversível. Transcreveremos, na íntegra, um dos mais belos poemas de Pina (e não isento de complexidade para um olhar mais atento) sobre a temática em causa: Luz.

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,


e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.


Ainda dentro do mesmo, torna-se impossível não destacar o épico, se tal designação lhe poderá ser atribuída, que resgata para a epígrafe uma referência ao notável Paraíso perdido, de John Milton: Farewell happy fields. Repartido por cinco partes, deparamo-nos com um poema escrito na iminência da derradeira despedida, no alcance das fronteiras da morte. Pela toada impressa e pelas imagens e ideias sugeridas e expostas num laivo algo decadentista, descobre-se um “adeus” aos alegres instantes da existência e à própria vida em si, num ritmo de viajante que vagueia sem conscientemente saber como será, em forma e conteúdo, o seu próximo destino (ou sequer se o próprio existirá). Convém sublinhar que o paralelo com o livro de Ruy Belo Despeço-me da Terra da Alegria, de 1978, será interessante de se esboçar em termos de curiosidade literária e não só: a abordagem dos autores aos temas expostos e a forma de os mesmo se correlacionarem. Mas, sob pena de extrapolar os princípios desta coluna, é tão somente um desafio que se lança ao leitor mais interessado.

Ligações a este post:
Em junho de 2011 quando da recepção do Prêmio Camões para Manuel António Pina editamos um conjunto de notas sobre a vida e a obra do escritor português mais um catálogo com textos seus.

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Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservamos a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012) e O velho sábio das montanhas (2013) – sendo os dois primeiros de poesia. Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real (artigos e crônicas diversas).