sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Do porquê sou feminista (ou pró-feminismo)

Por Pedro  Fernandes



Eu era uma criança sensível demais. Chorosa demais. E estava rodeado de homens gabando-se de sua masculinidade, dizendo que em nossa família existiam ladrões, bandidos, mas não “viados”, muito menos putas. Cresci rodeado de amigos homens falando besteiras chulas em sequência, o tempo todo procurando provar o quanto eram homens ou como eram mais homens do que os seus colegas homens. Formei-me enquanto ser humano falando muito mais com mulheres, achando muito mais divertida a sua presença cheia de uma profusão de assuntos maior e mais diversificada, do que aquelas rodas de conversas masculinas cujo único assunto eram as mulheres. Mas não mulheres de carne e osso: mulheres de carne apenas, mulheres carne, mulheres que deveriam ser comidas sem dó nem piedade.

Sensível, comecei a questionar a forma estúpida com a qual aqueles garotos agiam. O modo como eles passavam o tempo todo falando besteiras e fazendo idiotices para conquistar mulheres tolas em sua formação, as quais acreditavam ser aquele seu destino: conquistar garotos idiotas para se sentirem desejadas e assim terem uma melhor autoestima. Cresci não sabendo nada desse jogo de conquista baseado no fato do homem dominador correr atrás de sua presa indefesa e coquete. Cresci achando que eu não era homem o suficiente e mais confuso ainda pois dentro de mim havia o desejo por mulheres em ebulição. Nem como homossexual eu poderia me rotular e ficar tranquilo em meu canto oprimido. Eu me sentia na fronteira entre dois lugares desconhecidos.              

Eu era pouco homem, pois ia para um campo de futebol existente ao lado da escola onde eu estudava e ali sentava com a garota a qual considero meu primeiro amor (e que hoje se tornou uma moça incrivelmente bela) e ficava a conversar com ela por longas horas, mesmo sabendo que não haveria nada entre nós. Com ela, foi a primeira vez em minha vida que eu realizei uma atitude muito presente em meus atos: o de ser franco com uma garota e falar-lhe acerca de meu interesse por ela e, em caso de negativa, manter-me ao seu lado para curtir uma boa conversa, uma boa companhia.

Mas isso me tornou menos homem. Para os outros, eu deveria me manter perto somente de mulheres que me desse bola. Aquelas que me colocassem na chamada friendzone (zona amiga) deveriam ser eliminadas de minha existência enquanto peso morto. Além disso, eu deveria parar de ser tão falastrão, de ser tão formal em meu modo de falar, de ser tão respeitador. Mulher deveria ser domada e se eu não soubesse fazer isso, eu era um grande perdedor.

Tudo isso me soava estúpido demais. Até o momento em que eu decidi, por medo de encarar o absurdo da vida, realizar os meus atos estúpidos de anteriormente. Porém, há em mim uma inquietude tão forte que se soma à falta de jeito para realizar a etiqueta de muitos atos padronizados. E eu, por mais que tentasse, não estava apto a viver uma vida machista baseada em arranjar uma namorada e posar para todos verem o quanto eu era feliz, mesmo com todos os demônios pessoais por trás causando cenas tragicômicas.

Para minha sorte e para sorte de quem comigo estava, eu estraguei todos os meus relacionamentos. O motivo? Todas as cenas de cunho machista narradas nos primeiros parágrafos deste texto marcaram-me negativamente. Por não me ver encaixado dentro de um conceito de homem, comecei a me sentir como uma criatura inferior, um ser sem brilho, incapaz de fazer alguém feliz ao meu lado. Por ser criticado por famílias e amigos, por nunca ser visto como um “homem exemplar”, tentei de todas as formas me tornar esse homem em relações amorosas cheias de discursos românticos e um amor eloquente. Em suma, tornei-me alguém com péssima estima pessoal e uma consequente carência afetiva cuja essência era a procura por um olhar apaixonado que confirmasse a beleza de um ser que eu desejava ser com todas as minhas forças.

Como eu disse, para a sorte minha e das pessoas com quem fiquei, estraguei com meu jeito desajeitado tudo por diversas vezes. Para a minha sorte, mais especificamente falando, acabar com meus relacionamentos foi uma bela forma de me libertar. Nesse meio tempo, eu fizera leituras acerca do existencialismo e do feminismo e comecei a entender o grande mal causado pela ideologia patriarcal. Nessa lógica, todo homem deve ter uma mulher, mas um homem é considerado um ser ativo, dominador, capaz de conquistar o mundo, enquanto a mulher é aquele ser dócil que deve se manter em casa cuidando dos filhos e da base doméstica do seu homem. Uma mulher é condenada a ser um suporte e nada mais: a sua existência está presa a de outro ser.

Simone de Beauvoir explica toda a base cultural que subjuga a fêmea do gênero humano ao seu macho desde os mais remotos tempos da história da humanidade. Por em certas épocas a força física masculina ter sido a base social em períodos históricos marcados por guerras e caçadas pela sobrevivência, até hoje a mulher deve aguentar o estigma de sexo frágil. Além disso, Simone mostra como a condição feminina é ingrata e como muitas mulheres sofrem diante da inevitável certeza de que sua liberdade será toda vendida quando ela encontrar aquele o qual a desposará.

Todavia, se o patriarcado oprime sobremaneira mulheres, ele também oprime homens, esses seres que conseguem ser presas daquilo mesmo por eles criado. Como eu disse acima, quando criança eu era choroso demais, sensível a ponto de soluçar por causa de uma bronca levada em público na sala de aula. Minha família que sempre se deu ser composta por homens viris, capazes de resolver qualquer conflito da forma menos diplomática possível, durante muitos anos utilizou-se termos pejorativos os quais tinham como meta me diminuir enquanto homem. Hoje, entendo que certos termos usados naquele período e que remetem ao universo homossexual não deveriam ser levado como ofensas em si. Ainda assim, as intenções carregadas dentro daqueles termos me marcaram profundamente e eu cresci com uma imagem de mim mesma muito prejudicada.

Basicamente, cresci achando-me feio demais por ser franzino e ter acne, incapaz de conquistar uma mulher qualquer, exceto se ela estivesse em estado de carência. Cresci achando que nada do que eu fazia era bom, pois minha família em diversas outras situações fez-me entender que não importava quantos livros eu lesse e sim o fato de todos verem em mim um macho de marca maior. Quando comecei a estudar feminismo e entendi mais acerca desse discurso patriarcal, entendi que na verdade homem e mulher tem muito mais de construção social do que de fisiológico.  Nascemos com papéis de gênero pré-formatados, discursos que dizem o que devemos e o que não devemos fazer. Homens não devem ser sensíveis, não devem demonstrar emoções, não devem ser fracos, devem ser ambiciosos, devem ser tudo o que puderem. Mulheres devem ser o que os homens querem que elas sejam. Devem ser coisas possuídas por outras coisas. Coisas passivas, sem voz, dominadas por coisas que pensam que são livres quando na verdade são apenas simulacros de ser, títeres.

Quando conheci o existencialismo, todos os questionamentos feitos em minha mente juvenil ganharam uma força teórica muito grande. A minha sensibilidade causada pelo contato com a literatura e pelo contato com as mulheres sempre fez-me procurar entender suas situações, exceto no período nebuloso no qual procurei agir como um machista dominador, ali meus 22/23 anos. A cereja do bolo foi quando comecei a ler os textos de Simone de Beauvoir e de Clarice Lispector, quando comecei a entender que mulheres, assim como eu e qualquer homem, eram seres além de qualquer definição. Elas eram simplesmente o que eram: um andar, um desejo, um livro lido, um curso concluído ou abandonado, uma transa casual, um romance duradouro, um ser para-si, um ser pleno de sentido a partir da concretização de si mesma em projetos de vida.

Ser feminista para mim tornou-se uma questão lógica. Não havia como não ser diante daquilo que eu possuía diante de mim. Não conseguia conceber homens e mulheres como coisas fechadas, como sendo algo acabado, sem questionamento, sem chance de mudança. Mas as situações em que cada um dos gêneros vive é bem diferente e revela situações bem atrozes. Tudo se torna ainda mais cruel quando pensamos nas pessoas cuja orientação sexual não é a heterossexual e sim a homo ou trans. Tudo se torna mais perturbador quando a opressão se volta para formas de sexualidade que não são catalogadas por visões antigas do ser humano, ainda presas a um olhar binário de homem dominador e mulher dominada.

O discurso contra o patriarcado deve se fortalecer em todas as instâncias possíveis. Não no sentido de destruir a forma tradicional de família. Por sinal, quem acredita que seja esse o objetivo de LGBTs e feministas realmente precisa estudar, como diria Luciana Genro. O que se objetiva é ampliar o espectro de aceitabilidade das pessoas, mostrar a cada vez mais pessoas que seres humanos são seres humanos e não modos de ser previamente impostos, os quais não devem nunca ser questionados.

O meu feminismo se baseia nisso. Inspirado em existencialistas como Heidegger (apesar de seu envolvimento com o nazismo e de seus estudiosos serem bastante conservadores no tocante ao engajamento do pensamento filosófico em questões políticas relevantes) e Sartre, passando por pensadores cujo foco é o discurso enquanto produção sociocultural dotado de intenções e sem nada de neutralidade, como Foucault, chegando a mulheres que procuraram refletir sobre a condição a feminina enquanto ser condenado a ser livre dentro de limites impostos por seres que se julgam superiores somente por terem um pênis; inspirado em tudo isso, viso à desconstrução do pensamento machista, ao entendimento de seus fundamentos para mostrar a possíveis ouvintes o quanto é absurdo esse pensamento que há séculos norteia nossa sociedade.

Apenas há pouco tempo comecei a me libertar das cicatrizes psicológicas causadas pelo pensamento machista o qual não consegui herdar. Claro que há em mim diversos vieses de comportamento patriarcal, sendo o principal deles a tentativa de auto afirmar-me enquanto homem em certos momentos de meu cotidiano. Contudo, não há mais em mim um discurso legitimador da opressão feminina e de outras pessoas as quais não se encaixem no padrão heteronormativo, o que me deixa muito feliz. Muito de minha “cura” se deveu às leituras literárias e filosóficas sobre a condição da mulher em nosso mundo, o que me levou a criar empatia por sua condição e a entender como é limitador demais viver em mundo que prende o homem em seu eterno dever de prender uma  mulher. Ou melhor, a mulher.

Não devemos esquecer de que existem diversos tipos de feminismos no contexto social atual. Não sei dizer qual é o meu, apenas que dentro de um pensamento humanista pleno eu procuro entender a condição de determinadas pessoas e o que causa os males de tal condição. O feminismo para mim é um complemento do existencialismo, pois me faz pensar que enquanto ser condenado a ser livre quero quer todos vivam de forma plena as suas liberdades individuais, sem nenhum tipo de estorvo.

Neste sentido, assumir-me feminismo é crer, como já tantas vezes se falou, que mulheres são gente e merecem o respeito básico de andarem por onde e com quem quiserem, de serem o que quiserem. Uma forma de garantir isso é mostrar aos homens o quanto é tolo o seu papel de opressor promovendo essa desconstrução do discurso patriarcal. Por isso, uso todos os espaços possíveis que posso para falar daquilo que entendo como feminismo, sempre querendo aprender mais e mais em prol de que mais liberdades sejam respeitadas, protegidas de discursos que tentem fechá-las em conceitos sem vida própria.

***
Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.