terça-feira, 2 de setembro de 2014

O amante uruguaio de Federico García Lorca?

Enrique Amorim junto a Federico García Lorca. O escritor uruguaio foi amigo de várias artistas e um especialista em converter suas invenções em realidades. El País.

O escritor uruguaio Enrique Amorim foi amigo de importantes artistas do século XX, de Picasso a Walt Disney, e construiu o primeiro monumento do mundo em memória de Federico García Lorca. Sua vida podia alimentar uma simpática crônica de época. Mas seu nome era desconhecido fora de seu país.

Em 2010, Santiago Roncagliolo recebeu de uma pequena editora andaluza um projeto sobre Amorim. Naquela ocasião os editores, depois de várias conversas em torno do desenvolvimento de uma pesquisa sobre o escritor, revelaram que debaixo do monumento erguido por ele a Lorca estavam os restos mortais do poeta. A princípio, Santiago considerou que os editores estivessem com uma peça do juízo a menos, mas aceitou a proposta.

O monumento a García Lorca situado na cidade uruguaia de Salto tem forma de uma lápide e leva como epitáfio os versos de Machado que pedem uma tumba para o poeta. Está desenhado seguindo as instruções dessa tumba, “de pedra e sombra”, sobre uma fonte “onde chore a água”.

Para sua inauguração, em 1953, Amorim mobilizou toda a população local que foi levada de ônibus até lá. E inclusive o corpo de segurança local rendeu honras de Estado ao poeta. A atriz republicana Margarita Xirgu representou cenas de Bodas de sangue.

A cerimônia era tão fúnebre que os pescadores da região se aproximaram e deram os pêsames à atriz pensando que era ela a mãe do defunto. E o anfitrião Amorim sublinhou o efeito ao declarar em seu discurso: “Aqui, numa modesta dobra de terra que me terá sempre prisioneiro, está Federico...” Também agradeceu a seu povoado de Salto “o que intui, o que adivinha”.


Monumento a Federico García Lorca. Enrique Amorim forjou um cerimonial em memória ao poeta com honras militares e tudo corroborando com sua invenção de que estaria sepultado aí os restos mortais de Lorca.

E por trás do monumento a García Lorca enterrou uma caixa branca. De proporções de um ossário, aquelas caixas onde se colocam os ossos quando o corpo perde sua consistência entre cinco e dez anos depois da morte.

Durante os anos seguintes, Amorim se esmerou em dar a conhecer o monumento pelo mundo. Logrou que um periódico francês lhe dedicasse um artigo, e pouco mais.

Em sua correspondência privada se guardam cartas de amigos que celebram o “incomum” monumento. Um deles confessa assombrado porque Amorim faz com ele, e sublinha: “Que grandiosamente bárbaro és!” Outro lhe jura, antes de uma viagem à Espanha de Franco, que não revelará o segredo do monumento de Salto, que leva “em seu coração”.

Depois da morte de Amorim, sua companheira levou flores ao monumento todos os anos e se negou a responder a seus assistentes sobre o que havia na caixa enterrada no monumento. O rumor dizia que era o cadáver de García Lorca. Mas ninguém se atreve a confirmá-lo.

“Da ficção à realidade. Amorim deixou as pistas divididas para que alguém descobrisse seu segredo. E sem dúvida acertou. Cinquenta anos depois de sua morte, houve quem seguiu os indícios e me chamou para investigá-los.” – cita Santiago Roncagliolo.

As investigações adiante revelaram um dado importante: Amorim deixava indícios falsos por toda a parte. Além disso, era um gênio da impostura, um estrategista da ambiguidade e um homem capaz de converter suas ficções em persuasivas realidades.  Seu ‘poder’ era visível desde o início como escritor. Em seu primeiro livro, de 1923, publicou um conto realista chamado “Las quintaderas”, protagonizado por umas prostitutas ambulantes inventadas por ele mesmo. A crítica adorou o conto – embora tenha destroçado o restante do livro – e a figura das quitandeiras se popularizou entre os leitores, que começaram a falar delas como se fossem reais.  

Algum filólogo se deu ao trabalho de desmentir com um artigo na imprensa da existência das quitandeiras. Amorim escreveu uma resposta e polêmico colocou o nome de suas prostitutas na boca de todos.

Em seguida, o pintor uruguaio Pedro Figari, cronista da sociedade de seu país, dedicou às quitandeiras uma coleção de quadros. Quando os quadros foram expostos em Paris, o romancista Adolfo de Falgairolle ficou maravilhado com as prostitutas ambulantes, as considerou figuras reais, uma espécie equivalente ao feminino gaúcho e dedicou um romance – La quitandera.

Amorim não tardou em responder. Se na América do Sul havia tratado de demonstrar que suas personagens eram reais, agora viajou a Paris para defender que eram imaginárias e pertenciam a ele. Como resultado, se serviu da polêmica em ambos os países para popularizar suas histórias e publicar La carreta, uma versão estendida da história que se converteria em seu maior êxito editorial. No alvorecer da indústria editorial espanhola, Amorim acabava de descobrir a força publicitária da polêmica.

Em 1948, um periódico saltenho publicou a seguinte manchete: “Reunião de líderes comunistas em Salto”. Sem citar a fonte, o jornal sublinhava que Enrique Amorim havia acolhido em seu luxuoso chalé dois dirigentes clandestinos mais conhecidos do Partido Comunista: o chileno Pablo Neruda e o brasileiro Luis Carlos Prestes. O motivo da reunião: fixar a estratégia do partido contra a repressão dos Governos Sul-americanos.

A Guerra Mundial havia terminado e com ela os governos fascistas. O novo inimigo global era o comunismo e Estados Unidos exigia aos países latino-americanos à ilegalidade dos partidos apoiados pela União Soviética. Dois mandados de captura foram dados contra Neruda e Prestes. A notícia da reunião em Salto causou comoção local e chegou a Montevidéu e Argentina. A polícia se colocou em estado de alerta e inclusive os bombeiros estabeleceram patrulhas. Para poder identificar Neruda, os agentes necessitavam de fotos. Os livros do poeta se esgotaram nas livrarias. Mas nada deixou rastros da suposta coluna comunista.

Quando a notícia começava a acabar, Amorim em pessoa publicou um artigo intitulado “Pablo Neruda está em minha casa”. O título devia ser entendido como uma metáfora. Pablo Neruda, ideológica e espiritualmente estava sempre com Amorim. Mas a histeria midiática era voraz, e, ao que parece, ninguém tinha tempo para ler os artigos inteiros. A notícia se reproduziu no Chile, Peru e Equador com detalhes sobre capturas e perseguições policiais dignas de um filme de Hollywood. Em apenas um mês, Amorim se converteu num símbolo do comunismo, à altura de suas maiores figuras. E ninguém perguntou nunca por fonte original da notícia.

Em suas memórias Amorim não menciona o encontro de comunistas de Salto, mas sim outra reunião secreta: a que manteve Charles Chaplin e Pablo Picasso em Paris. Chaplin, acusado pelo governo dos Estados Unidos, não queria encontrar-se publicamente com comunistas destacados, de modo que a reunião foi realizada na intimidade de seu hotel. E desta vez Amorim descreve os acontecimentos com detalhes.

Segundo o uruguaio, a reunião começou com frieza, dado que os dois grandes artistas não falavam uma língua em comum. Mas Picasso e Chaplin se puseram a fazer piadas e a rir e terminam no estúdio do pintor, como grandes amigos, entre uma desordem de renoirs, rousseaus e taças de vinho.
As memórias do próprio Chaplin publicadas depois da morte de Amorim confirmam cada detalhe de sua descrição. Mas em vez do escritor uruguaio, relembra outra figura na mesa: nada menos que Jean Paul-Sartre. O mais suspeitoso é a descrição de Sartre por Chaplin: “Sartre teria a cara redonda, e embora suas feições não merecessem maior comentário, possuíam uma sutil beleza e sensibilidade.”

Essa não é a descrição de Sartre – que, entre outras coisas, era vesgo e não tinha a cara redonda. A descrição é de Amorim.

Chaplin lembra que o encontro foi organizado pelo poeta Louis Aragon, factótum cultural do Partido Comunista em Paris. Aragon queria satisfazer Chaplin apresentando-lhe Sartre, mas cabe destacar que tinha um problema: sua relação com o filósofo era péssima.

Enrique Amorim e amigos na praia. Entre eles,o de braços cruzados é Jorge Luís Borges


Agora bem, isso não era um problema para Enrique Amorim, o homem que havia inventado a Internacional Comunista Sul-americana. E por certo, tampouco para o próprio Aragon, que em seus dias de poeta dadaísta havia emitido falsos discursos pelo rádio de... Charles Chaplin. Num mundo sem internet e com a televisão uma raridade, um bom artista podia jogar facilmente com a realidade.

Com o tempo, Enrique Amorim foi esquecido fora do Uruguai. Nem Neruda nem seus biógrafos nem os de García Lorca – exceto Ian Gibson de modo incidental – o mencionam. Nem sequer enquanto vivia o levavam muito a sério. Frequentemente, os intelectuais o abandonaram em momentos cruciais. Mas ele estava seguro de que o mundo o lembraria.

Além das memórias, deixou um extenso arquivo de imprensa e sua correspondência com centenas de artistas. Sua viúva se ocupou de conservar todo esse acervo e enviá-lo à Biblioteca Nacional do Uruguai para que fosse acessível ao público. Ambos sabiam que muitos dos temas documentados nesse arquivo – com a homossexualidade de Jacinto Benavente e Federico García Lorca, ou os manejos do Partido Comunista – não podiam sair nos anos cinquenta. Mas chegaria o momento em que tudo viria a lume.

Um desses temas é o do monumento a García Lorca e a possibilidade de que fosse na verdade um sepulcro. Amorim deixou escrito que havia sido amante do poeta granadino, algo que a família García Lorca não confirma. E sublinhou que Federico tinha sido morto por sua culpa, algo que de todos os lados é falso. Ante um mestre da simulação como ele, fica difícil distinguir que quis nos fazer crer que ele próprio acreditava de verdade, e que é verdade.

Se de fato sob o monumento de Salto jazem os restos mortais do poeta, Amorim terá conseguido passar para a história. Mas o curioso é que se não, também. Santiago Roncagliolo, ainda assim se manteve diante da possibilidade de que um livro possa, de repente, servir ao esquecimento dessa figura e aceitou escrever essa história em El amante uruguayo – um retrato, segundo ele próprio “de como se forjou a arte do século XX e em particular de foi alterada pela guerra civil espanhola.”


* Este texto utiliza-se de "¿El amante de Lorca?" escrito por Santiago Roncagliolo para o jornal El País, março de 2012.