segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Urbano Tavares Rodrigues


Até onde pudemos pesquisar – entre os muros do espaço virtual – encontramos que a obra de Urbano Tavares Rodrigues, assim como a de outros muitos nomes da literatura portuguesa merecedores da atenção do leitor, é de um todo inédita no Brasil. Também não há nisso empecilho para conhecê-la; Portugal é logo ali e de lá para cá, zanguem-se alguns gramáticos de um e do outro lado, fala-se o mesmo idioma. Mas, é para romper esse desconhecimento que existem espaços como estes, embora também as fronteiras da web sejam ilimitadas e os daqui podem ler sobre qualquer literatura de qualquer parte do mundo. Ainda assim, importa mesmo é quem fala. Dizer de um nome pouco conhecido é um gesto de multiplicá-lo nesse universo sem fronteiras e fazê-lo mais próximo de outros leitores.

Desde 2013, quando o escritor morreu, que era prevista uma entrada como esta para o Letras. Terá sido necessário esperar um ano para se falar sobre Urbano Tavares aqui; nada grave. Circula já outros textos que tocam no mais importante que a biografia, a obra do escritor. Plural, diga-se. Urbano esteve entre a prosa e a poesia. E, logo, um dos nomes mais considerados da cena literária portuguesa do século XX, embora o país de sua origem pouco caso parece fazer de sua obra. Ao menos não houve qualquer estardalhaço na mídia quando de sua morte em agosto de 2013. Foi uma morte silenciosa se repararmos a cobertura nos meios daquele país para outros nomes que nos deixaram depois de Urbano. Isso, entretanto, não vem ao caso; não é este um texto para criticar silêncios. Isso da leviandade da mídia para com alguns nomes da cultura é coisa que se repete com bastante frequência e cá, olhando para nossa mídia brasileira, vemo-nos como exemplos vivos dessa esquizofrenia.

Mas uma observação ainda em torno desse silêncio em torno do nome de Urbano está no fato de, apesar de ser o escritor que é, nunca chegou a receber nenhum prêmio de grande monta, como o Prêmio Camões. O próprio escritor, no alto de seus sessenta anos dedicados à literatura queixou-se publicamente disso. “Mereço amplamente o Prémio Camões” – disse numa conversa sobre livros e política para o caderno Ípsilon e em várias outras ocasiões. Mesmo com o reconhecimento que tardou chegar, trabalhou até os últimos instantes de sua vida. Mesmo com a saúde muito frágil e internado, antes de sua morte, Urbano debateu-se com a escrita.


Urbano Tavares não foi um escritor pelo acaso. Nem do acaso. Concluiu o curso superior em Filologia Românica, portanto, as letras já era seu universo antes de ser reconhecido como escritor. Produziu uma literatura sobre o homem, sobre a relação do homem com a coletividade e com a história. Mas, além de escritor, foi jornalista – desde 1946, no Diário de Lisboa, no Diário de Notícias, no Jornal do Comércio, nO século; foi leitor de Português nas universidades de Montpellier,Aix-en-Provence e de Paris; professor no Liceu Camões, na Faculdade de Letras de Lisboa, no Liceu Francês em Lisboa.

Além da obra eminentemente literária e da escrita para o jornal, dedicou-se ao ensaio e publicou vários estudos sobre a obra de Manuel Teixeira Gomes, autor que estudou desde seu trabalho de conclusão de curso em 1949 e na tese de doutorado defendida em 1984. Do gênero, publicou, entre outros, O tema da morte na moderna poesia portuguesa (1958), O mito de Dom Juan (1960), O romance francês contemporâneo (1964), Realismo, arte de vanguarda e nova cultura (1966), Ensaios de escreviver (1971), Ensaios após abril (1977), Um novo olhar sobre o neorrealismo (1981), A horas e desoras (1993) texto que lhe valeu o Prêmio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho, Traição e ruptura (1994), O homem sem imagem: a persistência das marcas surrealistas nos romances de Aragon (1995) e O texto sobre o texto (2001). Ao todo foram mais de duas dezenas de livros do gênero.

Sua obra literária se inicia com um livro de contos, A porta dos limites, editado em 1952, e terminou em 2013 com um livro do mesmo gênero, A imensa boca dessa angústia. Nesse intervalo escreveu livros de viagens: Santiago de Compostela (1949), Jornadas no Oriente (1956), Jornadas na Europa (1956), De Florença a Nova Iorque (1963), Viagem a União Soviética e outras páginas (1973), Redescoberta da França (1973), Registos de outono quente (1976) e Agosto no Cairo – 1956 (1999); novelas: Vida perigosa (1956), A noite roxa (1956), Uma pedrada no charco (1957), As aves da madrugada (1959), Nus e suplicantes (1960), Viamorolência (1986), As máscaras finais (1963), Terra ocupada (1964), A samarra (1964), Casa de correcção (1968), A impossível evasão (1968) e O último dia e o primeiro (1999).

Marcha pela Paz. Lisboa. 1983. José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues

No romance publicou quase duas dezenas de livros, entre os quais, Os insubmissos (1961), Exílio perturbado (1962), Imitação da felicidade (1966), Tempo de cinzas (1968), A vaga do calor (1986), Deriva (1993), O ouro e o sonho (1997), Nunca diremos quem sois (2002), O eterno efêmero (2005), Ao contrário das ondas (2006) e Os cadernos secretos do Prior do Crato (2007).

Nuno Júdice atesta que, diante de uma obra tão vasta de qualidades inconteste o silêncio em torno do nome de Urbano Tavares se dá devido sua filiação partidária. Marxista convicto e tendo travado algumas lutas pelo fim da ditadura em Portugal, ao lado de nomes como José Saramago e José Cardoso Pires, o esquecimento é a vingança fria que os do poder comem lentamente. Outros nomes em toda parte do mundo padecem do mesmo proposital descaso. Entretanto, Nuno anseia que “uma visão redutora” da obra de Urbano seja superada a título de observar um homem preocupado com o seu tempo, com o mundo e a lógica esclerosada que vem seguindo desde o avanço do modus vivendi capitalista.

“Se Urbano se mantém no que se pode designar como um registo realista que tem no romance Bastardos do sol (1959) um momento culminante da visão desencantada de um Alentejo visto à lupa de um olhar analítico da sociedade rural que Urbano testemunhou na sua adolescência, a experiência de viagens e de uma actividade de leitor em França quando a Ditadura o afastou da nossa Universidade, a que só regressa depois do 25 de Abril para escrever uma tese sobre um dos seus modelos literários, Teixeira Gomes, que é um marco nos estudos desse autor, dissemina-se por muitos dos seus textos. E o contacto que teve com movimentos e autores da segunda metade do século XX, desde o existencialismo que perpassa nalgum universo ligado à boémia intelectual e ao registo na primeira pessoa, buscando o fundo do espírito humano, até ao novo romance de um Robbe-Grillet (que traduziu), conferem-lhe uma dimensão nada provincial e que se inscreve na busca de processos literários sempre renovados. Curiosamente, quando se poderia pensar que, no final da sua vida, Urbano se iria repetir ou estagnar naquilo que fizera o reconhecimento da sua obra de autor comprometido, vamos pelo contrário encontrar uma constante e empenhada experimentação de formas e temáticas actuais: o romance (quase) policial de 2005, O eterno efémero, em que encontramos a introdução do e-mail na narrativa; a novela histórica em Os cadernos secretos do prior do Crato (2007), sob a forma de um caderno autobiográfico desse frustrado herói da crise aberta com Alcácer-Quibir; uma aproximação ao fantástico em contos de A última colina (2008); e também a poesia em prosa de belos livros como Margem da Ausência (1998) ou Rostos da Índia e alguns sonhos (2005). Em verso também escreveu algumas letras de fado, e o último encontro que tive com ele, há poucos meses, foi para lhe dar (e ler porque a sua vista já não o permitia com facilidade) um posfácio para um livro de poemas que esperava publicar este ano [2013].”

Além da obra citada, escreveu para o teatro, literatura infantil, crônicas. Jamais deixou de acreditar que estamos a passar por uma nova era do pensamento. Por uma produção literária da magnitude que alcançou vê-se que foi um homem sempre tomado por ideias novas. Nunca se reduziu aos mandos da arrogância do poder. Fez da sua literatura um espaço de reflexão sobre a luta, a raiva, o amor, o exílio, a solidão, a dor, suas vivências, a esperança. De uma vida longa – “vivi muito” – entre livros deixou uma obra que certamente, por esses exercícios, merece ser lida. “O essencial, por um lado, é o sentimento de perdurar através dos meus livros, de não morrer completamente. E também de, em ventos e tempestades, interrogações, incertezas, angústias, ter-me  mantido sempre fiel ao mais profundo de mim próprio” – isso certamente o faz mais grande escritor, grande homem. Falta-nos, hoje, as duas expressões.

A seguir editamos um catálogo com poemas de Urbano Tavares Rodrigues e um inédito. Segue ainda um álbum com fotografias do escritor e outras novidades.

Ligações a este post:
Pedro Belo Clara escreve sobre Nenhuma vida
Pedro Belo Clara escreve sobre Bastardos ao sol