sábado, 5 de julho de 2014

Futebol ao sol e à sombra

Por Eduardo Galeano



Os negros

Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4 a 0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida, "porque o Uruguai escalou dois africanos". Eram os jogadores Isabelino Gradín e Juan Delgado. Gradín havia feito dois dos quatro gols.

Bisneto de escravos, Gradín tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e sem se deter evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.

Juan Delgado, também bisneto de escravos, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava dançando nos carnavais e fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava, e gozava os adversários.

– Larga esse cacho – dizia, levantando a bola.

E lançando-a dizia:

– Sai fora, que lá vai areia.

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional.

Zamora

Começou na primeira divisão aos dezesseis anos, quando ainda vestia calças curtas. Para entrar no campo do Espanhol, em Barcelona, vestiu um jersey inglês de colarinho alto, luvas e um gorro duro como um capacete para protegê-lo do sol e das patadas. Era o ano de 1917 e as cargas eram de cavalaria. Ricardo Zamora tinha escolhido um ofício de alto risco. O único que corria mais perigo que o goleiro era o árbitro, naquela época chamado o Nazareno, que estava exposto às vinganças do público em campos que não tinham fosso nem alambrado. Em cada gol a partida era interrompida longamente, porque as pessoas entravam em campo para abraçar ou bater.

Com a mesma roupa daquela primeira vez, ficou famosa, ao longo do tempo, a estampa de Zamora. Ele era o pânico dos atacantes. Se olhavam para ele, estavam perdidos: com Zamora no gol, o arco encolhia e as traves se afastavam até perder-se de vista.

Era chamado de Divino. Durante vinte anos, foi o melhor goleiro do mundo. Gostava de conhaque e fumava três maços de cigarros por dia, além de um ou outro charuto.


Samitier

Aos dezesseis anos, como Zamora, Josep Samitier debutou na primeira divisão. Em 1918, assinou contrato com o Barcelona em troca de um relógio luminoso, que era coisa nunca vista, e um terno com colete.

Pouco tempo depois, já era o ás da equipe e sua biografia era vendida nas bancas de jornal da cidade. Aos dezesseis anos, como Zamora, Josep Samitier debutou na primeira divisão. Em 1918, assinou contrato com o Barcelona em troca de um relógio luminoso, que era coisa nunca vista, e um terno com colete.

Pouco tempo depois, já era o ás da equipe e sua biografia era vendida nas bancas de jornal da cidade.


Friedenreich

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguaipor 1 a 0 e se sagrou campeão sulamericano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um sinalzinho que proclamava: O glorioso pé de Friedenreich. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrina de uma joalheria, no centro da cidade.

Artur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante vinte e seis anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols que ele na história do futebol. Fez mais gols que o outro grande artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador do futebol profissional, Friedenreich somou 1.329 gols. Pele, 1.279.

Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé.

Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto a fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.


Andrade

A Europa nunca tinha visto um negro jogando futebol.

Na Olimpíada de 24, o uruguaio José Leandro Andrade deslumbrou com suas jogadas de luxo. No meio de campo, este homenzarrão de corpo de borracha carregava a bola sem tocar o adversário, e quando se lançava ao ataque, contorcendo o corpo esparramava um mundo de gente. Numa das partidas, atravessou meio campo com a bola dominada na cabeça. O público o aclamava, a imprensa francesa chamava-o de A Maravilha Negra.

Quando o torneio terminou, Andrade ficou um tempo ancorado em Paris. Ali foi boêmio errante e rei de cabaré. As botas de verniz substituíram as alpargatas que tinha trazido de Montevidéu e um chapéu com aba ocupou o lugar do gorro velho. As crônicas da época saudavam a estampa daquele monarca das noites de Pigalle:

O passo elástico e dançarino, o esgar gozador, os olhos entrecerrados que sempre olhavam de longe, e uma pinta de matar: lenço de seda, paletó listado, luvas amarelo-claro e bengala com empunhadura de prata.

Andrade morreu em Montevidéu, muitos anos depois. Os amigos tinham programado muitas festas em seu benefício, mas nenhuma chegou a ser realizada. Morreu tuberculoso, na mais completa miséria.

Foi negro, sul-americano e pobre, o primeiro ídolo internacional do futebol.

Scarone

Quarenta anos antes dos brasileiros Pelé e Coutinho, os uruguaios Scarone e Cea transpunham as zagas adversárias com seus passes de primeira e em ziguezague, que iam e vinham de um para o outro no caminho até a meta, tua e minha, curtinha e no pé, pergunta e resposta, resposta e pergunta: a bola era devolvida sem parar, como se tivesse batido numa. Já se chamava a parede, naqueles anos, essa maneira rioplatense de atacar.

Héctor Scarone servia passes como oferendas e fazia gols com uma pontaria que aperfeiçoava, nos treinos, derrubando garrafas a trinta metros. Embora baixinho, no jogo pelo alto superava todos. Scarone sabia flutuar no ar, violando a lei da gravidade: quando saltava em busca da bola, lá em cima se desprendia de seus adversários dando uma volta de pião que o deixava de frente para o arco, e então cabeceava para o gol.


Era chamado o Mago, porque tirava gols da cartola e também o chamavam Gardel do futebol, porque jogando cantava como ninguém.


* De GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Trad. Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegre: L&PM, 2014.

Boletim Letras 360º #70


Os minilivros dos irmãos Brontë. Saiba mais sobre essas raridades ao longo deste Boletim. Foto: Universidade de Havard


Alcançamos 70 Boletins e incontáveis novidades que já circularam por aqui: lançamentos, curiosidades, eventos, raridades, enfim, alguns dos principais acontecimentos em torno do tema literatura, artes e comportamento, dentro e fora do Brasil. O BO Letras 360º foi criado com o intuito de reunir num só espaço as publicações que circulam na página do blog no Facebook – nem sempre vistas pelos leitores. O propósito se mantém e o sucesso só cresce.


Segunda-feira, 30/06

>>> Mauritânia: As bibliotecas perdidas de Chinguetti 

Ela já foi conhecida como sétima cidade sagrada do Islã. Também foi chamada de "Cidade de Bibliotecas" e de casa para a elite cultural da África Ocidental. Agora Chinguetti está em processo de ser engolida em sua totalidade pelo deserto e irá desaparecer em poucas gerações. Por lá, ainda há uma leva de bibliotecas com milhares de livros raros, incluindo manuscritos islâmicos importantes sobre religião, ciência e literatura. Apesar de declarada Patrimônio Histórico Mundial pela UNESCO, a torcida é que um exército de preservadores entre já a caminho de salvar essas bibliotecas.

>>> Brasil: A obra de Thomas Mann começa a ser reeditada em 2015

E pela Companhia das Letras. Um dos principais nomes da literatura do século XX de quem alguns títulos andam fora de catálogo no Brasil, recebe novo fôlego. A montanha mágica, Morte em Veneza, Tonio Kröger, Doutor Fausto e As confissões de Felix Krull serão reeditadas a partir de 2015. Além disso, a editora planeja trazer uma coletânea de contos do Prêmio Nobel de Literatura de 1929. Enquanto isso, parte da produção ensaística é editada por aqui pela Zahar.

>>> Brasil: Nova biografia sobre Carlos Drummond de Andrade

Está prometida para 2017. E é escrita por Humberto Werneck quem está começando as pesquisas para a obra encomendada pela Companhia das Letras; Werneck é autor de perfil de Chico Buarque, da biografia de Jaime Ovalle e de O desatino da rapaziada – jornalistas e escritores em Minas Gerais (1920-1970), do qual o poeta é um dos personagens.


Terça-feira, 01/07

>>> Brasil: Gabriel García Márquez em quadrinhos

Já havíamos comentado por aqui sobre a publicação na Colômbia de uma HQ que conta a vida extraordinária de Gabriel García Márquez. A obra recebe tradução inédita para o Brasil pela Editora Veneta. Gabo, memórias de uma vida mágica narra a infância em Arataca, a vida de estudante em meio aos tumultos políticos da Colômbia, o envolvimento com a Revolução Cubana, a criação do clássico Cem Anos de Solidão, o Prêmio Nobel em 1982. Enfim, um apanhado sobre os acontecimentos da vida de um dos mais importantes autores latino-americanos contada.

>>> Brasil: Federico García Lorca em O divã do Tamarit

Publicado postumamente e escrito entre 1931 e 1935, em sua maior parte na propriedade da família de Federico García Lorca, O divã do Tamarit ganha uma edição pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros. A tradução é de Josely Vianna Baptista com prefácio de Emilio García Gómez. Lorca, diz ele, escreveu os poemas como forma de homenagear os antigos poetas granadinos (“divã” vem a ser justamente uma coletânea de gazéis e casidas) e a própria cidade, onipresente nos escritos. Não poderia haver homenagem maior do que reafirmar a própria voz a partir de uma tradição poética tão rica.

>>> Brasil: Da Literatura para as artes plásticas

É isto um homem?, título de Primo Levi, é tema para uma instalação organizada por Nuno Ramos para a abertura do Museu da Imigração em São Paulo. A pergunta que sustenta a obra estabelece uma experiência limite e uma das maiores atrocidades do século XX. A Shoah é onde esse eterno outro identificado como estrangeiro perdeu o estatuto de humano, em uma comparação que tem suas fraturas da linguagem e suas implicações políticas.


Quarta-feira, 02/07

>>> Brasil: Um documentário sobre Torquato Neto 

A previsão de estreia é para 2015. O filme deverá percorrer não apenas a cena poética – obra toda publicada postumamente e hoje fora de catálogo – e sobre algumas lacunas sobre a atuação de Torquato por algumas cenas da cultura brasileira, como sua participação na Tropicália. Tem interesse ainda em visitar, através de depoimentos de amigos, sobre a temporada que o poeta passou em Londres e Paris, quando conviveu com o grupo Exploding Galaxy.

>>> Brasil: A mais recente biografia de John Updike será publicada por aqui

Escolhida como o livro do ano, Updike, de Adam Begley, virá a lume em 2015 pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros. A obra traz um olhar sincero, íntimo, e ricamente detalhado sobre a vida e a obra de uma das figuras mais celebradas da literatura estadunidense.


Quinta-feira, 03/07

>>> Noruega: Karl Ove Knausgård e a Copa do Mundo

O norueguês prepara para setembro um livro sobre a Copa, ainda sem título. A narrativa é escrita do ponto de vista de quem a está acompanhando de longe, pela TV, enquanto troca cartas com um amigo que está no Brasil. O livro marca o retorno de Knausgård à escrita após o sucesso dos seis volumes de "Minha Luta" que, só em seu país de origem, já vendeu mais de 500 mil exemplares.


>>> Estados Unidos: Os minilivros dos irmãos Brontë

Quando Charlotte Brontë tinha treze anos e seu irmão, Branwell, doze, eles projetaram e escreveram uma série de pequenos livros: Medindo menos de uma por duas polegadas, os livros eram feitos de pedaços de papel e construídos à mão. Apesar do tamanho diminuto, os livros continham grandes aventuras, escritas num roteiro cuidadoso. A rara coleção pertence a Universidade de Harvard.


Sexta-feira, 04/07

>>> Brasil: Chega às livrarias quatro títulos fundamentais da recente literatura em língua inglesa

Jhumpa Lahiri (1967) nasceu em Londres mas cresceu em Rhode Island, nos Estados Unidos. Filha de pais de origem indiana, a autora busca em seus livros um diálogo entre todas as culturas das quais faz parte e promove uma interessante contribuição a um dos temas de maior importância à nossa contemporaneidade: as geografias do sociocultural. É autora de Intérprete de males, que lhe rendeu o Pulitzer de melhor livro de ficção em 2000, e de O xará (2003) e Aguapés finalista do Man Booker Prizer e do National Book Award de 2013. A neozeolandesa Eleanor Catton (1985) nasceu no Canadá, durante a residência que seu pai fez para doutoramento, mas passou a maior parte da vida na Nova Zelândia. Fez mestrado em Escrita Criativa pela universidade de Victoria, em Wellington, e foi bolsista do Iowa Writers Workshop. Seus livros foram muito bem recebidos pela crítica internacional, que a considera um dos grandes novos talentos literários de sua geração. Seu romance Os luminares foi um dos fizeram história no último Man Booker Prize: sua autora foi a mais jovem a receber o prêmio.  Todos os livros aqui citados estão sendo apresentados no Brasil pelo Selo Biblioteca Azul, da Globo Livros.

>>> Brasil: Romance de estreia de John Scalzi será publicado em 2015

A Editora Aleph – nome que se destaca no mercado literário nacional pelas publicações de ficção científica –  anuncia que para 2015 trará Old man’s war, o romance de estreia de John Scalzi. Bastante popular entre os leitores do gênero este é o volume de uma série. que até o momento tem já publicados mais sete livros.

>>> Inglaterra: Uma entrevista com Aldous Huxley

Na esteira das edições recentes que a Globo Livros tem publicado de Aldous Huxley, aqui fica o registro de uma entrevista dada pelo autor de Admirável mundo novo a Mike Wallace, em 1958 (está indexada em nosso canal no Youtube). Dividida em três partes, eis os links para assistir: Parte 1; Parte 2; e Parte 3. No Letras, há notas sobre Admirável mundo novo



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