quinta-feira, 26 de junho de 2014

Heleno de ponta a ponta

por Gabriel García Márquez



Dois domingos atrás o público de Barranquilla foi ao Estádio Municipal com o único objetivo de presenciar a volta do dr. Heleno de Freitas. Tenho a impressão de que, mais que as mãos para aplaudir, a torcida levava as gargantas para apupar. Não seria o mesmo Heleno de dois anos atrás o que naquela tarde iria aparecer no gramado. Era um homem completamente diferente, dois anos mais velho, já passado pelo torno de uma consciente e multitudinária análise, cujos resultados ainda são desconhecidos, o que impediu a todos que entendem de futebol atrever-se a dizer se Heleno é um gênio ou um palhaço sem o perigo de ter de se retratar no domingo seguinte.

Os dirigentes do Junior mais uma vez trouxeram o advogado brasileiro aos gramados colombianos, e com isso demonstram possuir um inteligente conhecimento da psicologia coletiva. Um público que paga para ver um espetáculo de qualidade é, de certa forma, um público sem esperança, ao qual nenhuma atração promete o futuro. No entanto, sendo Heleno o que está na proa, todo torcedor vai ao estádio como quem leva no bolso um bilhete inteiro de loteria. Porque com Heleno não existe meio-termo; ou, pelo menos, o público não quer isso dele. Se se comporta como charlatão, o público sabe que comprou um bilhete em branco que lhe dá a oportunidade de vaiar. Em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira como aplaudir, é uma forma coletiva de reconhecer publicamente um fato.

A torcida deve ter observado, através das fotografias que foram publicadas na imprensa local, que Heleno parecia não ter feito outra coisa no Rio de Janeiro senão engordar. De volta à capital brasileira, onde foi recebido como o personagem principal de um filme de bandidos, com revólveres e socos de ida e volta, o “maestro” – ou o palhaço – descuidou-se de seu regime, guardou no armário, juntamente com o calção e demais artefatos do ofício, suas práticas diárias de ginástica sueca, e ficou à espera de que lhe fosse dada uma absolvição, absolvição que chegou de onde ele menos esperava, ou seja, da episcopal equipe de Régulo Matera. Mas então Heleno começara a engordar. E o público de Barranquilla, que percebeu isso desde a sua chegada, rompeu todos os diques para se permitir mais uma vez o prazer de vaiá-lo.

Como, semanas atrás, me arrisquei a dizer, o Junior agora está completo. Quando vencer, será um time admirável, bem-ajustado, com um moral de cimento armado. Se perder – e oxalá isso aconteça poucas vezes – Heleno se tornará mais uma vez o farsante, o bobalhão da pelota. E com isso o público ficará feliz, já que no futebol se segue a regra de que, quando o time ganha, a torcida também ganha, mas quando perde lhe cabe enfrentar sozinho a borrasca da derrota. Neste último caso, a torcida limita-se a pagar as apostas e a dizer – no caso do Junior – que enquanto Heleno de Freitas estiver na Colômbia as listras vermelhas e brancas não terão vez.

* Heleno é um dos nomes mais emblemáticos do futebol sul-americano. Jogou por clubes brasileiros como Botafogo, Boca Juniors, Vasco, Flamengo, Santos entre outros clubes. De temperamento difícil, formado em Direito, movido pela boemia e dando-se ao desfrute pela beleza herdada, o frisson da torcida, foi este mesmo Heleno que chegou a jogar pelo Atlético Junior de Barranquilla, time colombiano, situação a que se refere Gabriel García Márquez neste texto publicado inicialmente em junho de 1951 no jornal El Heraldo, de Barranquilla e depois compilado para Obra jornalística - volume 1, antologia publicada pela Editora Record em 2006. Em 2011, o diretor José Henrique Fonseca produziu um filme que reconta a vida do jogador; o filme foi estrelado por Rodrigo Santoro no papel principal.

O fantástico universo literário de Aldo Lopes

Por Thiago Gonzaga




A literatura não é outra coisa além de um sonho dirigido
Jorge Luis Borges

Freud disse certa vez: “seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta/romancista já passou por ele antes de mim”. O pai da psicanálise não criou apenas uma bela frase, ele defendia os escritores criativos em geral, e enfatizava que eles tinham acesso a fontes que ele próprio ainda desconhecia, e que ainda não eram acessíveis à ciência, e que estes sabiam, muito antes dele, todos os modos possíveis do funcionamento mental.

Retomo essa frase filosófica de Freud depois de ter lido o romance A Dançarina e o Coronel do escritor “potiparaibano” Aldo Lopes, nascido na Paraíba , mas radicado no Rio Grande do Norte, há  mais de dez anos, inclusive vencedor de um Prêmio Câmara Cascudo, com um dos melhores romances publicados em solo potiguar neste início de século, O Dia dos Cachorros.

Porém, de onde ele é, é o que menos importa; o que importa é que Aldo Lopes é um escritor do Nordeste, um escritor do Brasil e um escritor universal. Aldo Lopes consegue  no seu novo livro uma fusão do mágico com o real, em uma escrita simples e ao mesmo tempo deslumbrante, numa junção do natural ao sobrenatural - uma escrita muito parecida com a vertente da literatura denominada  Realismo Mágico.

Um dos movimentos literários mais importantes do século 20, o Realismo Mágico colocou a América Latina no mapa mundial da literatura. Com elementos fantásticos em histórias cotidianas, ganhou projeção internacional principalmente na década de 60, destacando-se com a obra Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez.  Embora Jorge Luis Borges não seja considerado dessa linha, é sabido que ele foi um dos primeiros a escrever sobre o tema nos anos 30.

A narrativa de Aldo Lopes já começa de forma inteligente com uma epígrafe de prender qualquer leitor que venha a abrir o livro:  nela fica subentendido que foi o falecido avô dele quem contou as histórias  que compõem o  enredo de A Dançarina e o Coronel,  tendo a cidade de Princesa como cenário. Uma série de histórias acontecem,  misturando  vários personagens, em situações poéticas umas, cômicas outras  e que podem inclusive ser lidas em capítulos de forma isolada. Há uma variedade de tipos humanos, como o fotógrafo, o cigano, o mágico, o atirador de facas, o dono do circo, o juiz, o coreano, o coronel. A personagem principal, Mara Rúbia, enfeitiça a todos. Por falar em nomes, os nomes dos personagens deste romance dariam um belo estudo.

Tudo decorre numa narrativa dinâmica, que inclui também expressões orais populares do Nordeste, especialmente do lugar sentimental de Aldo Lopes, a terra de Princesa. O Rio Grande do Norte aparece numa passagem em que alguns personagens vão em direção a Mossoró “pela rota do sol e do sal”.

Aldo Lopes, com o seu modo de narrar,  envolve todas as dimensões da imaginação, misturando sonho, magia e cotidiano. Ele  trabalha com várias noções do real e do maravilhoso, e o faz com identidade e estilo próprio, procedendo uma junção de aspectos multiculturais. Impressionante  como o escritor  coloca bem as figuras de linguagem. Metáforas, hipérboles são usadas de forma muito inteligente.

Aldo Lopes contribui bastante para tirar o romance atual dessa crise de aparente falta de criatividade. Na sua obra existe uma  força fabuladora, que conquista o leitor e deixa o desejo de reler.

É uma espécie de literatura que explora a riqueza da narração oral,  numa escrita refinada de par com uma certa  experimentação verbal. E assim resgata características da sabedoria popular, em que o conteúdo mágico não se dá apenas sob este aspecto, mas pela própria mágica de contar a história.

Uma pena que o Brasil entrou tarde no Realismo Mágico, e não se beneficiou tanto deste movimento; sem contar os precursores J.J. Veiga e Murilo Rubião, talvez apenas Guimarães Rosa refletiu em sua obra traços e  características parecidos com os desse boom latino-americano. No Rio Grande do Norte ao que parece somente o escritor Nilson Patriota com o romance Um Gosto Amargo de Fim fez jus ao movimento.

O Realismo Mágico - devemos ressaltar - não é apenas uma literatura latino- americana, é universal.

A literatura potiguar, na atualidade, tem muitas marcas. Porém, a de Aldo Lopes destaca-se, com a sua capacidade fabuladora, inventiva, tentando dar um novo vigor às letras.

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Thiago Gonzaga é colunista no Letras in.verso e re.verso. Nasceu em Natal, é graduado em Letras e especialista em Literatura Potiguar pela UFRN. Autor dos livros Nei Leandro de Castro 50: anos de atividades literárias e Literatura Etc. Conversas com Manoel Onofre Jr. Dentre os vários trabalhos inéditos que possui destacam-se Novos Contistas Potiguares e Personalidades Literárias do RN. Como pesquisador da literatura do estado criou o Blog 101 livros do RN (que você precisa ler), com interesse por autores e livros locais sob diversos aspectos.