terça-feira, 17 de junho de 2014

Zico, Zeffirelli e a energia abandonada

Por Antonio Callado



Está bem arraigada no espírito da gente a ideia de que permitimos que se separasse, em nossa cultura, o físico do espiritual. A imagem que nos obceca – aparentada à do paraíso perdido ou a de alguma fazenda em que tenhamos passado a infância – é a das antigas olimpíadas, em que a poesia e os cânticos se misturavam às competições. Sófocles, como lutador, era muito bom no ringue. E era dançarino. Liderou em 480 a.C. o coro que celebrou a vitória de Atenas contra os persas. Era então um jovem atleta. Desfilou pelado.

No entanto, reconhecidas as diferenças, surge uma suspeita. A de que se os intelectuais e artistas perderam, por preguiça, contato com o mundo dos músculos e do esforço físico, os atletas continuam ligados ao mundo da emoção e do esforço mental, mesmo em pleno reino do profissionalismo.

Vejam o futebol. As imagens da Copa estão ainda com a gente. Tanto as equipes modestas – a de Honduras, por exemplo, ou a dos Camarões, – como as da França ou da Alemanha entravam em campo tensas, graves. Frequentemente jogadores saíam do gramado furiosos, ou cabisbaixos ou chorando sem pejo. É que todos, sem exceção, tinham se preparado exclusivamente para a glória, a apoteose. Não por soberba ou convencimento. Por terem cumprido e sobrevivido a meses de disciplina, de ascese. Aquela rapaziada natural e saudável vinha de privações e provocações. Treino tão duro e tão constante só tinha sido possível porque todos estavam certos de chegar à revelação. Um nadador leva meses e até anos dentro d’água, de um lado para outro, com o único intuito de subtrair um meio segundo no tempo levado para ir dum lado a outro da piscina. Mas pelo menos sabe que a raiva de perder, ou a glória, dependem dele próprio. O jogador de futebol, além de passar meses acertando uma jogada, tem de pensar no outro, nos companheiros de equipe. Para nem falar no outro time.

Eu sou Flamengo, e, portanto, Zico é meu guru. No campeonato deste ano (1982) o Flamengo só ganhou do Esporte de Recife, no Maracanã, pelo pálido placar de 2 a 0. Foi vaiado pela galera, que queria uma goleada. Zico, paciente e sábio, declarou: “Temos que levar em conta que diante de nós estão 11 jogadores, também dispostos a ganhar”. Era Zico como eco, irmão de Sartre:  “O inferno são os outros”.

E se ainda fosse necessário mostrar como em jogos e competições se queima energia espiritual e força artística, bastaria citar a carta que outro dia Franco Zeffirelli escreveu a Time, depois de ler a história de capa que essa revista publicou sobre a Copa do Mundo. Zeffirelli – que protestou contra a insistência da revista na brutalidade e na técnica defensiva dos italianos e nas “lendas da magia brasileira” – disse que o “futebol há muito se impôs como uma das mais notáveis formas de arte popular do século e o desempenho de nossos magníficos jogadores italianos nas finais teve uma qualidade artística comparável à mais alta do teatro e do cinema contemporâneos”.

Por tudo isso – pela arte, pela graça e sobretudo pela ascese quase monástica que exige – o futebol fascina e intriga quando surge em sua mais esplêndida forma (Zeffirelli que me desculpe) exatamente num país ainda tão incerto de si mesmo, tão confuso como o Brasil. Augusto dos Anjos, num verso estranho, ouviu um dia “o choro da energia abandonada”. Deve ser a energia que só sabemos usar quando disciplinados por regras austeras como as do futebol, férreas, sagradas, que ninguém altera ou muda antes ou depois do jogo.


* Antonio Callado, jornalista e escritor, autor de Quarup, Bar Don Juan, A Revolta da Cachaça e outras obras.

Copa do Mundo de Literatura



Sim, o futebol, tema que vimos perscrutando em alguns nomes da literatura nacional e estrangeira num conjunto de compilações que tem circulado por aqui quase que diariamente nesse período de Mundial, pode ser um elemento e tanto para falar sobre literatura! Publicação do caderno “Galeria” do jornal A Tribuna, de Santos, nosso colunista Alfredo Monte trouxe a magnífica ideia de uma listinha básica com dicas literárias de países que estão na Copa do Mundo. Ao invés de um embate para no final sair um ganhador, todos os citados são ganhadores e merecem, certamente a atenção dos leitores.

“Infelizmente, não é possível estabelecer uma relação de igualdade entre as produções literárias dos países participantes da Copa por uma razão muito simples: a lacuna nas traduções. Nenhum escritor de Camarões (Grupo A), da Costa do Marfim (C), sequer da Costa Rica (D), ou do Equador e Honduras (o que desfalca muito o grupo E), e olhe que são países do nosso continente, falantes de uma língua-irmã” – esclarece Alfredo sobre a lista ora apresentada. “E por que será que nunca pude ler nenhum autor contemporâneo do Irã (F), em versão brasileira, fato inexplicável: países em ebulição social e política invariavelmente apresentam vigor literário (caso, também, da Bósnia). No G, estou em falta com Gana; no H, com a Coréia do Sul (no entanto, é bom lembrar que um dos favoritos ao Nobel nos últimos anos é o poeta Ko Un). Ao todo, nove países que entram em campo em total desvantagem. Chamando a atenção para esse grave e lastimável fato, abaixo vai uma dica literária (com o perdão dos comentários forçosamente genéricos) dos demais países:

GRUPO A

Salim Miguel

Brasil – Um dos nossos grandes veteranos da ficção, Salim Miguel, comemora 90 anos em 2014. Ele voltou a produzir romances em 1984, as manifestações pelas “Diretas Já” parecem ter desentravado A Voz Submersa (Record), que aproveitou um dos crimes da época da ditadura como gancho e tornou-se o primeiro título de sua prolífica fase madura (a escolha de alguém nascido no Líbano também tem a ver com a vocação do nosso país de receber imigrantes, tão malbaratada às vezes);

México – Este é o ano do centenário do múltiplo Octavio Paz. O leitor brasileiro pode apreciar a nova edição (Cosac Naify) de uma das obras principais do Nobel 1990: O Labirinto Da Solidão (1950), reflexão fundamental que está para o seu país como Casa grande e senzala para o nosso;

Croácia – Na complicada geopolítica da ex-Iugoslávia, o croata Ivo Andrić, Nobel 1961 (também escreveu em sérvio), se destaca. Uma boa amostra da sua arte de contar histórias, oferecendo uma paisagem humana labiríntica, com o conflito étnico sempre aflorando, é a coletânea Café Titanic (Globo).

GRUPO B

Alejandro Zambra


Holanda – Um romance de grande transparência, nem por isso deixando de ser crítico e inteligente (é como se juntasse Deus da carnificina com Precisamos falar sobre Kevin), e que vem fazendo um inesperado sucesso, é O Jantar (Intrínseca), de Herman Koch, cuja narrativa acompanha justamente as etapas de um encontro social entre irmãos (o aperitivo, a entrada, o prato principal, a sobremesa) num restaurante de reservas disputadíssimas para mostrar a melindrosa questão da responsabilidade ética sobre a próxima geração;

Chile – Um dos melhores livros do século até agora, Formas De Voltar Para Casa (Cosac Naify) mostra que Alejandro Zambra atingiu a maturidade na sua arte: se nos livros anteriores, ele descambava, apesar da qualidade do texto, para uma cansativa metalinguagem, aqui ele apresenta contrastes entre a geração dos seus pais e a sua de uma forma magistral, fazendo a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados, até nos terremotos que comumente abalam a nação chilena;

Austrália – O país continental tem seu Nobel (Patrick White, em 1973, contudo esse genial romancista mal foi traduzido por aqui). Em compensação, Colleen McCullough ficou famosa como Best-seller, boa parte da crítica torce o nariz para ela. Nem por isso é menos verdade que Pássaros feridos (1977) é poderoso (até nos aspectos folhetinescos) ou que sua série Senhores de Roma seja notável. O romance que a inicia (em 1990), Primeiro Homem de Roma (Bertrand), é um dos melhores romances históricos já escritos;

Espanha – Um dos escritores marcantes da atualidade é Javier Cercas, cujos livros são mesclas fascinantes de reconstituições histórico-jornalísticas e de reflexão sobre sua elaboração narrativa. São livros “fronteiriços”, e uma boa síntese desse movimento pendular é As Leis Da Fronteira (Biblioteca Azul), que mistura a passagem da adolescência para o mundo adulto com o período de transição do franquismo para a democracia;

GRUPO C

Alvaro Mutis

Colômbia – país que perdeu em curto intervalo de tempo seus dois maiores escritores. Um já é sobejamente reconhecido (García Márquez); o outro, merecia mais notoriedade: Alvaro Mutis. Que tal começar com o maravilhoso A Neve Do Almirante (Record), de 1986, no qual, como já se disse, o protagonista (um marinheiro) “viaja pela paisagem humana”?;

Japão – Uma autora atual talentosa, num país de riquíssima literatura, é Hiromi Kawakami. Um exemplo é Quinquilharias Nakano (Estação Liberdade), de 2005, onde vemos claramente que as relações de trabalho muitas vezes impõe a trajetória dos nossos afetos, criando ligações, lealdades e pequenas intrigas, pois formam o horizonte da maior parte das vidas humanas;

Grécia – O leitor brasileiro agora tem a sorte de ter as obras do fantástico Nikos Kazantzakis traduzidas diretamente do idioma original (pela editora Grua): assim, além da nova versão do livro que o tornou mundialmente conhecido, Vida e proezas de Alexis Zorba, posso recomendar enfaticamente o monumental Capitão Miháelis, com sua Creta sob a opressão turca;


GRUPO D


Claudio Magris

Itália – Candidato eterno ao Nobel, Claudio Magris é outro caso de escritor plural e quase inclassificável. Um de seus títulos mais lindos é Alfabetos (traduzido pela editora da UFPR), de 2008, em que ele mistura crítica literária, ensaística e memorialismo, ressaltando sua formação de leitor. E que leitor! Vale por todos os cursos de letras que se possa pensar;

Inglaterra – A pátria em que melhor floresceu a ficção policial tem uma genial representante neste século XXI: Kate Atkinson, com sua série em que Jackson Brodie, relutante detetive particular enfrenta tramas intrincadas que brincam com o destino e a tragédia. A Fundamento lançou recentemente o perturbador Saí Cedo, Levei Meu Cachorro (2010), quarta aventura de Brodie;

Uruguai – Além de ser um gênio da literatura (é o Samuel Beckett latino-americano), Juan Carlos Onetti tem uma de suas obras-primas chegando ao meio-século este ano: Junta-Cadáveres (Planeta) — ótima, embora desassossegante introdução ao anti-universo recorrente de Santa María e seu principal personagem, Larsen (que aparece em vários outros textos);

GRUPO E



Jean Paul-Sartre

Suíça – Que escritor pode melhor representar a estranha nação que junta a ideia de civilização com uma espécie de cinismo institucionalizado do que Friedrich Dürrenmatt, com suas peças e narrativas cujo eixo sempre perfaz uma parábola jurídica implacável ? Exemplo: O Juiz E Seu Carrasco (L&PM), de 1950, um jogo de gato e rato entre policiais e um poderoso criminoso. No final saímos com a impressão de que todos são culpados;

França – Há 50 anos, Sartre ganhava (e recusava) o Nobel. Em 2014, a L&PM lança a derradeira, inacabada e avassaladora obra do último dos mestres franceses do pensamento, da literatura e da vida: O Idiota Da Família (1972), estudo sobre Flaubert que, no fundo, é a tentativa monstruosa de compreender (e explicar) até o último limite do conhecimento a vida de um indivíduo;

GRUPO F


Chinua Achebe

Argentina – Dois dos maiores escritores argentinos têm seu centenário comemorado em 2014: Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. No ano passado, um dos títulos cortazarianos centrais, O Jogo Da Amarelinha ganhou nova edição (Civilização Brasileira), comemorativa do seu cinquentenário, e a Cosac Naify vem lançando títulos do parceiro de Borges, como suas requintadas e ambíguas histórias de amor e amizade conspiratórios: Histórias Fantásticas. Ambos são autores para se levar para a proverbial ilha deserta;

Nigéria – Precisávamos de mais títulos traduzidos do Nobel (1986) Wole Soyinka (há O leão e a joia, bela peça teatral). Mas pelo menos agora já temos traduções dos geniais romances de Chinua Achebe, como O Mundo Se Despedaça (Companhia das Letras), de 1958, com sua caracterização estupenda do conflito de gerações, mentalidades, etnias, que descortinam os trágicos processos históricos que assolaram muitos dos países do continente africano;

GRUPO G


Agustina Bessa-Luís

Alemanha – Quando se lê Pontos De Vista De Um Palhaço (Estação Liberdade), de 1963, a impressão é de que Heinrich Böll (Nobel 1972) é um escritor de agora, um jovem que poderia estar participando de manifestações, tal a garra, a verve, a raiva, a energia e a atualidade da narrativa. O protagonista, palhaço de profissão, se desavém com todos à sua volta, mas não com o leitor. Uma obra-prima;

Estados Unidos – Este ano temos o centenário do grande escritor negro Ralph Ellison, e sua maior obra, um romance que mostra a condição da raça negra na sociedade norte-americana de forma definitiva, e ainda assim, é um livro fortemente experimental, livre de amarras, ganhou nova edição brasileira pela José Olympio: O Homem Invisível, de 1952.

Portugal – A atual safra de escritores portugueses talvez seja a mais pujante do cenário atual. Ainda assim, reservo este espaço para comemorar os 50 anos de um dos maiores livros da originalíssima Agustina Bessa-Luís, autora que não se parece com nenhum outro escritor, sempre criando mundos históricos muito particulares: Os Quatro Rios, primeiro volume da trilogia “As relações humanas”;

GRUPO H


Albert Camus

Argélia – Será impertinência destacar um autor que nasceu no país, mas oriundo dos povos colonizadores? Como, contudo, em 2013 tivemos o centenário de Albert Camus, não custa insistir que o Nobel 1957 escreveu alguns dos livros essenciais do século passado. A Hedra acaba de publicar seus preciosíssimos Cadernos em três volumes: “Esperança do Mundo” (1935-37), “A desmedida na medida” (1937-39), “A guerra começou, onde está a guerra?” (1939-42), que antecedem sua vida de celebridade;

Bélgica – Como deixar de destacar um dos escritores que melhor aclimataram tramas mitológicas numa prosa moderna (e muito marcada pela psicanálise, mas sem ser subserviente a ela): Henry Bauchau, autor de Édipo Na Estrada (Lacerda)? É um on the road no inconsciente;

Rússia – Quando será que vão esquecer de Alejander Soljenítsin (Nobel 1970) como dissidente, o homem que denunciou os gulags soviéticos, e começar a valorizar sua obra literária, seu fôlego como romancista (Agosto 1914 é um grande momento do gênero) e o fato de ter escrito uma das novelas mais perfeitas de todos os tempos, Um Dia Na Vida De Ivan Denissovitch (Siciliano)?


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Alfredo Monte é professor e leitor, as duas grandes atividades da sua existência. Tem doutorado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, desde outubro de 2002, com uma tese sobre a obra de Autran Dourado. Desde 11 de abril de 1993, mantém uma coluna semanal no Galeria do jornal A Tribuna de Santos. Volta e meia publica na Folha de S. Paulo. Mantém o blog Monte de Leituras dedicado exclusivamente a comentários sobre as obras que vai lendo e agora integra o corpo de colunistas do Letras in.verso e re.verso.

Em “Fazenda Modelo” ele deu nome aos bois


Por Dirceu Alves Jr

“De cada três músicas que faço, duas são censuradas. De tanto ser censurado, está ocorrendo comigo um processo inquietante. Eu estou começando a me autocensurar. E isso é péssimo.” Em desabafo publicado na imprensa no início dos anos 70, Chico Buarque assumiu que não estava tão imune ao objetivo da ditadura militar – o de calar ou, pelo menos, inibir a criatividade do artista. Depois de 14 meses de exílio na Itália, entre 1969 e 1970, o compositor reencontrou o Brasil no auge da repressão com o governo de Emílio Garrastazu Médice (1969-1974). O veto ao samba “Apesar de você” inaugurou uma sequência aparentemente infindável e, mesmo que o álbum seguinte, Construção (1971), tenha saído sob a condição de que Chico alterasse alguns versos, o compositor sentiu a necessidade de ares menos viciados para respirar. Procurou driblar a birra dos homens de farda no teatro, criando ao lado do cineasta Ruy Guerra o musical Calabaro elogio da traição. Às vésperas da estreia, em novembro de 1973, os censores voltaram atrás da liberação, e a produção foi abortada, deixando mais de 60 pessoas desempregadas.

Depois de gravar Chico canta (1973), com a trilha sonora feita para Calabar, o compositor ausentou-se dos estúdios e dos palcos. Rompeu contratos musicais para, durante nove meses, mergulhar em outra forma de expressão, até então inédita em sua trajetória: a literatura. Na biografia para a coleção Perfis do Rio, escrita pela jornalista Regina Zappa em 1999, Chico confessa que não sabe exatamente onde surgem as ideias que começam a pavimentar um livro. No caso de Fazendo Modelo, novela pecuária, a obra inaugural dessa verve de romancista, publicada em 1974, ele, no fundo, sabia. “Eu escrevi não por uma necessidade literária, mas política”, assumiu posteriormente.

Chico Buarque ao lado de Gilberto Gil durante a Passeata dos Cem Mil. Foto: David Drew Zingg


O prefácio já evidencia as ironias dali em diante: “O autor não é, como poderia parecer aos menos avisados, um pecuarista tradicional,nem um zootecnista, nem sequer um executivo ou proprietário de empresa dado a pesquisas e reflexões. Trata-se de um estudioso, descendente de uma família cujos membros granjearam o merecido prestígio no meio intelectual da Fazenda Modelo”. Na figura desse prefaciador fictício, Chico Buarque deixava claro que sua Fazenda Modelo era o microcosmo do Brasil naquele momento. O livro mostra uma sociedade forma exclusivamente por quadrúpedes, no caso bois e vacas. A dominação sobre o rebanho é representada ela figura de um líder, Juvenal, o Bom. Comunidade bovina em fase de crescimento, a Fazenda Modelo percebe ecos de desenvolvimento, obrigando-se a eliminar tudo o que era natural e poderia colocar em risco esse progresso. A submissão imposta ao gado atinge desde restrições alimentares até limitar as atividades sexuais à procriação, criando um banco de espermas.

Figura-chave dessa proposta de Juvenal,o Bom é o touro Abá. Até então sempre visto copulando diante de todos, ao ar livre, com as mais diversas parceiras, ele é promovido à figura de grande reprodutor e peça-chave do projeto desenvolvimentista. A paisagem de um território livre e habitado por um gado sexualmente livre começa a ficar para trás. O que era prazer vira obrigação, dever. E, depois de saciar o desejo de uma vaca, Abá tinha outra à espera. Logo em seguida, uma terceira e mais outra e a fila não acaba. A qualidade de seus espermatozoides orgulha a Fazenda Modelo e, em decorrência da intensa atividade, sua energia começa a escassear. Mesmo diante da queda do apetite sexual, o touro garanhão não ganha trégua. Os exploradores coletam seu sêmen de formas artificiais e, já pensando em aposentar o reprodutor-mor, investem em uma de suas crias, Lubino, embutindo em sua cabeça a honra de suceder o pai na missão tão gloriosa.

Chico uso o universo pecuário para esmiuçar questões do país que completava uma década sob os efeitos do golpe de 1964. O chamado milagre econômico, então no auge, possibilitava aos brasileiros sonhar com bens de consumo, casa própria e a ideia de que aqui era realmente “o país do futuro”. Assim como o ego inflado de Abá, que esbanjando virilidade submetia-se a mais e mais ejaculações, o povo brasileiro pensava que, naquela trilha, um dia estaria entre os grandes. “Achou ruim? Nem adianta fazer barulho que é pior!” Assim Juvenal repreendia o gado enfastiado de tanto dar e pouco receber. Em uma analogia ao brasileiro, já cansado de lutar por ideias e sofrer decepções, o rebanho é dominado pela tristeza e insatisfação. E povo desanimado não produz, ameaçando o sistema se este não encontrar uma forma de se readaptar em nome da permanência no poder.

Duas primeiras edições de Fazenda Modelo


Na época do lançamento de Fazenda Modelo, novela pecuária foi associada ao livro A revolução dos bichos (1945), do autor inglês George Orwell. Essa fábula apresenta um grupo de animais que, livro do algoz, cria as próprias leis de convivência. Em uma entrevista ao jornal Pasquim, Chico Buarque desviou-se da polemica declarando que nem conhecida esse texto do célebre autor de 1984. Para a ensaísta e doutora em Literatura Regina Zilberman, a associação é inevitável, mas em momento algum um problema. “Qualquer narrativa com pendor à fábula – e isso acontece desde a Antiguidade – apresenta semelhanças entre si. A revolução dos bichos constitui uma crítica à revolução soviética e ao tipo de exercício de poder entre os pretensamente iguais. Fazenda modelo critica outra revolução, a econômica, calcada no exemplo da produtividade, instaurada pelo Estado brasileiro à época da dominação dos militares e, sobretudo, dos planejadores de plantão”, afirma Regina Zilberman.

Na tentativa de mostrar aos leitores que não existe mal eterno, Chico Buarque termina sua novela decretando o fracasso do programa imposto por Juvenal e a tentativa de visualizar outras formas de lucro. Depois da posse do presidente Ernesto Geisel (1974-1979) e o início da chamada “distensão lenta e gradual”, militares obrigaram-se a baixar minimamente a aguarda em nome da garantia do poder por mais tempo. Premonitório ou alentador, Chico Buarque injeta um pouco de otimismo aos leitores e em sua própria alma de artista.  Encontra fôlego para voltar aos estúdios, grava um disco de intérprete batizado de Sinal fechado e retoma o teatro no musical Gota d’Água.

Chico deixou Fazenda Modelo, novela pecuária como um livro que talvez não tenha sido plenamente valorizado. Diante dos novos tempos políticos e talvez ciente da importância de fazer literatura por necessidade artística e não apenas circunstancial, o autor voltaria às narrativas de maior fôlego apenas, em 1991. Na esteira deste seu revival como escritor, Fazenda Modelo volta às prateleiras das livrarias como um clássico. Desde 1992 foram publicadas 17 edições, totalizando cerca de 43 mil exemplares vendidos.

Abaixo um breve catálogo com rascunhos de Fazenda Modelo






* Texto publicado inicialmente numa edição especial da extinta Revista Bravo! dedicada a Chico Buarque.