sábado, 14 de junho de 2014

O futebol não preenche coisa nenhuma*

Por Graciliano Ramos

© Elton Manganelli

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. 

É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idéia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos. 

Muito melhor é ser-se dono de um braço capaz de rebentar um contendor, se ele é fraco, ou de uma perna suficientemente ágil para fugir, numa velocidade de léguas por minuto,se o inimigo é forte.

Ora, no estado em que nos encontramos, não só não temos energia para atacar ninguém, mas falta-nos até o vigor necessário para recuar. O que é comum é conservar-se um pobre diabo num lamentável estado de inércia, a sofrer tormentos com resignação, coragem, se quiserem, mas coragem negativa, que muitas vezes não é mais que inaptidão para evitar o perigo.

Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes - uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: "Me deixa..." 

Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou.

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. 

Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. 

O direito é bonito. E é só o que é, segundo penso. Mas a força é útil.

A paz de Santo Wilson, apóstolo decadente e mártir risonho, abriu falência. Venceu a paz francesa, de mandíbulas agressivas e caninos à mostra, pronta a estranhar a terra germânica.

Se voltarmos o olhar para baixo, para o microcosmo social em que vivemos, é o mesmo fenômeno. A razão está sempre ao lado de quem tem rijeza.

Ora entre nós é extremamente difícil encontrar um homem forte. Somos um povo derreada. Topamos a cada passo seres volumosos, mas raramente se nos depara uma criatura sã, robusta. O que anda em redor de nós é gente que tropeça, gente que corcova, gente que arfa ao peso da barriga cheia de unto. É andar um quilômetro a pé e ficar deitando a alma pela boca.

Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.

O futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído.

Os campeões brasileiros não teriam feito a figura trise que fizeram em Antuerpia se a bola figurasse nos programas das Olimpíadas e estivessem a disputá-la quatro sujeitos de pulso. Apenas um representante nosso conseguiu ali distinguir-se, no tiro de revólver, o que é pouco lisonjeiro para a vaidade de um país em que se fala tanto. Aqui seria muito mais fácil o indivíduo salientar-se no tiro de espingarda umbiguda, emboscado atrás de um pau.

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? 

O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. 

As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. 

Nas cidades assiste-se, cochilando, à representação de peças que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre nós há criaturas que nunca viram um gringo.

Nas cidades há o maxixe, o tango, o fox-trot, o one-step e outras danças de nomes atrapalhados; nós ainda dançamos samba.

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro - e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.


* O título deste texto é uma atribuição nossa tomando de uma passagem do texto. Na versão original ele é apresentado sem um designativo. Assinado com o pseudônimo de J. Calisto, a crônica foi publicada pela primeira vez numa coluna alimentada por Graciliano Ramos chamada "Traços a esmo", no jornal O Índio, no dia 10 de abril de 1921.


Boletim Letras 360º #67

Traços para O jogo da amarelinha por Celeste Ciafarone. Novidades
sobre a série de imagens para o romance de Julio Cortázar ao longo
deste Boletim. 

O Brasil começou bem a Copa do Mundo de 2014. Nós também. Abrimos uma série de publicações extras por aqui e nas redes sociais do Letras sobre o tema Literatura e Futebol. Por "Gol de letra" passarão muitos e significativos nomes da literatura nacional e estrangeira que deram pulsão a ideia de que o Futebol pode, sim, servir de tema e matéria para a Literatura. E mais: no dia de abertura do Mundial, disponibilizamos aos leitores a tão devida promoção; correrá todo o mês de junho e sorteará não um, nem dois, nem três livros, mas kits muito bacanas! Bom, não dá para perder nada, não é? Nem isso, nem o que foi notícia durante a semana na página do blog no Facebook. Vê só!


Segunda-feira, 09/06

>>> Brasil: Bolaño inédito

2014 marca o aniversário de 10 anos de 2666 – o romance que tem desconcertado críticos e leitores. No Brasil a biblioteca do escritor chileno já soma 11 títulos. O 12º deve chegar também pela Companhia das Letras em 2015: a versão para El Gaucho Insufrible, um livro de contos que, assim como 2666 foi publicado postumamente.

>>> Brasil: Paul Auster autobiográfico

Próximo título do autor estadunidense Winter Journal, publicado em 2012 com o mesmo teor de A invenção da solidão do mesmo ano, tem previsão de chegada ao Brasil em setembro pela Companhia das Letras. É preciso dizer que, de lá para cá, Paul já publicou mais dois outros títulos: Report from the interior, continuação de Winter... e a compilação de cartas trocadas entre 2008 e 2011 com o Prêmio Nobel J. M. Coetzee, Here and Now (sobre a qual falamos neste espaço há algum tempo).


Terça-feira, 10/06

>>> Brasil: Reedição e inéditos de José Cândido de Carvalho

A obra de José Cândido de Carvalho, escritor cujo centenário é celebrado este ano, será reeditada. Agora, não mais pela José Olympio, mas pela Companhia das Letras. O texto mais conhecido do autor, O coronel e o lobisomem, que chega aos cinquenta anos agora, terá reedição ainda até o fim de 2014. Além disso, está previsto duas coletâneas de textos: Um ninho e Porque Lulu – para 2015; e uma antologia de crônicas, - para 2016. Olha para o céu, Frederico, seleção de perfis jornalísticos e o primeiro livro do escritor deve ser publicado no formato de e-book. Nesse rol de novidades, os herdeiros de José Cândido querem publicar também O rei Baltazar, inédito e inacabado do autor.

>>> França: Os inéditos de Marguerite Duras

Chegam mais inéditos Marguerite Duras; autora de 50 romances, no fim de maio chegaram os dois últimos volumes da obra completa da escritora (são quatro no total), que incluem romances famosos como Os olhos verdes, trabalhos inacabados e trechos de livros nunca publicados. O primeiro tomo abrange o período que vai de 1974 a 1984, marcado por livros curtos, nem sempre bem aceitos pelo público.  Editou-se também uma série de entrevistas inéditas (incluindo uma conversa com Raymond Queneau sobre a importância dos textos não publicados na obra de um autor) e um conto desconhecido – “Elle nous abandonna pour les mathématiques”, sobre uma mulher nascida cega, surda e muda, que se isola em um mundo paralelo dominado por números. Aqui, outra novidade é o resgate de uma primeira versão de Moderato Cantabile, considerada perdida. O quarto volume traz trabalhos escritos entre 1985-1995. Também pela Gallimard sai o inédito Le livre dit que traz uma transcrição do documentário Duras filme, dirigido pelo filho da escritora, Jean Mascolo, em 1981. Durante quatro dias, Mascolo acompanhou a mãe enquanto ela filmava o longa Agatha et les lectures limités, na Normandia. No texto, Duras expõe sua relação com o cinema e a escrita e fala sobre sua paixão por Yann Andrea, seu último marido, que acabara de mudar para sua casa. O filme de Mascolo nunca foi terminado.


Quarta-feira, 11/06

>>> Inglaterra: A não-arte de Rembrandt ou um quadro de 112 milhões

Rejeitado por especialistas como uma cópia de Rembrandt a tela ficou num depósito do National Trust, na Inglaterra desde em 2010. Três anos mais tarde, um estudo realizado pelo maior conhecedor sobre a obra do pintor no mundo, Ernst van de Wetering, afirmou que se tratava de uma tela autêntica. Agora, veio a confirmação científica: o autorretrato de 1636 é sim do mestre alemão. O debate sobre a autenticidade da obra rola de 1968 quando cópia produzida por alunos de Rembrandt. O autorretrato de Rembrandt entrará em exibição na abadia de Buckland, em Devon.

>>> Brasil: Reedição de A besta humana chega em breve

O clássico do francês Émile Zola, publicado em 1890, passa a integrar a coleção de clássicos comentados da Editora Zahar. Traduzido, apresentado e comentado por Jorge Bastos, a edição que figurará entre as edições capa dura de Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo e Os Maias, de Eça de Queiroz, com ilustrações de uma edição francesa de 1906.

>>> Chile: Os 100 anos de Nicanor Parra

O Chile recebe em agosto a exposição “Parra 100”, em homenagem a um dos principais nomes de sua literatura. Produzida a partir de um grande acervo descoberto em 2010 por Cristóbal Ugarte, neto de Nicanor Parra, a exposição também será a oportunidade para apresentação da biografia visual Parra à vista. Em meio as celebrações pelo centenário de Parra é apresentado ainda uma obra inédita, Temporal, escrita nos anos 1980, e de uma edição comemorativa pelos 60 anos de Poemas e antipoemas, livro-chave em sua carreira.

>>> Portugal: Uma edição especial de Blimunda

Desde a elaboração da ideia, a publicação da primeira edição e os números mensais da revista Blimunda que acompanhamos as novidades acerca da revista. Vejam, pois mais esta: no mês em que o periódico da Fundação José Saramago chega a dois anos e assinalando a passagem dos 4 anos sobre a morte do escritor português, uma edição impressa da revista. O conteúdo recupera textos publicados nas anteriores 24 edições, aos quais se junta um artigo inédito. A partir do dia 20 de junho a revista estará disponível nas livrarias portuguesas bem como na livraria/loja da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos.


Quinta-feira, 12/06

>>> Brasil: Machado de Assis por inteiro

O Brasil é o país homenageado em 2015 no Salão do Livro de Paris. Para o evento, que tem lugar entre 20 e 23 de março do próximo ano, algumas editoras já fazem suas apostas: a obra de Machado de Assis receberá uma edição completa pela Nova Aguilar. Quatro volumes, cada um com cerca de 1500 páginas. Sem cortes e adequações indesejadas!

>>> Brasil: Uma das obras póstumas de Ernest Hemingway

Já tem algum tempo que Bertrand Brasil tem trabalhado numa caprichosa reedição da obra de Hemingway (sobre a qual temos acompanhado desde sempre). Depois de clássicos como O velho e o mar, Do outro lado rio, O sol também se levanta e de três volumes de contos chega às livrarias a obra póstuma As ilhas da corrente, eleita não é apenas a melhor depois da morte de Ernest Hemingway, mas um de seus grandes livros. Publicado pela primeira vez em 1970, nove anos após a morte do autor, narra as aventuras e as tragédias presentes em momentos cruciais da vida do pintor Thomas Hudson – um evidente alter ego hemingwayniano. Dividida em três partes, a obra pode ser vista tanto como uma reunião de novelas interligadas quanto como um romance fragmentado.


Sexta-feira, 13/06

>>> Brasil: Biografia de Torquato Neto 

Toninho Vaz autor de uma biografia sobre Paulo Leminski, poeta que recebeu recentemente outra leitura de sua vida pela obra de Domingos Pellegrini - sobre a qual anunciamos por aqui outro dia. Agora, o jornalista volta-se para a vida do poeta Torquato Neto. Toninho investiga ainda a própria obra a fim de compreender a geração da qual Torquato fez parte, a Tropicália. O livro é um retorno a biografia do poeta que antes já havia publicado Pra mim chega - biografia de Torquato Neto.

>>> Espanha: Ilustrações para O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar

Foi em 2013 que a obra clássica do escritor passou pelos primeiros cinquenta anos de existência - e muito que falamos sobre por aqui e nas redes do Letras. Mas, em agosto próximo é próprio Julio que chega aos 100 anos. Voltemos às homenagens! No Tumblr do Letras deixamos um conjunto de imagens produzidas pela artista plástica da Argentina Celeste Ciafarone. Trata-se do projeto "Print making project – Rayuela". 


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