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Mostrando postagens de Junho 11, 2014

Gol de padre*

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Por Sérgio Porto



Da janela eu vejo os garotos no pátio do colégio durante o recreio. Sempre me dá uma certa saudade, porque eu já fui menino. Aliás, embora pareça incrível, até mesmo as mais importantes pessoas do nosso país já foram crianças. O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente, quando a gente fica adulta. Pobre daquele que abdicar completamente de gostos infantis. Ficará velho muito mais depressa. O menino que a pessoa conversa em si é um obstáculo no caminho da velhice.
Dizem até que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam a hábito de soltar pipas mesmo depois de homens feitos. Não sei se é verdade. Nunca fui chinês.
Mas, quando começa o recreio no colégio, da minha janela vejo o pátio e, quando a campainha toca, para o intervalo das aulas, paro de trabalhar e fico na janela, como se estivesse no recreio também.
Agora mesmo os meninos estão lá, saindo de todas as portas para o meio do pátio, onde um padre, com u…

Entre Shakespeare e a página policial

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Por Alfredo Monte


A editora 34 tem apresentado um catálogo notável de traduções de clássicos, incluindo nomes escassamente conhecidos pelos brasileiros, caso de Gottfried Keller (1819-1890) e Nikolai Leskov (1831-1895). No entanto, quando se estuda a história do “romance de formação”, o suíço invariavelmente é citado como aquele que escreveu a mais importante obra nessa vertente tão fundamental do gênero: O verde Heinrich (“verde” no sentido de imaturo, isto é, em formação); por seu lado, o responsável por uma maior divulgação, no Ocidente, do russo foi Walter Benjamin, por meio do seu citadíssimo “O narrador”, em que ele o toma como paradigma da atividade que dá título ao ensaio.
Keller e Leskov têm algo em comum (além da publicação pela 34): ambos “aclimataram” tragédias shakespearianas (ou melhor dizendo, personagens e situações que se tornaram definitivos nas tragédias do bardo inglês) para a realidade cotidiana de seus países. Se Shakespeare inventou o humano, como quer Harold Bl…