quarta-feira, 9 de abril de 2014

Autorretrato inédito de Ticiano



Barbudo e de perfil, com aproximadamente 85 anos, com o rosto marcado pelas rugas nas bochechas, na frente e ao redor da boca. Este é um autorretrato com o qual o grande pintor Ticiano Vecellio (Pieve di Cadore, 1477?1482 – Veneza, 1576) quis ser lembrado. Fez o desenho ao entardecer de sua existência e já muito enfermo, mas ainda capaz de colocar no papel sua extraordinária força expressiva. A humanidade herdou assim um pequeno esboço de apenas 12x10cm, só atribuído ao grande mestre há alguns anos. O trabalho foi colocado em exposição de uma única obra pela primeira vez no Museu Correr – Ticiano, um autorretrato. Problemas de autobiografia no arte ticianesca.

Aprendiz de Giovanni Bellini, pintor oficial da República Serena de Veneza, pintor preferido de Carlos V, retratista oficial de Felipe II, rei da Espanha, entre outras personagens. Ticiano era um grande pintor, mas também um hábil desenhista. Ou era melhor desenhista Michelangelo? É provável que Ticiano tenha vivido toda sua existência com essa pequena pedra no sapato.

O autorretrato acima exposto é a maior evidência de que o pequeno desenho é uma verdadeira obra de arte. E, além disso, fornece novas luzes para compreender melhor a trajetória artística de Ticiano, segundo a pesquisadora Luba Freedman, professora de arquitetura e belas artes na Universidade Hebraica de Jerusalém e autora de dois livros sobre o pintor. “Cheguei à conclusão de que este desenho é uma clara prova não apenas do aspecto físico do artista na velhice, mas também da reconhecível qualidade de sua arte. Sinto que envolve diversas mensagens enviadas pelo artista ancião a quem o observa”, escreve Freedman.

Além de Freedman, Jodi Cranston, professora de história da arte e arquitetura da Universidade de Boston, e Joanna Woods-Marsden, profesora de história da arte do Renascimento na Universidade da Califórnia, todas estudiosas que têm contribuído com leituras que apontam novas luzes no debate sobre a produção gráfica de Ticiano, o desenho é suficiente para justificar a presença do pintor entre os maiores expoentes da escola veneziana. E não é exagero: vendo o último ato do retratista e paisagista do Renascimento, o expectador curioso pode chegar a compreender que a verdadeira intenção de Ticiano, seguramente não era a de se autorretratar com os signos da velhice, buscava sim deixar uma imagem realista e ao mesmo tempo vibrante de um homem octogenário.

“Embora não gozasse de boa saúde, retrata com maestria sua própria imagem idealizada na pureza do contorno e realista na pureza dos detalhes desenhados no rosto ancião. O autorretrato contrapõe o espírito do gênio que nunca se dobrou ao envelhecimento. Sendo ancião segue sendo belo porque destaca a alma de mestre”, escreve Freedman.

O autorretrato foi descoberto ao acaso nos Estados Unidos em 2003, quando apareceu na capa da revista Estudios tizianescos e por muito tempo esteve atribuído a Giuseppe Porta Salviati. Em 2007, o pesquisador David Rosand outorgou a paternidade do desenho a Ticiano, hoje propriedade de uma coleção privada.

A técnica empregada por Ticiano em seu autorretrato póstumo reúne todo seu talento pictórico e gráfico. O busto toma por completo o papel, a cabeça ocupa um plano muito bem definido com linhas nítidas, entre as que destacam um pequeno gorro e nariz columbino. Por sua vez, a barba e o bigode ondulados dão movimento. Em segundo plano aparecem as pregas suaves de sua roupa. Utilizou fiz grosso e negro nos traços mais decididos e carbono nas linhas mais finas. Cabe perguntar-se por que Ticiano optou por um tamanho tão pequeno. Há quem sustém que era um presente enviado num sobre a Felipe II. Mas a verdadeira impulsão que moveu Ticiano foi silenciar as vozes errôneas que corriam na corte espanhola segundo as quais “era só capaz de pintar borrões”. Foi realizado em 1575, um ano antes de morrer em plena peste veneziana.

O velho mestre pressentia a morte, mas não a imortalidade.

* texto escrito a partir de "Un autorretrato de secreto de Tiziano ve la luz en Venecia, de Milena Fernández, publicado no jornal El País.