quinta-feira, 13 de março de 2014

Doze anos de escravidão, de Steve McQueen

Por Pedro Fernandes



O tema não é novo no cinema. E talvez não haja em meio algum nada de novo mesmo. O que se renova é o modo como os temas são tratados. No caso do filme de Steve McQueen, é a tentativa de dá continuidade em colocar sob a malha da história um fio muito saliente e silenciado pelos da situação nos Estados Unidos. Lá, mesmo tendo passado pela libertação dos escravos antes de colônias como o Brasil, o negro terá padecido de outros gestos de varredura para a margem da história muito mais graves e o Estado, alimentando-se de um ódio formado pela transformação no negro em qualquer coisa, deu parcelas volumosas para contribuição desse terror racista. Antes disso, a aprovação da liberdade aos negros, veio como produto de um conflito que dividiu o país.

Recentemente, mesmo, outras produções cinematográficas trouxeram o tema da escravidão e do horror ao negro, bem como esse processo de libertação: estão entre eles, Lincoln, de Steven Spielberg e Django livre, de Quentin Tarantino. Doze anos de escravidão recobra um romance escrito nos Estados Unidos há 160 anos e que por este ressentimento racista (muito provavelmente) foi colocado no porão do esquecimento.

A narrativa assume, assim, um poder realista ainda maior pelo caráter autobiográfico: seu autor, Solomon Northup, já negro liberto passou pela escravidão – conheceu, portanto os dois lados da situação. Este ponto de vista do livro é roubado pela adaptação devido o olhar perscrutador da câmera que acaba indo além do drama de Solomon; vê o modo de vida e o tratamento dado aos escravos nas fazendas de monocultura. Apresenta a escravidão como um modelo muito bem estruturado, mas baseado em dois discursos: o de superioridade da raça, o branco acima negro, e o religioso ancorado na bíblia, como um dos principais sustentadores do primeiro.

O instante da história em que se dá a narrativa recobra os primeiros momentos de levante dos negros contra os desmandos dos brancos. Usam, para isso, dos mesmos recursos dos brancos – em grande parte o discurso cristão, numa releitura a seu modo. Significativo aqui é a cena em que Solomon a mando de seu dono sai ao encontro de Patsey, a melhor escrava do grupo, e a encontra tomando chá com uma negra já bem colocada socialmente (devido a outros gestos além do trabalho braçal). Sra. Shaw (se a memória não me trai é este o nome da ex-escrava em questão) persuade Patsey de que o mando dos favores sexuais é também justificado pela narrativa bíblica como esforço para glória. 

Outra gênese apresentada nesse contexto é a da Black Music, a mesma que causará toda revolução na música estadunidense bem mais tarde. Este instante, aliás, é responsável pelos momentos mais maçantes do filme que faz, sim, uma boa leitura do livro de Northup, mas resolve preencher algumas lacunas e é aí que entram essas incursões pela música, fazendo disso um dos pontos baixos da narrativa cinematográfica.

O enredo é bastante simples, coisa que para o padrão hollywoodiano de fazer filme é capaz de tornar qualquer grande narrativa um desastre. E se Doze anos de escravidão não é um desastre total, não consegue, por mais esforço que façam seus atores, imprimir no telespectador o realismo do livro: nesse rol de interpretações bem mesmo está Michael Fassbender como um dos fazendeiros de algodão que recebe Solomon como escravo, isto é, já depois dele ter sido sequestrado numa enrascada cujo tema era uma oferta de trabalho na capital e Lupita Nyong'o, no papel de uma escrava excepcional que não apenas é a que dá mais lucro ao patrão como lhe é subserviente sexualmente, o papel, aliás,  mais forte da narrativa.

Mas, até Solomon ser novamente liberto – graças a ajuda de um futuro abolicionista – a narrativa esvai-se entre idas e vindas de escravos de uma fazenda para outra, cenas de tortura, parco diálogo, cantorias, paisagens. E aqui esbarra o telespectador num trabalho rico em Doze anos... – a fotografia. A investida da câmera ora em grandes planos, ora em detalhes, na variação das cores, como técnica de representação dos diversos lugares da narrativa ou mesmo uma forma de reproduzir a atmosfera psicológica da personagem principal é tudo muito bem planejado e executado.

Não era, entretanto, uma produção que merecesse a recepção de um Oscar de Melhor Filme. O filme até tem um forte apelo histórico e também político – que a causa negra nunca foi sepultada com os acordos de libertação dos escravos, e, portanto, é algo que deve sempre ser colocado na ordem das discussões – mas, tecnicamente, a produção deixa a desejar. O fato é que, de uns tempos para cá, a técnica tem sido substituída pelo efeito moral que a narrativa filmográfica repara. Mas isso é outra história.