quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, de Alice Munro

Por Pedro Fernandes



Este livro foi publicado no Brasil em 2003 e foi o primeiro título da escritora canadense a chegar por aqui. Deve, na época, assim como outros livros que vieram depois, ter passado despercebido pela grande maioria da crítica e em parte dos leitores comuns. Dez anos depois, o contexto de reedição dessa antologia de textos é diferente: Alice Munro foi premiada com o mais alto galardão que pode receber um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura, sendo a primeira escritora exclusivamente de narrativas curtas a receber a honraria. E numa situação inusitada, diga-se: poucos meses antes do anúncio, ela própria havia dito que declinava da longa carreira de manipulação com as letras.

Se o Prêmio irá colocar novas centelhas a ponto de se renovar a imaginação e o interesse pela escrita não sabemos; se não, é preciso dizer que há muito que se ler para ter uma visão mais ou menos acabada sobre obra e a escritora que tem um domínio sobre a objetividade linguística e uma polidez de gentlman com a palavra inconfundíveis. Apenas, esclareço, antes de algum mal entendido (que o mundo da escrita anda cheio deles), que, dizer que a escritora tem a polidez de um gentlman com a palavra não tem o mérito de associar a escrita de Munro à ordem de uma masculinização da gramática – isto é, não tem cabimento aqui aquela ultrapassada ideia do “escreve como homem”. Não. É apenas um efeito de retórica que visa traduzir uma nuance estilística, a polidez, detectada ao contatar com sua escrita. 

É necessário dizer que esse breve apontamento tem por base as nove narrativas não tão breves que compõem Ódio, amizade, namoro, amor, casamento – livro em boa hora reeditado pela Globo Livros através do selo Biblioteca Azul. O leitor atento já perceberá logo que essas características aqui apresentadas têm sua gênese já no título da obra, um compósito de palavras-chaves ou rascunho para a elaboração de temas definidores de um itinerário a ser percorrido pela contista. Palavras-chaves até podem ser, embora os sentimentos evocados pelas histórias contadas por esse narrador polido de Munro ultrapassem a ordem desses cinco termos colocados como linha de enfeixe para os textos.

Outra característica de Ódio, amizade, namoro... está na sensibilidade da escritora em extrair das situações comesinhas uma narrativa a indicar que o motor da existência não está além do corriqueiro. Há nisso um sentido poético. O trabalho de observar no que há de mais simples a inteireza das coisas e o sentido da vida. Mais: Munro absorve essas situações e as redesenha como uma larga correnteza cujo fim não se dá nem mesmo com a morte. Os momentos da vida de uma pessoa reverberam sempre no outro e o fim dessa reverberação é impreciso. Isso se traduz na composição das narrativas deste livro; vejam bem, mesmo se guiando pela objetividade esta se encontra apenas no nível vocabular e na construção frasal do texto, que no fluxo do enredo não há quaisquer fechamento induzido pela ideia de objetivo, como se aqui se mostrasse uma possibilidade de dizer sobre a nossa eternidade não auferida.

Munro privilegia a vida como se suas personagens estivessem sempre sobre uma corda bamba – é o terreno movediço, o incerto, de onde é possível extrair o apogeu de exercícios como o ato de ter medo, de amar, de esperar, sendo tais exercícios sempre uma condição que induz o indivíduo a não estar parado, extraindo dessas lições sempre outro patamar de sua condição humana. É possível compreender que a textualidade de Munro nesta coletânea de contos é ela também um exercício de experimentação da vida. E a vida chega a ter mais sentido se vivida nessa infinita movença, como se uma brincadeira do mesmo gênero da que vivenciam as duas amigas do conto que dá título ao livro. Isto é, a vida se constrói ora daquilo que planejamos, ora do acaso que nos pega sem querer e nos leva para outra situação, diversa daquilo que planejáramos. Não há espaço para a ideia de destino. Tudo, até mesmo o acaso é produto das escolhas diretas ou indiretas que assumimos.

A vida é embate. Sugere, por exemplo, o segundo texto, “Ponte flutuante” em que, para além da ideia de acaso se desenvolve na trama uma viagem cuja existência parece dizer que só digna de nota pela teimosia do homem e da menina sobre o ir e vir de carro pela cidade. A escolha de citar este texto aqui tem ainda outro propósito: entre a discórdia, mostra-se outro sentimento inerente às narrativas de Munro neste livro – a solidão. A viagem termina com a mulher sozinha pensando sobre sua velhice, a doença da qual padece e o passado quando quase deixou o companheiro. Ainda sobre o embate, vale citar outro conto em que uma mulher tenta preparar para o marido já morto, um velório menos religioso a fim de não fazê-lo chocar-se com um universo de convicções pelo qual nunca nutriu simpatia. “Conforto” é um embate entre a objetividade de uma crença – ser ateu é também uma crença – e um conjunto de convicções culturais engendradas em torno da morte.

Esqueci-me do tempo em que li uma antologia de contos com tanto encanto quanto esta de Munro – texto feito de intermédios, a começar pelo gênero dotado da precisão e concisão necessárias ao conto e da amplitude e flexibilidade do romance. E aqui ficamos, já que talvez nunca haveremos de ler um romance da escritora que preferiu a brevidade, à espera de que nos chegue o próximo título a ser editado também pelo Selo Biblioteca Azul, View from the Castle Rock e Ranuaway. O interesse de Munro por realidades substantivas (como os substantivos enumerados no título) nos fazem sentir mais próximos de nós mesmos, seja pelo tom intimista das narrações, seja pela busca constante de suas personagens sobre um entendimento acerca da vida.