sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O homem revoltado, de Albert Camus

Por Rafael Kafka




O Homem Revoltado causou polêmica. Pode-se dizer que ainda causa. Na época de seu lançamento foi a pá de cal nas relações amigáveis entre Albert Camus e Jean-Paul Sartre. O primeiro, herói da resistência assim como o autor de O Ser e o Nada era visto pelos seus pares como alguém isolado do meio político, preocupado demais com a liberdade individual e, pode-se dizer, bastante pândego, ocupando-se mais em gozar a vida do que compreendê-la por meio de sistemas filosóficos bem elaborados.

Devido a isso, as divergências com os existencialistas logo passaram a surgir. O ponto principal era o apoio dado por nomes como Sartre, Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty ao movimento comunista que imperava na então poderosa União Soviética. De herói da Resistência francesa Camus passou a ser visto como conformado, alienado e outros termos os quais indicavam uma preocupação exclusiva com o seu próprio ser.

Nem mesmo o rótulo de existencialista ele aceitava. Mesmo suas obras tendo muito de parecido com outros textos de filósofos do existencialismo ateu, Camus enquadrava-se no rol dos que se consideravam parte do movimento. Ele aceitava tranquilamente o rótulo de filósofo da existência. As suas obras são cheias de um sentimento caro ao existencialismo, como a estranheza perante a existência, sentido de modo pungente em O Estrangeiro e que podemos encontrar de modo igualmente intenso no romance sartreano A Náusea. O absurdo ganha bastante força em seus textos, e fica clara a grande influência de Kafka em seus livros.

Camus atacou em diversas frentes. Apesar da morte prematura, teve tempo de ganhar um Prêmio Nobel e de escrever textos em diversos gêneros como o teatro, o conto, o romance e o ensaio filosófico. Mesmo sem se considerar um filósofo no sentido estrito do termo, ele conseguiu produzir dois belíssimos textos nos quais podemos sentir a força de seu pensamento: O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado. Podemos considerar que Camus escreveu duas obras que se complementam, e por isso mesmo esta resenha sendo sobre o segundo ensaio citado acima, terei de falar um pouco de O Mito de Sísifo. Pois é nesse livro que ele começa a falar do conceito de homem revoltado.

Sísifo foi um homem condenado pelos deuses a carregar uma pedra para o topo de um grande monte. Porém, sempre que estava próximo a conseguir sua missão, a pedra caía e ele precisava reiniciar sua tarefa. De modo bastante simbólico, tal mito descreve bem a existência humana para Camus: todo dia temos 24 horas para vivermos e agirmos. Cada dia termina, começa um novo e precisamos nos deparar com o absurdo de uma vida gratuita e repleta de coisas bizarras como guerras e risco de morte iminente.

Para fugirmos do absurdo mundano, temos três opções: a esperança, o suicídio e a revolta. A esperança é fortemente condenada por Camus, pois afundamos nela e deixamos de viver e sentir a vida como ela é para vivermos em devaneio. O suicídio também não é recomendado por ser visto como uma forma de desperdício de vida, mas não é condenado com o velho moralismo de quem critica tal postura baseado em preceitos religiosos. Resta, então, a revolta.

A revolta é engajamento consigo mesmo: devemos viver a realidade como ela é, descrevendo o que sentimos, criando nossos projetos, porém focando nossa atenção no presente, sem nos perdermos em esperanças, em devaneios. Devemos viver a realidade de modo erótico, digamos assim, agarrando-a em sua concretude, em sua carne atual.

De tal conceito emana um individualismo muito grande. E Camus realmente nunca escondeu de ninguém a sua maior preocupação: o homem, o indivíduo. Provavelmente movido por diversas críticas pesadas dos existencialistas de carteirinha, resolveu criar um ensaio filosófico, repleto de lirismo e de peso, para falar da revolta enquanto engajamento de si mesmo e da ameaça dos grandes sistemas totalitários os quais tentavam matar no homem a sua humanidade.

Edição brasileira de O homem revoltado. O livro foi
publicado em 1996 e tem tempo em  que só é possível
encontrá-lo nos sebos.

O Homem Revoltado pode ser considerado então um livro em favor da liberdade humana. Nele vemos Camus defendendo a dignidade do indivíduo. Não há justiça em sistemas opressores que para se manterem no poder utilizam-se do processo de ceifar vidas humanas para manterem o seu conceito de justiça social.

Já no começo, Camus descreve o que vem a ser o homem revoltado. Utilizando-se um argumento essencialista, ele fala de uma natureza humana a qual o revoltado buscaria defender a todo custo. O revoltado é um ser que luta para alcançar aquilo que falta a ele para se tornar pleno dentro da natureza humana. Contudo, a revolta em si não é desculpa para abusos.

Para provar isso, Camus cita uma série de revoltados que marcaram época nas artes e na filosofia, passando de Sade aos surrealistas, terminando por citar Rimbaud e Nietzsche. Todos cometeram revoltas ocas, sem sentido, sem engajamento com o ser humano, preocupados apenas em satisfação de desejos ou ideias confusas. Nesse momento, começamos a perceber, por meio de um ataque feroz, a autoapologia de Camus: ele mostra que a revolta norteia os limites humanos, mas que em nenhum momento tem-se o direito de romper com nossa revolta a liberdade alheia.

Da arte, ele parte para filosofia política. Analisa Mussolini, Hitler, Hegel, Marx: todos niilistas e queriam dar ao mundo a sua ordem desejada, com sua revolta definir os rumos do ser humano. E por mais paradoxal que soe, é a Marx que os ataques mais pesados são dirigidos.

O homem matou Deus. A justiça divina pregava uma vida para depois da morte. Todos os abusos deveriam ser suportados nessa existência em prol da vida eterna, do sossego e da paz. Na era racionalista, os homens passaram a desconfiar disso e no século XIX filósofos renomados proclamaram que Deus não era o suficiente: a felicidade humana deveria ser alcançada aqui mesmo na Terra.
           
Surge então o capitalismo com sua revolução burguesa, pregando a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Mas o que se vê nesse sistema são seres sofrendo opressão, miséria, fome, etc. Marx então, seguindo uma linha de pensadores estudiosos do capitalismo e de suas contradições, resolve criar um sistema filosófico não apenas interpretador da realidade. Ele quer mudança e na mudança o homem deve se engajar. Nasce o socialismo científico.

Para tal sistema, os meios de produção devem ser estatizados, a burguesia eliminada e somente assim, em uma sociedade sem classes, sem ricos, nem pobres, o homem conseguirá ser feliz e pleno em sua natureza de ser livre e racional. Para tanto, no entanto, não devemos agir como os anarquistas: o Estado deve se manter ativo até o momento em que o povo, autossuficiente, consiga se manter por suas pernas. O tempo necessário para que o povo amadureça não é estipulado, mas sabemos que um ser escolhido pela História, pelos acontecimentos, deve se manter acima de todos e cuidar dos rumos do Estado socialista.
           
Por ser indeterminado, tal tempo acaba criando uma espécie de paraíso terrestre. Se antes, o homem esperava pelo paraíso divino, agora espera por um mundo justo, o qual ninguém sabe quando virá. E nesse meio-tempo indefinido, expurgos, genocídios, limpeza e segregação racial, campos de trabalhos forçados e de concentração são vistos na configuração de um sistema socialista real como o visto na União Soviética. O revolucionário de outrora agora se torna o ditador. A violência que era revolucionária (Black Blocks?) agora se torna violência ditatorial. O que antes desafiava o status quo, agora o mantém. E a vida segue.
           
Tanto o capitalismo com sua opressão industrial quanto o socialismo com sua opressão totalitária são ameaças à dignidade humana; ambos são formas de eliminar o espírito criador do ser humano: são ferramentas de violência psicológica e física as quais eliminam a humanidade do indivíduo tornando-o tão somente uma engrenagem no sistema.

Por isso, segundo Camus, o socialismo odeia a arte. A arte deve manter o socialismo em alta, só deve falar do socialismo. (Confesso ter visto aqui uma crítica implícita ao livro O que é literatura? escrito por Sartre, no qual ele defende que a arte literária engajada deve falar sobre os problemas humanos para que haja a obtenção da sociedade socialista.) A arte nesse contexto socialista é desperdício de tempo, é puerilidade.

Para Camus, é na arte que o homem melhor expressa sua revolta. Na arte literária, o homem sente a sua plenitude, cria o mundo de acordo com seus olhos, torna-se um deus em seu pequeno mundo. A arte é perigosa pois oferece ao homem revoltado uma escolha que vai além das ofertadas pelos horizontes socialistas.
           
Para não dizer que estamos a criticar demais o sistema marxista de pensamento, podemos dizer que a opressão capitalista torna a arte algo puramente consumível. Músicas, filmes, novelas etc. consumidos para logo depois serem esquecidos, sem terem nada de significativo que os mantenham ativos no consciente coletivo de leitores e críticos. Uma pena que Camus não tenha dialogado com um Walter Benjamim.
           
Fechando o livro, Camus dá uma solução. Socialismo, capitalismo, não importa qual o sistema. O homem precisa ser respeitado. O espírito criador precisa ser valorizado. A liberdade humana, a qual por poder de interpretação deduzi ser a tal natureza humana (sendo portanto um jeito diferente de colocar o mesmo conceito de condição humana já posto por Sartre), deve ser respeitada custe o que custar. Acima de esquemas abstratos, a revolta humana deve preservar a sua dignidade: se quero ser livre, devo respeitar a liberdade o outro, seu poder de decisão. No momento em que começo a querer impor minha visão, a definir meu ponto de vista como o único certo para o bem-estar social, a não enxergar os danos que minha obsessão cega causa no meio social do qual faço parte e do qual quero ser líder, começo a me tornar inimigo de todos os homens.

Mesmo escrito há cinco décadas, em um contexto efervescente e louco como o nosso, O Homem Revoltado é uma das obras mais atuais já lidas por mim. Muitos a veem como uma tese de direita. Muitos participantes da esquerda burra. Não que eu seja anti esquerdista. Pelo contrário. Apenas acho que em cada setor da vida humana existem os néscios. E são esses néscios os quais estão localizados dentro do pensamento de esquerda que não conseguem aceitar críticas sobre seu modo de pensar.

São esses néscios os grandes inquisidores de nosso tempo e que apedrejariam Camus, se pudessem, após a leitura do livro que aqui abordo. Pois tais néscios são dominados apenas pela revolta apaixonada, e a revolta nunca é boa o suficiente quando se volta para qualquer forma de violência, pois como dito no ensaio camusiano: o revolucionário de hoje que se utiliza de violência, amanhã será um grande ditador, sem nenhum objetivo exceto provar que está certo. Por meio da mesma violência

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.