terça-feira, 13 de agosto de 2013

O encontro histórico entre Dickens e Dostoiévski revelado como um grande embuste literário




Dada a forma como a literatura do século XIX às vezes é concebida, como uma província repleta de grandes romancistas não é difícil imaginar um encontro entre Charles Dickens e Dostoiévski. Isso, de fato, não seria uma ocorrência incomum. Talvez fosse mesmo de rotina, como Jay Z e Kanye esbarrando-se numa festa qualquer. Quando apareceu a história de que os dois romancistas se encontraram em 1862, em Londres, quase ninguém chegou a duvidar que o fato pudesse não ser verdade. Seria bem capaz que, no mesmo lugar Herman Melville tenha se deparado com Flaubert, mesmo que o autor de Moby Dick não tenha de forma alguma atingido em vida a fama que adquiriu depois de sua morte e fosse, então, capaz de ser reconhecido por alguém como o escritor francês. Ou melhor, mesmo que Melville fosse um desconhecido total se formos olhar para os outros três. Dickens então... Mas, que eles tenham se lido ou que tenham viajado centenas de quilômetros para visitas pessoais e a suposição sem caráter segunda não passam de improbabilidades.

Também a história de Dickens e Dostoiévski está no rol das fabricações tal como a imagem que ilustra esta matéria, embora tenha sido tida como plausível o suficiente para se apresentar na leva de acontecimentos da vida do escritor inglês. Embora os dois homens tivessem sensibilidades diferentes, suas experiências de vida e os romances a catalogarem determinados males sociais de seu tempo, são dois detalhes, por exemplo, que é possível de aproximação ou mesmo de atraí-los para um encontro.

O crítico literário Michiko Kakutani do jornal The New York Times não acreditou tanto nessa possibilidade e repetiu a história do encontro entre os dois escritores apresentada por Claire Tomalin na biografia Charles Dikens, a life (título ainda inédito no Brasil) com suas incongruências. Tomalim, que descobriu essa história Dickens Fellowship: o romancista russo intencionalmente teria procurado seu colega inglês em Londres e, ao encontrá-lo, ouviu de Dickens a confissão de que gostaria de ser como um de seus personagens, honesto, simples, mas não teria apreço pelos vilões, construído de suas próprias falhas pessoais.

Pergunta-se Kakutani: Por que Dostoiévski só mencionou o encontro numa carta escrita 16 anos depois do fato, numa carta que não chegou a ser vista por nenhum estudioso de sua obra? Qual é a língua que os dois homens têm em comum, e se eles tinham, provavelmente o francês, seriam fluentes o suficiente para conversarem tão abertamente? E mesmo tendo Dostoiévski visitado Londres em 1892, ao que parece ele ter feito isso, ele teria procurado, intencionalmente, Charles Dickens? Eric Naiman, professor de língua e literatura eslavas da Universidade de Berkeley duvidou sempre de tudo isso e em suas pesquisas sobre sempre achou ser uma elaboração ficcional muito bem feita por A. D. Harvey. Harvey criou para si um círculo de ficções de algumas identidades tão bem elaboradas, diz Naiman, a ponto de servir de motivo para que estudiosos (encantados demais e pouco desconfiados como Kakutani) levassem a tomar como verdade.

Ego ferido, talento perdido, vaidade e ambição frustrada ou quaisquer outras questões passíveis de suposição foi motivo de elaboração fraudulenta por Harvery. O encontro entre Dickens e Dostoiévski, portanto, não passaria de embuste, como recobra as investigações feitas pelo The Guardian e as de Eric Naiman para o suplemento Times Literary. O fato só reforça uma necessidade: o estudioso tem de ser um cético; deve estar sempre inclinado, e por boas razões, para não confiar na palavra mesmo daqueles que se colocam como especialistas e autoridades naquilo que dizem ser.