quarta-feira, 1 de maio de 2013

No, de Pablo Larraín

Por Pedro Fernandes

O ator Gael García Bernal em cena do filme No, onde vive o publicitário René Saavedra

É preciso dizer não. Sempre. Principalmente diante da possibilidade de sair da clausura e por um vulto de liberdade, essa palavra buscada pelo homem desde quando olhou para si e para o outro e reconheceu-se espécie diferente das irracionais. Palavra buscada repentinas vezes desde quando somos colocados sobre as sólidas paredes do poder. O filme de Pablo Larraín, mesmo se referindo a um lugar específico da história chilena – os últimos dias do regime militar de Augusto Pinochet – quer revigorar o sentido se não esquecido por muitos já envolto em brumas de passado que inocentemente acreditamos sem retorno. Sensível ao estranho lugar que hoje respiram as democracias no mundo inteiro, vendidas todas para uma forma de poder ainda mais degradante que o seu poder político, o poder do capital, a palavra que dá título ao filme é também uma convocação a olhar – se não para o escuro que tempo já não é de trevas, mas para essa estranha luz branca que ofusca visões e consciências.

Ver este filme é como está diante de um romance de José Saramago, que está mais atual quanto ao contexto que a narrativa de Larraín, Ensaio sobre a lucidez, cujo significado não está no voto preenchido como em No e sim no vazio do voto em branco como metáfora para que os do poder ressignifiquem o lugar que ocupam e pensem por um instante que seja a quem de fato são senhores e em nome de quais princípios devem está do lado. As nuances do poder quase que são iguais. Se olharmos para as estratégias truculentas utilizadas pelo os do comando militar para silenciar a campanha tão dispersa e a princípio desacreditada dos da esquerda chegaremos a acreditar que as nuanças são iguais. É estratégia do poder dominante ao sentir acuado não desistir de fato do trono, mas buscar como um doente nos últimos dias a última gota de oxigênio através da qual possa ainda respirar o último segundo de vida.

Quem entra desarmado no filme – sem conhecer alguns motivos da história chilena – pode apostar que o desfecho poderia ser outro. É que estamos acostumados, principalmente quando viemos de regimes cujo desfecho sempre tende a colocar a mordaça aos que acreditam de fato numa mudança, que chega a ser um alívio, como é para o publicitário René Saavedra, no final de tudo. Alívio que não se sabe definir, afinal a liberdade sempre nos é uma garantia conquistada depois de tantas lutas para tê-la que uma vez depois de tudo não sabemos ao certo o que de fato podemos fazer com ela. Talvez a sacrifiquemos como fazemos hoje com a ideia besta de que temos o poder de fazer o que der na telha, talvez recuemos afim de buscar outros modos de liberdade pelos quais valha lutar.

Mas, enfim, não há muito o que dizer de No, porque corremos o risco de dizer muita coisa que merece ser vista de perto por cada telespectador. Além do lugar de reinvenção da palavra não outro elemento primordial a se pensar é o lugar da publicidade. O poder que ela tem numa nova sociedade que – no caso da chilena de início da década de 1990 – começa a usufruir, de fato, das beneficies do capitalismo moderno. O próprio René com sua paixão pelo modus vivendi do estadunidense é exemplo disso. A própria campanha pelo não nos seus quinze minutos na TV – depois de quinze anos em que o povo foi silenciado – não haveria ter o resultado que teve se não fosse conduzida pelo olhar de quem de fato havia passado muito de sua formação profissional no lugar exato onde já desde muito se cultivava o conceito de liberdade. René motivará a sua equipe a substituir o passado pela ideia progressista do futuro, a criar uma realidade paralela à realidade vivida pelo povo chileno porque a liberdade não pode se confundir nunca com o pó do passado, ela é sempre impulsionadora para um lugar utópico. E é isso que a propaganda realiza, a elaboração de um lugar utópico.

No mais, é um bom filme. Bem desenhado estruturalmente. Com uma narrativa enxuta e na medida certa. Não é cansativo, apesar de se referir a um momento histórico tão marcado que a fotografia é a mesma utilizada pelas películas da época, o que decerto dá um charme a mais para o efeito de realidade buscado pelo diretor. O que não daria era para receber o Oscar de Melhor Filme como pleiteou – afinal, Amor é imbatível. Mas, fez muito por merecer está na lista dos concorrentes.