quarta-feira, 27 de março de 2013

Os 50 anos de O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar

Julio Cortázar em 1963, mesmo ano em que publicou O jogo  da amarelinha.
Foto: Arquivo do Jornal Clarín.


Há uma parcela considerável da crítica literária que não tem em Julio Cortázar a imagem de um grande escritor no sentido extremo da palavra tal como é Jorge Luís Borges, Macedonio Fernández ou outro nome de igual envergadura da literatura produzida na América Latina. Natural, no mesmo nível em que se faz considerações do tipo ao escritor argentino também se faz a nomes como José Saramago, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade. Tenho lido. Duas linhas nascem aqui: uma sobre o entendimento do termo ‘grandiosidade’ e que considera a necessidade de renovação plena e constante de um escritor; assim, se um escritor constrói um estilo e não opera grandes alterações nele ao longo de sua produção literária, não se pode ‘taxá-lo’ de importante nome da literatura de um país; e a outra linha é ingênua, tem a ver com gosto pessoal e, assim, se determinado escritor não lhe ‘conquistou’ logo na primeira leitura a generalização vigora. Fato é que se Julio Cortázar, julgado pela primeira linha, não terá sido grande escritor por ‘incapacidade de ampliar seu estilo’, deve ser, ainda assim, considerado um importante nome para a literatura produzida à época em que aparece no seu país.

E um de seus trabalhos chega a casa dos 50 anos agora em 2013. Trata-se de Rayuela, livro que pelo seu formato, por seu vanguardismo e pela forma como mescla o surrealismo francês dos anos 20 com o realismo mágico do boom latino-americano se transformou muito rapidamente em um clássico. A edição brasileira chegou quase na metade dessa idade que o livro faz agora sob o título de O jogo da amarelinha e só se encontra hoje em sebos com preço razoável. Perdão aos críticos que não concebem na mesma linha o nome de Cortázar junto ao de Borges ou Macedonio Fernández, mas junto Juan Mendoza, crítico da Revista Ñ e de onde traduzo boa parte de um texto seu aí publicado para estas notas ora redigidas, Rayuela é um romance que traz pelo seu vanguardismo algo de Macedonio Fernández e incorpora o contexto de onde foi produzido, o ritmo do rock, do pop, as revoltas políticas e a revolução sexual – elementos aí, de alguma forma, impressos.

O livro de Cortázar, recorda Juan Mendonza a partir de David Viñas, foi logo aceito pela crítica especializada como sendo uma grande novidade no meio literário porque o escritor nele está em sintonia com o que o é produzido na nova geração de escritores de sua época. Rayuela se propôs ainda a retirar o leitor de sua inércia pela ideia de uma narrativa moldável aos seus próprios caprichos, propondo pensar ainda uma forma outra de imaginar a ordem de um mundo em ampliação e fragmentação cada vez mais rápidas; a ver a literatura como um grande jogo.

Edição brasileira mais recente de Rayuela, traduzida por O jogo da amarelinha.


A crítica de seu tempo atenta ainda para além das particularidades estruturais e suas relações com o contexto externo de produção, para aspectos igualmente renovadores fruto do experimentalismo de Cortázar: sua vitalidade, sua linguagem coloquial e a ‘mensagem social’ do escritor tantas vezes reiterada em suas entrevistas naquele momento de publicação – a necessidade das artes permanecerem ativas no processo de surpreenderem os seus usuários – tudo isso servirá de mantra para outro lugar da crítica em torno de Rayuela. E já aqui, faço curto parêntesis para dizer uma coisa: talvez o ‘erro’ de Cortázar tenha sido revolucionar demais numa só obra, tal qual fazem alguns cantores que produzem um primeiro disco com sucessos da primeira à última faixa e que quase se fazem inexpressivos nos trabalhos seguintes. E isso, ressalte-se, não será pecado algum; nem sempre o artista é dado a controlar seus impulsos criativos.

Vinte anos depois, já considerado monumento literário, Rayuela se fez pela linha segunda: transformou-se em romance de um autor de referência incontornável da esquerda. Quando o Cortázar também já com igual fama regressou ao país depois de viver trinta anos no exílio, o recém-eleito presidente Raúl Alfonsín, não quis recebê-lo justamente devido ao livro. É quando o romance é então transformado no romance argentino representativo do boom latino-americano e clássico de repercussão universal. Os anos 80, quando se deu esses fatos será marcado ainda pela morte do próprio escritor, depois de passar por uma depressão profunda e uma leucemia.

Nos anos 90, recorda Juan Mendonza, Rayuela estava em todas as bibliotecas em formação, aquelas que não tinham mais que vinte livros. Em todas havia um exemplar e no trânsito dos livros, entre idas e vindas, o romance era um dos poucos destinados a sobreviver: “Era uma de nossas primeiras educações sentimentais para reivindicar a loucura. E era uma forma de não levarmos tão mal as nossas pobrezas, uma forma de lutarmos contra a indigência cultural” – adianta Mendonza.

Lida nos anos 2000 como um grande hipertexto de papel, pleno de referências e imagens anexadas, sons e notas musicais, com links que reenviam o leitor de uma zona a outra do livro. Cinquenta anos depois de sua primeira edição, Rayuela segue sendo um romance complexo e inovador, ainda que desdenhado por alguns meios acadêmicos. “Para muitos, entretanto, é um livro que traz consigo uma visão de mundo e uma teoria da literatura que incorpora a reivindicação dos gêneros literários menores, a prova de que os experimentos literários e os jogos das vanguardas são também coisas que podem cativar a muitos leitores” – diz Juan.

O que se faz necessário é que qualquer editora – talvez a Cosac Naify que já editou textos do escritor argentino – produza uma nova tradução do texto para suprir a lacuna deixada nas prateleiras das livrarias e por em contato toda uma geração que ainda não teve oportunidade de conhecer o vanguardismo de Cortázar.


* Este texto se apropria de algumas considerações desenhadas por Juan Mendonza em "Cumple 50 años Rayuela, el libro de cinco generaciones de jóvenes" publicado em 25 de março na Revista Ñ. As passagens traduzidas livremente, entretanto, são apresentadas entre aspas.