quinta-feira, 21 de março de 2013

Amor, Michael Haneke

Por Pedro Fernandes



Precisamos esperar a premiação do Oscar para que Amor chegasse às telas do cinema brasileiro. Menos mal; há muito deles que por aqui nem passam. E se este filme não tivesse vindo às grandes telas seria uma grande perda para os olhos dos que estão enfadados da pirotecnia hollywoodiana. É um filme brilhante. E mesmo não tendo assistido a atuação de Jessica Chastain em A hora mais escura e nem a de Quvenzhané Wallis em Indomável sonhadora é possível afirmar com clareza uma coisa: a Academia cometeu a maior gafe. Mais que aquela de ter feito cara feia para a produção de Ben Affleck e depois ter tapado o desconcerto com o prêmio de Melhor Filme. Foi ter dado o prêmio de Atriz para Jennifer Lawrence de O lado bom da vida – ainda que a produção preencha o quesito de bem feitinha porque tem um enredo bem construído (redondinho, como é comum dizer). Mas, o prêmio era para atriz e, desculpem, Lawrence ainda deve andar muito para conseguir esse status.

É porque a atuação de Emmanuelle Riva é única. Basta que se diga que nada sustenta mais esse trabalho de Haneke que a atuação dos dois atores. A trama leva o casal do princípio ao fim do filme e mesmo sendo a narrativa algo também excepcional ela não resistiria se fosse posto como personagens atores que não tivessem o nível de expressividade que dois tem.

Amor recupera o bom da produção europeia. Não há nada mirabolante. É um drama enxuto: um casal depois de tantos anos juntos dão com uma situação que talvez nunca tenham pensado passar. Não se trata de nenhum caso de infidelidade que venha por à prova a o limite do amor que une os dois; o caso é mais grave: é um problema de saúde que atinge a mulher e vai, na medida em que se passa o tempo apenas piorando e pondo em prova a dimensão do amor. Notem bem: há uma linha tênue entre limite e dimensão. O primeiro diz respeito à ligação entre dois polos enquanto o segundo tem um descentramento e ocupa um lugar conjunto a envolver as pessoas da situação.

A forma como tudo é dirigido é demais impactante. E tenho dúvidas de que nas telas chegue, em 2013, outro trabalho que venha superar este. Amor é um filme leve e, simultaneamente pesado a ponto de chegar a ser violento. E se coloca em teste a dimensão do amor, é também uma narrativa sobre o fim, revirando a ideia de que “o para sempre, sempre acaba”. Nesse percurso, é ainda uma narrativa acerca da própria vida, da existência humana e o limite que todos – sem exceção – podem estar condenados. Esmiúça o outro lado da beleza do amor. Não há nele só o belo ou leveza da juventude, com os momentos de boas risadas e bons programas juntos; há nele sofrimento. E uma exigência de doação de uma parte nossa para o outro porque afinal parece mesmo que só para isso existimos: servir ao outro. Ou haverá algum sentido para além disso na vida?

A dupla face do amor está aí bem explorada. Não tem nada de “viveram felizes para sempre” das simples histórias desgastadas no cinema – como o próprio O lado bom da vida. Também no destino nada está arrumado. Amor é um filme de surpresas; aquilo que o telespectador não está preparado para acontecer acontece. E está aí o seu lado impactante. Alguns críticos mais exaltados terão dito que tudo o que é preciso saber sobre o amor está neste filme. E é verdade: pelo menos aquilo que sempre nos esquecem de contar quando decidimos compartilhar uma vida com outra pessoa. Tudo está aí, sem fantasias.   


Sorteio de dois exemplares de "Arqueologias do Olhar", de Fred Spada






Frederico Spada (Belo Horizonte - MG, 1982) tem já sua experiência com o verso. Premiado em várias colocações em diversos concursos de poesia, sua estreia se dá com Arqueologias do Olhar, livro publicado em 2011 pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage. Reúne 60 poemas escritos entre 1999 e 2011.

O Letras sorteia entre os amigos da fan page dois exemplares autografados pelo poeta. O sorteio é livre e concorrem apenas amigos que têm residência no Brasil; ocorrerá no fim do dia 29 de março e o vencedor será contatado por mensagem pela equipe da fan page.

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