terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval e literatura, dá samba?

A escola do Rio de Janeiro, União da Ilha do Governador, em 2013, fez seu enredo a partir da vida e obra do poeta Vinicius de Moraes assinalando a passagem de seu primeiro centenário.


As escolas de samba têm sempre preferido quando a data permite homenagear nomes da literatura na avenida. Ano passado, era ano de centenário de Jorge Amado, por exemplo, e aí, a Imperatriz Leopoldinenseprestou homenagem ao escritor e sua obra. Também já foram à avenida nomes como Monteiro Lobato, Machado de Assis, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade e obras como Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, Os Sertões, de Euclides da Cunha, entre outras.

Em 2013, o carnaval já está próximo do fim – de hoje até meio-dia de amanhã tudo chegará nas cinzas. Antes do fim, lembrar é útil: pelo menos três escritores tiveram sua biografia e sua obra transformada em enredo e em diferentes estados brasileiros: uma, em Vitória, outra, em São Paulo e mais outra no Rio de Janeiro.

Em Vitória a Escola de Samba Unidos de Jucutuquara, que é de Cachoeiro do Itapemirim, fez o enredo/desfile com base na vida e obra do cronista Rubem Braga que celebra neste 2013 seu primeiro centenário. O escritor é tido com um dos mais importantes nomes da crônica nacional.

Já em São Paulo a homenagem foi da Escola Mancha Verde que homenageou o poeta, compositor e ator Mário Lago, que, muito antes de ser homenagem em escola de samba foi célebre autor de sambas como “Amélia” e “Aurora”, já caído no gosto popular tem seu tempo.

A outra homenagem, a do Rio de Janeiro, veio da União da Ilha do Governador que fez homenagens ao poeta Vinicius de Moraes, que neste 2013 também está passando pelo seu primeiro centenário.


James Joyce e a explicação de um desenho



Uma das imagens mais comuns na web quando o assunto da pesquisa é James Joyce é uma em que o escritor aparece com o olho esquerdo coberto por uma bandana preta. Quem tiver lido algumas notas esparsas sobre terá sabido que Joyce teve sérios problemas com visão. Quando ainda tinha seis anos de idade recebeu o seu primeiro conjunto de óculos e, quando ele tinha vinte e cinco anos, veio o primeiro caso de irite, um tipo de inflamação muito dolorosa que ocorre na região do olho responsável pela decomposição das cores, a íris.

Católico, o nascimento da sua filha foi oportunidade para que a santa dos olhos fosse homenageada e ela foi batizada com o nome de Lucia. Sem milagres, Joyce teve de suportar uma série horrenda de cirurgias e tratamentos não apenas para olho esquerdo, mas também para o direito, incluindo a remoção de partes da íris, aplicação de sanguessugas diretamente no olho para remoção de líquidos e até mesmo a retirada de todos os seus dentes pela teoria de que sua irite recorrente estava ligada a uma infecção bacteriana em sua dentadura, causada pelo descuido com a higiene bucal nos anos de pobreza.

Depois de uma cirurgia em 5 de dezembro de 1925, de acordo com Gordon Bowker em James Joyce: a new biography, ainda sem tradução no Brasil, Joyce era incapaz de ver qualquer luminosidade devido as dores contínuas da operação; chorava muito e ficava muito nervoso porque era incapaz de raciocinar com equilíbrio. Passou ser dependente dos que estavam ao seu redor para ações simples como chamar um táxi e levá-lo ao lugar aonde queria ir. Durante o dia, quando não saía de casa, passava o dia deitado em um sofá, profundamente triste; querendo trabalhar, mas incapaz de fazer qualquer coisa.



No início do ano seguinte, Joyce teve uma pequena melhora num dos olhos. Foi nessa época,  janeiro de 1926, contam, que ele fez uma visita ao amigo Myron C Nutting, um pintor estadunidense que tinha seu estúdio na Montparnasse, em Paris. Para demonstrar que sua visão estava a melhorar, Joyce pegou um lápis preto e fez alguns rabiscos numa folha de papel junto com uma caricatura de um homem com ar malicioso, de chapéu e amplo bigode, e disse sê-lo Leopold Bloom, o protagonista do seu romance, Ulysses. Ao lado da caricatura, Joyce escreveu em grego – “com um pequeno erro de grafia e acentos distorcidos”, diz R. J. Schork em Greek and Hellenic Culture in Joyce – a passagem de abertura da Odisseia, de Homero: “O homem multiversátil, Musa, canta”¹

Esse desenho de Bloom feito por Joyce atualmente faz parte do acervo da Biblioteca Charles McCormick Deering e integra as coleções especiais da Universidade de Northwestern. Nutting foi uma fonte importante para a escrita da biografia do autor de Ulysses composta por Richard Ellmann, então professor em Northwestern. De acordo com Scott Krafft, curador da coleção de especiais da biblioteca, Ellmann foi um dos que intermediaram o acordo ainda na década de 1960 para que a biblioteca adquirisse as pinturas que Nutting fez de James Joyce e Nora, além de seus feitos para os filhos do casal.



¹ Utilizamos a tradução do Trajano Vieira, publicada pela Editora 34.

O texto foi escrito a partir de livre tradução de matéria na Open Culture.