sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fernando Namora

Fernando Namora. Foto da década de 1960


A particularidade de Fernando Namora nas literaturas de língua portuguesa é sua pluralidade de escritas, a vasta obra deixada e a capacidade de trânsito entre o erudito e popular, pelo número de aceitações de seus livros. Teolinda Gersão lembra bem em depoimento a um programa para a TV portuguesa que Namora esteve na lista dos Best Seller em Portugal e com a radical diferença dentre os livros do tipo: é que a literatura do escritor português é ‘sadia’ esteticamente e, por isso mesmo, objeto artístico de grandeza significativa. Toda a vasta obra e os trânsito entre gêneros desenhado pelo escritor talvez seja o resultado de alguém que teve na vida duas tarefas às quais se dedicou com afinco: a medicina e a escrita. Num depoimento de José Saramago, em que o escritor lembra os vários encontros com o autor de Nome para uma casa, livro de poesia, um dos gêneros cultivados por ele, comenta a forma com que se entretinha: “Bater-lhe à porta, interromper-lhe o trabalho, era algo que não me passaria pela cabeça. Nem sequer quando ele próprio me deu razoes para pensar que seria bem acolhido, fiz eu o gesto de que, com toda a probabilidade, poderia ter nascido uma amizade sólida.”

Fernando Namora nasceu em abril de 1919; filho de camponeses. Concluiu os estudos iniciais em escolas de Ansião e depois foi para Coimbra. A ida para esta cidade lhe permitirá já a escrita de seu primeiro romance, então com vinte anos, As sete partidas do mundo. Também em Coimbra, apega-se a Jorge de Sena, outro importante nome da cena literária portuguesa e redige um pequeno jornal manuscrito para o liceu e aprofunda-se naquilo que será, mais tarde, mais que um hobby, as artes plásticas. Dirige o jornal acadêmico Alvorada e durante 1935 redige seu primeiro livro, Almas sem rumo, uma antologia de novelas que permanecerá inédita até mais tarde.

A carreira das letras que vai assim tomando forma não desvincula da profissão que exerceu integralmente, a medicina. Já em 1936, Namora aluno do curso preparatório também em Coimbra. No ano seguinte, depois de chegar às livrarias trabalhos de Carlos de Oliveira e Artur Varela, também se anuncia a chegada de sua novela Pecado venial, que também como a antologia de 1935, não chega a ser publicada. O que se publica mesmo é seu primeiro livro de poemas, Relevos. Agora, Namora está envolvido com a edição de um periódico por nome Cadernos da Juventude, que chegou a ter apenas um número e assim mesmo foi apreendido e destruído antes de posto à venda. Também no ano em que se dão esses fatos, um positivo e outro negativo, contrabalança-se os pesos entre ruim e bom, com a publicação de seu romance As sete partidas no mundo, sucesso de crítica e vencedor de dois importantes prêmios, o Almeida Garret e o Mestre António Augusto Gonçalves, este último pelos trabalhos em artes plásticas para a edição.

Codirige a revista literária Altitude; e, 1940, publica outro livro de poemas, Mar de sargaços. Esse período é de fundamental importância na carreira do escritor e para o plano literário português porque nasce aí o que ficou conhecido com neorrealismo, um período lido pela crítica como de extrema significação para as letras portuguesas que vai influenciar toda uma grande geração de escritores. É publicado, dois anos depois, o romance Fogo na noite escura e escreve a novela Casa Malta; também realiza sua primeira e única exposição individual de pintura.

Cena do filme Domingo à tarde, baseado em trabalho homônimo de Fernando Namora; trabalho conduzido pelo cineasta António Macedo e lançado em 1966. Já antes, em 1942, Jorge Brum do Canto havia levado às telas Retalhos da vida de um médico. O filme de Jorge Brum chegou a ser selecionado para o Festival de Berlim, já Domingo à tarde esteve no Festival de Veneza.
Quando muda-se de Coimbra para Castelo Branco e daí para o Alentejo, Namora publica Minas de San Francisco, que fora escrito em Monsanto por volta de 1945; quatro anos depois, a primeira série de Retalhos da vida de um médico, obra que lhe valerá o Prêmio Vértice. Nesse mesmo ano viaja a Paris para uma exposição internacional com artistas plásticos médicos. Noite e madrugada – um de seus romances bem conhecidos – é editado em 1950, isso enquanto projeta capítulos para um livro que nunca chegou a ser concluído, Memórias imaginárias de um médico. Depois de então, seguem, O trigo e o joio (romance), O homem disfarçado (romance), As frias madrugadas (antologia com todos os livros já publicados), Domingo à tarde (romance agraciado com o Prêmio José Lins do Rego), Diálogo de setembro (ensaio), Os clandestinos (romance), Estamos ao vento (romance), Cavalgada cinzenta (viagem), O rio triste (romance), Nome para uma casa (poemas, como já dissemos antes), Mal amada, bem amada (crônicas) entre outros.

Toda esta vasta obra costuma ser designada pelos estudiosos como obra de três fases que acompanham de certo modo os ciclos de vida do próprio escritor: o ciclo rural, composto por obras como A noite e a madrugada e O trigo e o joio; o ciclo urbano, marcado por romances como O homem disfarçado e Domingo à tarde; e o ciclo de viagens, onde se abrigam obras como Marketing e Jornal sem data. Outros estudiosos ainda acrescem duas outras fases que são a do ciclo cosmopolita e o ciclo final.

Na sequência, deixamos um catálogo com amostra poética e de alguns trabalhos em artes plásticas de Fernando Namora. Há poemas dos livros Relevos, Mar de sargaços, Marketing Nome para uma casa.