terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Na rota da contracultura



Kerouac, Ginsberg e Burrougs.

Quem por aqui tiver tido a oportunidade de assistir o filme Na estrada, adaptação do livro homônimo de Jack Kerouac e signo da Geração Beat, entenderá um pouco do que foi este movimento. Mais que sexo, drogas e jazz, os meninos do grupo são responsáveis por colocarem no centro da cena o lado marginal da sociedade que talvez não fosse tão valorizado no universo artístico como se tornou depois deles.

No Brasil mesmo, ao ouvir a palestra do escritor Reinaldo Moraes em 2012 por ocasião do IV Festival Literário da Pipa, é que pude entender um pouco como, por exemplo, o movimento Beat foi responsável por sacudir até as esferas da literatura brasileira. Reinaldo com um dos romances mais representativos da cena literária brasileira contemporânea, o Pornopopeia está para o Brasil o que foram Kerouac e companhia nos Estados Unidos.

Fazendo uma breve consideração sobre o conceito para o que foi a expressão Geração Beat topei com um curto texto de Maurício Arruda Mendonça que assim define: “a expressão Geração Beat designa um vasto grupo de artistas inconformados com o chamado ‘estilo de vida americano’, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial. Para esses artistas o sonho americano não trazia nenhuma forma de iluminação ou conscientização pessoal. Era uma espécie de lobotomização da nação americana e a concretização do império do materialismo.”

“A intervenção dos chamados ‘beats’” – acrescenta – “foi marcada por uma tendência dionisíaca de valorização das experiências autobiográficas, e da criação de novas formas de vida à margem da sociedade burguesa. No campo da estética, a Geração Beat contribuiu com obras de invenção formal e na contracorrente da academia e dos poetas e prosadores consagrados pelo establishment. A expressão Beat serviu para designar o nascente movimento da contracultura que desencadearia a grande revolução dos costumes e das artes ocorrida nos anos 60 do século XX.”

O grupo inicial era formado por três escritores que, depois de tudo, terão sido os que melhor se sobressaíram desse período: Allen Ginsberg (1926-1997), autor de um poema bem famoso e sobre o qual falamos por aqui outro dia, Uivo; Jack Kerouac (1922-1969), autor do livro que já falamos, On the road e William Burrougs (1914-1997), autor da novela Almoço nu. Não que esses autores tenham escrito apenas estes textos, mas eles uma amostra representativa do que foram no movimento.

E o próprio Ginsberg, num artigo de 1982, resumiu assim os efeitos principais da Geração Beat: “liberação espiritual, ‘revolução’ ou ‘liberação’ sexuais, ou seja, liberação gay, de alguma forma catalisando a liberação da mulher, liberação negra, ativismo dos Panteras Negras; liberação do mundo quanto à censura; desmistificação ou descriminalização da cannabis e de outras drogas; transformação do rhythm and blues em rock’n’roll, que passa a ser visto como uma forma elevada de arte, como exemplificado pelos Beatles, Bob Dylan e outros músicos populares influenciados pelos trabalhos de poetas e escritores beat do fim dos anos 50 e início dos 60; disseminação da consciência ecológica, enfatizada claramente desde cedo por Gary Snyder e Michael McClure, com a noção de um ‘planeta limpo’; oposição à civilização militar-industrial, como enfatizado pelos escritos de Burroughs, Huncke, Ginsberg e Kerouac; atenção àquilo que Kerouac (através de Spengler) chamava de ‘uma segunda religiosidade’ a desenvolver-se dentro de uma civilização avançada; retorno a e apreço pela idiossincrasia em oposição a uma regulamentação do estado; respeito pela terra e pelos povos indígenas e pelos seres sencientes, como proclamado por Kerouac em seu slogan de On the Road: ‘A Terra é coisa de índio’.”

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Filmografia:
Há pelo menos quatro filmes de maior conhecimento produzido de trabalhos dos escritores dessa geração.

- Pergunte ao pó, filme de 2006, baseado no romance homônimo de John Fante. Apesar de não está no grupo formador dos Beats, o escritor teve seu trabalho descoberto por Charles Bukowski, outro ‘descendente’ da geração Kerouac.

- Howl, filme de 2010, que recria a vida do poeta Allen Ginsberg no momento de criação de seu mais famoso texto, Uivo. Ano passado postamos cenas desse filme por aqui em que James Franco recita o poema de Ginsberg.

- On the Road, filme de 2012, baseado no romance, como já dissemos, de Jack Kerouac. Fizemos umas notas sobre filme aqui.

- Big Sur, filme de 2013, baseado noutro romance de Kerouac e que teve sua estreia no Sunadance Film Festival – e, por enquanto ainda distante das vistas nossas.

- Jack Kerouac: king of beat, s/d, filme documentário sobre Kerouac e sua importância para a cena Beat. O filme é repleto de entrevistas com os contemporâneos beats, como William S Burroughs, Allen Ginsberg, Huncke Herbert e Parker Edie; além disso, narrações em off de textos do próprio Kerouac. Já havia dado esta dica aos que acompanham a fan page do blog no Facebook e registro por aqui a quem ainda não tenha visto.

- Kill your darlings, já programado para este ano de 2013, sobre a amizade entre Allen Ginsberg e Jack Kerouac.

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De hoje, dia 15 de janeiro até o dia 6 de abril a Grey Art NYU Gallery abre uma exposição que tenta dar contas de como viveram os da Geração Beat. Os nova-iorquinos podem ver “Beat memories – the photographs of Allen Ginsberg”; a exposição é composta por uma seleção de 110 fotos feitas por Allen Ginsberg que fez questão de registrar os fatos em torno de boa parte das imagens. As imagens foram reunidas num catálogo organizado por Sarah Greenough e das quais, selecionamos algumas delas para uma amostra que pode ser vista a seguir. Para não correr o risco de tradução mal feita preservamos o texto original com que Ginsberg identifica as fotos, mas dá para se ler perfeitamente, mesmo os iniciantes em língua inglesa.