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Mostrando postagens de Outubro, 2013

Os poemas em envelope de Emily Dickinson

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Recentemente em meio a uma polêmica tivemos acesso a um arquivo digital que reúne, pela primeira vez em um só lugar, todos os documentos da poeta Emily Dickinson. O projeto “Dickinson Eletronic Archive”, conduzido pela Universidade de Havard, se arrasta tem seu tempo devido a um conflito pela posse de sua obra datado ainda do final do século XIX. A Amherst College, outra instituição também depositária dos manuscritos de Dickinson, tem parte na consolidação do projeto. Mesmo assim, os representantes da Amherst reclamam que não foram consultados e o site traz muito material sem referência às suas contribuições.
O que essa confusão tem a ver com a postagem de hoje? Não muita coisa,  apenas em comum retalhos do acervo da poeta estadunidense. Mas, findemos, antes a história sobre o espólio: quando a escritor morreu, sua irmã, Lavinia, descobriu a existência de quase dois mil poemas inéditos. Lavinia, então, consultou a cunhada, Susan Dickinson para saber como publicar esse material. A dem…

Lisístrata, de Aristófanes ilustrado por Pablo Picasso

Uma das inquietações para que inventássemos uma coluna dedicada a relação entre ilustração e literatura foi, além da constância unificadora entre as duas áreas, o fascínio sobre essa relação, muitas vezes marcada pela conjunção de dois limites altos das duas artes. Por exemplo, quando um Salvador Dalí debruça-se sobre um livro como Alice no país das maravilhas ou Dom Quixote, ou quando Henri Matisse propõe gravuras ao Ulysses, de James Joyce, ou ainda quando Candido Portinari revê a obra de Cervantes pela visada poética de Carlos Drummond de Andrade...
Outro ponto alto e é sobre ele que comentaremos hoje por aqui, é fruto da idealização do empresário George Macey, que fundou uma espécie de editora com edições limitadas ainda nos idos de 1929. Sua ideia: ter uma marca especializada na recriação de grandes obras da literatura pelo olhar de grandes mestres das artes plásticas.
Foi Macey que, em 1934, encomendou a Pablo Picasso o interesse de que pintor ilustrasse uma edição dessas – c…

A maçã envenenada, de Michel Laub

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Por Pedro Fernandes

Apresentado como o segundo título de uma trilogia que se inicia com Diário da queda, publicado em 2011, este título de Michel Laub é uma tentativa de galgar uma voz própria na cena literária contemporânea. Em linhas gerais é um texto interessante, bem escrito, uma narrativa polida e arredondada e, se me permitem a expressão, sem aberturas muito visíveis que dialogue com o romance anterior ou que deixe pontas a serem mais bem desenhadas no livro subsequente. Isto é, no que se refere ao comportamento de uma boa narrativa, pode-se ler A maçã envenenada como um acerto do jovem escritor. Agora, no que se refere a colocá-lo no interior de uma literatura que promete alguma coisa nesse cenário sem tantas visões para o futuro, é preciso não fazer tantas apostas positivas.
Laub se beneficia de uma série de relações em voga no romance contemporâneo, a nomear: a relação entre literatura e história, entre ficção e realidade, ou ainda entre ficção e memória e busca desenhar um …

Boletim Letras 360º #36

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Na semana em que comemoraremos o Dia Nacional do Livro e entramos no mês de aniversário do blog – estamos chegando a seis anos on-line – teremos para os leitores boas surpresas; por isso a recomendação aos leitores para estarem à espreita aqui e em nossas redes sociais. E, ao falar em redes sociais, aproveitemos para saber o que foi notícia em nossa página no Facebook na semana:
Segunda-feira, 21/10
>>> Portugal: Inéditos de Agustina Bessa-Luís 
Publica-se Caderno de significados com textos selecionados e organizados por Alberto Luís e Lourença Baldaque. São em parte papéis dispersos da escritora que exprimem as pequenas dimensões da vida criadora. Os escritos, muitos sem data, são compilações feitas de folhas soltas, cadernos de notas, espaços brancos de impressos, margens de livros, dispersos em pastas de congressos, em gavetas de móveis. Tal como se disse dos papéis de Proust (Essais et Articles), os de Agustina provam que "nunca deixou de escrever, nunca deixou de ex…

O Lustre, de Clarice Lispector

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Por Rafael Kafka


Muitos leitores e críticos dizem que a obra de Clarice Lispector é pouco engajada, pouco ligada ao contexto social e político que rodeava sua produção no meio do século XX. Por essa fala, podemos interpretar inclusive que Clarice seria uma representante da torre de marfim simbolista em pleno século XX segundo tais leitores e críticos: uma escrita bela, difícil, rebuscada ao extremo, mas que nada de concreto diz sobre o mundo no qual vivemos.
Durante algum tempo, senti-me tentado aderir a tal visão da obra de uma de nossas maiores prosadoras. Porém, amadurecido ainda mais pelas leituras existencialistas e absurdistas feitas por mim, creio que haja sim um engajamento de Clarice, mas não com uma fatia ou outra de nossa realidade social, e sim com o ser humano em si.
Contudo, esse humano em si não deve ser visto como uma natureza humana. Se falarmos como Camus e seu termo essencialista, tal essência é a liberdade. Mas se falarmos como Sartre, de quem a influência fica mai…

A solidão imortal do vampiro (II)

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Por Márcio de Lima Dantas


Lua cheia: falando do filme
No filme Entrevista com o vampiro, de Neil Jordan (1994) tudo pontifica a beleza e o requinte. As cenas sugerem um caráter expressionista. Há uma certa tendência em se acentuar os elementos constituidores do cenário enquanto fato semiótico: o mobiliário, as indumentárias, a música; requinte com certo toque de barroco. Outra coisa é o propósito consciente de vestir as personagens de determinadas cores. Lestat, por exemplo, sempre aparece em matizes de azul, enquanto no personagem Louis preponderam o verde e suas nuanças. Cláudia oscila entre as duas cores. O misterioso Armand está sempre de negro.
A belíssima música “Madeleine’s lament” é uma homenagem à esposa de Louis, quando este vai ao cemitério prantear a morte da amada, embriagando-se de álcool, num gesto de profundo desespero de quem lhe escapou o maior bem – fatalidade capaz de destruir abruptamente uma relação de amor e completude. Seu semblante pesaroso e autodestrutivo mal…

Os papeis literários de Seamus Heaney

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Por Frances Clarke
Em novembro de 2011, a Biblioteca Nacional de Portugal adquiriu uma de suas mais importantes doações dos últimos anos – os jornais literários do Prêmio Nobel Seamus Heaney. Os trabalhos, desde então, foram catalogados (tive a sorte de trabalhar nesta coleção) e agora estão acessíveis a pesquisadores do Departamento de Manuscritos. O arquivo como um todo é um recurso maravilhoso, pois abrange a carreira de Heaney de suas contribuições para a oficina de poesia, o Grupo de Belfast na década de 1960, até à sua coleção de poesia Human Chain em 2010. Juntamente com esse material, quase 50 anos de manuscritos de poesia (a partir de vários autógrafos e materiais datilografados) é uma semelhante e extensa coleção de rascunhos, palestras, ensaios, peças de teatro e comentários.

Enquanto trabalhava no arquivo, eu estava particularmente interessado numa série de cadernos que apareciam ligados entre si. Esses cadernos me intrigaram porque neles estão uma gama muito imprevisível e …

Cortázar, um cronópio em Berkeley

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“Têm que saber que estou nestes cursos improvisando-os, bem pouco antes que vocês venham aqui: não sou sistemático, não sou nem um teórico, de modo que, à medida que vão sendo levantados os problemas de trabalho, busco soluções.” É menos inquietante quando um professor começa sua primeira sessão dirigindo-se aos alunos dessa maneira. Mas se está perdoado quando o professor é Julio Cortázar. Além disso, não era exatamente assim. O escritor argentino levava seu aparato de notas e um bom número de livros marcados para dar um curso sobre as chaves de sua obra entre outubro e novembro de 1980 na Universidade de Berkeley.
Que faz o iconoclasta e anti-imperalista autor de O jogo da amarelinha dando aulas na universidade estadunidense só se explica porque perdeu seu velho amigo Pepe Durand, especialista em literatura colonial, com uma proposta que implicava “trabalhar pouco e ler muito”, tanto que lhe permitiu escrever Botella al mar. Epílogo a um cuento, que Cortázar incluiria em seu último…